"Você só saberá do que é capaz quando libertar os monstros que estão presos em sua cabeça."
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Era uma manha cinza quando Eisley colocou sua maquilhagem neutra e espirrou sobre seu pescoço o perfume caríssimo e afrodisíaco que Justin havia presenteado ela em seu aniversário. Fora uma noite regada a vinho bordô e velas iluminando o chão de toda a sala de estar, enquanto eles permaneceram abraçados observando a lareira e conversando sobre a vida.
Em um mês Justin já conhecia toda a história dela. Principalmente, as fraquezas e falhas de Eisley, porque em menos de duas semanas ela apaixonou-se perdidamente por ele. Mas a vida não é um mar de rosas e dois meses depois, ele sentiu-se obrigado a contá-la porque não estava mais no exército.
Eisley desceu as escadas da casa de Justin vestida em um vestido de tule preto e com o rímel borrado por causa das lágrimas que insistiam em cair pelo seu rosto bronzeado. Ela entrou no carro dele e dirigiu em direção ao cemitério com a cabeça cheia de coisas e o coração deslocado.
Ao chegar no cemitério, Eisley desceu do carro e caminhou em direção ao túmulo de Justin. Ela deparou-se com um enterro militar e ela era a única pessoa que nenhum dos homens fardados conhecia, mas também fora a única que compareceu no local.
- Eu saí de casa logo após entrar no exército e meus pais cortaram os laços comigo por eu não seguir meus irmãos.
Eisley lembrou-se da segunda noite em que se encontraram e ele contou a ela sobre como fora viver sozinho. Mas Justin não sabia que toda a sua história era música para os ouvidos dela, porque ela também queria fugir da casa de sua mãe que vivia somente para si e não se importava com a filha.
Você disse que nos atualizaríamos, mas não está aqui para cumprir com a palavra. Ela disse para si mesma enquanto o caixão de Justin descia para dentro da cova, mas quando os tiros se perderam no ar, ela sentiu que as suas lágrimas silenciaram-se e um nó surgiu em sua traquéia.
Desta vez, Eisley estava convicta a seguir seu caminho e tomar um rumo novo para sua vida. Sem pecados, sem memórias, sem túmulos. Foi o que ela disse enquanto a última lágrima escorria pelo seu rosto e sentia o choro silencioso cortar sua garganta com fibras de gelo preenchendo seu coração e deixá-lo totalmente frio.
Naquela noite fria e estrelada, Eisley sentou-se na varanda como se estivesse com ele, enquanto seu corpo se aninhava no pórtico e seu coração adaptava-se rapidamente a dor que tinha nascido na explosão da noite anterior.
Eisley odiava admitir o quanto suas mãos estavam tremendo, porque ela estava mal respirando e seu coração estava acelerado. Naquele momento, ela não se importava mais com sua maquilhagem borrada ou com a camisola sexy preta que estava vestida e com os pés descalços no porcelanato que refletia o reflexo dela mesma.
Jacqueline tinha razão quando disse a ela que nem sempre os sentimentos mudam as mentes humanas, mas Eisley queria provar o contrário para falecida mãe. Porque além destas terem sido as últimas palavras da mãe, a garota queria recompensar todos os seus erros. Talvez, uma mudança de vida não iria recompensar um passado trágico, nem tampouco uma vida perdida.
Ela estava vivendo com pequenos flashes do passado, mas Eisley não pretendia decepcionar a si mesma. Pretendia não cometer mais erros e ser a pessoa perfeita que todos queriam que ela fosse. Apesar de bem atrás de sua mente, ela saber que sua alma ainda estava manchada de muitas coisas que a tornavam terrivelmente obscura.
Deixe as lembranças queimarem e quebrarem quando a dor vier. Foi o que Justin disse para ela quando descobriu as falhas e segredos que Eisley tentou manter dentro de um túmulo. Mas quando a pá está em mãos alheias a verdade pode surgir juntos com restos mortais que deviam permanecer dentro de um caixão vazio.
Naquele momento o coração de Eisley estava rasgado ao meio enquanto os sentimentos caíam em pleno solo frio ao mesmo tempo em que as paredes se queimavam com a verdade nua e crua que ela estava tentando superar.
Eisley ainda estava tentando deixá-lo ir como deveria ter feito quando seus olhares se encontraram na locadora de filmes. Mas mesmo que o tempo passe, certas coisas nunca iriam mudar como o adeus que deveria ser para sempre desde a primeira vez.
Mesmo o tempo que passou nunca mude, Eisley aprendeu a quebrar e queimar as memórias. Mas quando aquela velha canção tocar, ela lembrará que é a canção dela, feita somente para ela.
Ela não poderia mais ter Justin e ele não pertencia mais à ela. Mas ele sempre será o único a machucar Eisley e às vezes, ela flagra a si mesma segurando o passado, mesmo sabendo que deveria soltá-lo.
Poderia afirmar que Eisley era apenas um pequeno barco flutuando nas grandes ondas do oceano Atlântico, mas ela era como uma bomba relógio. Há qualquer momento ela poderia explodir e atingir as pessoas com os estilhaços de seu passado.
Apenas com a faísca de um fósforo ela poderia explodir um país inteiro, mas Eisley ainda estava no controle. Ela ainda estava destruindo as barreiras que a impediam de perder o controle e quando isso acontecer, todos escutarão a voz que se esconde no silêncio.
Já passou o tempo em que o fogo que queimava os ossos dela a incomodavam. Havia muita força e falta de responsabilidade dentro Eisley e isso não era uma mistura boa. Mas ela não iria recomeçar sua vida do zero, pois não havia alguém como Justin ao seu lado e naquele momento ela encontrava-se no modo "não pertube".
Vazia. Era assim que Eisley sentia-se por dentro e mesmo que deixasse suas lágrimas caírem no chão, ela ainda estava oca. Ela esperava que Romeu pudesse curar seu coração, mas Justin sempre será o único a rasgar e reconstruir os sentimentos dela.
Mesmo não estando mais vivo, Justin dominava as emoções dela e ela estava destruída. Eisley havia se perdido no silêncio dos seus gritos e nas sombras da sua escuridão.
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Rabiscos Na Bruma
RomanceAlgumas histórias não devem ser contadas ou escritas, mesmo que seja nas melhores das intenções. Mas é como diz o ditado popular, o inferno está cheio de boas intenções. A história se sucede em Veneza, cidade localizada no nordeste da Itália situada...
