Kurt Cobain's POV:
Nem meu quarto, totalmente enegrecido pelas cortinas da casa solitária, servia de refúgio. Estava tão drogado que os entorpecentes já não me apagavam mais. Deitado, vestido com o pijama que eu não tirava há dias, sentia-me preso entre o êxtase e a tortura. Não podia dormir, nem levantar. "Vá se foder, cara!" Dave gritava comigo ao telefone, enquanto eu percorria com um dedo as listras azuis e brancas do tecido que me envolvia. "Você está sabotando a banda, está ouvindo Cobain? Vai acabar com toda sua vida." Me ameaçava com fúria, esperando que o retribuísse.
Contra fatos não há argumentos. O ensaio daquela tarde era apenas um dos milhares que eu havia faltado, e pretendia seguir com isso. Perdi tudo, absolutamente tudo. Material e espiritualmente falando. Evelyn, a banda, as drogas, a vontade de existir. Minha vida já estava acabada, de fato. Tudo que precisava era um tiro. Um único.
Uma bituca de cigarro e Kurt Cobain eram a mesma coisa: um lixo minúsculo, insignificante, descartável. Anotei a comparação em um pedaço de jornal, caso em algum momento, por milagre, eu voltasse a escrever música. "Kurt, reaja!" O baterista já não se contentava mais em ouvir minha leve respiração.
"Faça o que quiser. Eu não dou a mínima." Respondi, com a calma de monge budista, e desliguei. Consegui mover meu corpo até ele estar de lado, e exalei todo o ar de meus pulmões como se fosse a última vez. Minhas pálpebras se uniram por segundos, revelando-me uma escuridão não muito diferente da que preenchia o cômodo e meu ser. Quando pensei estar enjoado dela a ponto de dormir e morrer por algumas horas, os cachorros da rua iniciaram um coro desafinado e sem ritmo de latidos.
Porra...
Soavam como gatilhos que nunca levavam ao tiro, uma agonia sem final para uma alma desesperada. A campainha acompanhou, fazendo minha cabeça girar. "Senhor Cobain, há uma carta para você." Ouvi Jorge, o carteiro. Apesar de meu apreço pelo humilde homem e minha admiração por sua vida simples e sem preocupações, não fui capaz de sequer espiar através de uma fresta nas portas da varanda. Antes da desistência dele, houve palmas e mais uma vez a campainha. Foda-se qualquer carta. Foda-se qualquer conta ou processo que fosse. Nem Jesus Cristo me traria de volta o desejo pelos encantos de ser mundano.
Novamente, o silêncio. Palco para minha mente barulhenta atormentar-me, enquanto eu lutava para dormir. Não lembrava desde quando estava acordado. Porém, então, houve o ruído curto do portão, que abria, leve, e chocava-se discreto ao fechar. Conhecia aquelas maneiras. Sabia quem estava subindo. Um amargor escalou minha garganta e me arrependi de tê-la conferido uma chave. Meu corpo moveu-se mais uma vez, me deixando perplexo. Aquilo poderia ser considerado exercício, tendo em vista minha atividade durante a semana. Encarando o teto, pressionando as unhas contra a palma da mão, aguardei a visita.
"Cobain." A voz suave através do sorriso ecoou entre as paredes. Largou a bolsa de couro sobre uma cadeira e veio até a cama. "Hey, o que anda acontecendo com você? Está péssimo." Removeu seus sapatos antes de engatinhar sobre o colchão e debruçar-se sobre mim. "Isso não significa que eu não esteja morrendo de vontade sua."
"Amy, quem te chamou aqui?" Segurei-a pelos ombros e a empurrei para o lado. Seus cabelos negros, que contrastavam com o vestido de ceda branco, flutuaram alguns segundos no ar quando a garota caiu sobre o travesseiro.
"Seus estoque de Heroína." Encarou-me com aqueles grandes e maliciosos olhos. "Sei que está acabando, Kurt. Não entrei nesse mercado negro ontem." Seus lábios vermelhos formaram uma meia-lua.
"Que pena..." Acariciei seu rosto. "Já estou saciado." Minha mão deslizou até seu pescoço, apertando-o. Ela fazia parte da minha raiva, pois era parte do que consumira o melhor que eu tinha. Seu olhar revirou-se até o topo e o cenho franziu, causando a aproximação das sobrancelhas.
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Salvando Kurt Cobain
Fiksi PenggemarKurt Cobain jurou que não tinha uma arma, mas Evelyn Hate sabia que isso era uma mentira.
