Capítulo 29

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Anahí fez um esforço sobre-humano para não pedir que Alfonso ficasse, a maneira que ele saiu após a ligação da noiva a machucou de muitas formas. Ele nunca fora imprudente, agiu como ela esperava que agisse, afinal era o chamado da mulher que havia escolhido para casar, mas esse motivo não atenuou a sensação de ter o peito esmagado contra a pele. Ela despediu-se de Charles com poucas palavras, decidida a afundar-se no trabalho, revisaria as encomendas, testaria novas receitas, qualquer coisa que ocupasse sua mente e tirasse o foco dele.

Alfonso não poderia afastar os pensamentos e fugir dos problemas como ela, pelo contrário, deveria enfrentá-los por mais difícieis que fossem, e fora exatamente isso que fez quando chegou ao apartamento da mãe e viu Natalie sentada no sofá, rodeada de malas. Ela estava com os olhos inchados e úmidos, Alfonso engasgou ao vê-la daquela forma, tão destruída.

Alfonso: Voltei o mais rápido que consegui. – Iniciou, sentando frente a frente.

Natalie: Você passou a noite com ela? – Devolveu, a voz embargada.

Alfonso: Não Natalie, encontrei um amigo que me ofereceu estadia.

Natalie: Tudo bem, agora estou disposta a escutá-lo. Sem mentiras, nem entrelinhas e omissões, por favor.

Alfonso: Não menti quando disse que estava apaixonado e a pedi em casamento, eu realmente estava disposto a construir uma família ao seu lado. Você chegou em um momento de fragilidade e me resgatou, vou ser eternamente grato por todo o cuidado, carinho e principalmente pela oportunidade de aprender o que é um relacionamento saudável.

Natalie: Uma vez li em algum lugar que é muito perigoso se envolver com pessoas emocionalmente fragilizadas, só hoje eu entendo o sentido dessa palavra Alfonso. A Anahí te deixou feridas e tentei curá-las mesmo sem saber quão profundas eram, e enquanto eu me apaixonava você se esforçou para retribuir, como se fosse escolha sua devolver esse sentimento. Você acreditou fielmente que nós estávamos na mesma posição, eu te amando e você me amando de volta. – Puxou o ar dos pulmões, contendo uma lágrima grossa com o polegar.

Alfonso: Natalie... – Iniciou. - Eu quis amar você, de todo coração. – Disse, e então se agachou na frente dela, apoiando as mãos nos seus joelhos.

Natalie: Eu sei que tentou, enquanto estávamos longe dela você se saiu bem. Foram bons anos, bons momentos e em nome deles eu pensei a noite inteira, e cheguei a uma conclusão. – Pausou. - Mesmo que possa soar como humilhação ou falta de orgulho, eu quero saber se existe alguma possibilidade mínima de ter sido apenas uma transa sem significado. Porque se você me disser isso eu juro que posso tentar perdoá-lo, mas preciso ouvir da sua boca.

Enquanto Natalie argumentava Alfonso foi tomado por uma mistura de lembranças, e assim, como se estivesse em um mundo paralelo, ele podia ouvir a gargalhada estremecida de Anahí em seus ouvidos, a mesma que tomara conta da confeitaria enquanto compartilhavam a garrafa de vinho, depois a pele esquentou com a sensação dos dedos delineando seus braços, a nuca parecia eriçada, exatamente como ficava quando ela percorria os lábios molhados para provocá-lo. Mas não era só isso, o coração palpitou como a batida de uma música quando fechou os olhos e a viu sorrindo com os dentes à mostra, os cabelos eram tão macios e cheirosos que podiam ser facilmente confundidos com o aroma de um lar limpo e aconchegante. Enquanto ela girava na mente dele - com fluidez e leveza - a garganta parecia rasgar tamanho desejo de dizer palavras bonitas.

Havia necessidade entre eles, intensidade. Intensos na dor, talvez no amor, como poderia resumir tantos sorrisos, abraços, beijos calorosos, sonhos, anseios, saudade, dúvidas, cuidado, em tesão? Aos poucos Alfonso retomou a consciência, desfazendo-se das recordações, mas não dos sentimentos.

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