Nos dias seguintes, estou empolgada como nunca. Consegui a vaga temporária de cozinheira na Fundação Nascer do Sol e, para minha alegria, recebi elogios pela comida que preparei. Isso aqueceu meu coração.
Para quem não conhece, a fundação foi criada há poucos anos e é graças a ela que muitas crianças e adolescentes carentes têm acesso a uma educação de qualidade — totalmente gratuita. Desde a inauguração, tem sido um verdadeiro alívio para a região, especialmente considerando que as escolas mais próximas ficam em vilas distantes. Conseguir trabalhar ali é uma oportunidade e tanto. Além do salário, tenho a chance de passar mais tempo com as crianças que tanto amo.
Falando em dinheiro, minha esperança é juntar o suficiente para me manter, ao menos por alguns dias, com mamãe e Pedro na capital. Eles também estão economizando o que podem, e torço para que eu consiga outro emprego assim que chegarmos lá.
Ana Clara, uma grande amiga, nos convidou para ficar na casa dela nesse início, mas mamãe recusou. Confesso que fiquei um pouco desapontada. Já estava até imaginando como seria viver por um tempo naquela casa linda da Ana... mas mamãe tratou de cortar esse sonho pela raiz.
Mais tarde, entendi que ela recusou por não querer incomodar Ana Clara e o marido. Em vez disso, vamos ficar na casa da prima dela, Noemi — uma mulher que, segundo mamãe, é simpática, acolhedora e viúva. Os filhos de Noemi moram em outro estado, então ela vive sozinha. Mamãe quer passar um tempo com ela, enquanto procura emprego. Mas, sendo bem sincera, se eu conseguir um trabalho antes, ela vai poder descansar sem culpa. E é isso que eu quero. Já Pedro, por sua vez, também quer se empregar em Belo Horizonte e conquistar sua independência.
— Mas vocês vêm me visitar, né? — pergunta Ana Clara do outro lado da linha.
Atendi a ligação quase por milagre, já que o sinal por aqui é horrível e precisei caçar o canto exato da varanda onde a ligação não caísse.
— Claro! Acha mesmo que vou perder a chance de colocar o papo em dia e conhecer sua "humilde" residência?
A "casinha" da Ana é enorme. Ela está bem de vida agora, mas continua sendo aquela garota simples e gentil de sempre. Sorte a dela — e a minha, por ainda tê-la por perto, mesmo distante.
— Quero te mostrar cada cantinho e espero que durma aqui de vez em quando. Tem muito quarto sobrando.
— Aposto que tem. Pode contar comigo, eu vou sim. — respondo, sorrindo. — E os pequenos, como estão?
— Estão ali, brigando pra ver quem grita mais alto. — diz, rindo. Ao fundo, ouço a avó da Ana dizer algo como "ninguém segura esses meninos!".
Sorrio ao ouvir as vozes eufóricas.
— Dá pra ouvir. Eles não cansam de brincar, né?
— Nunca! — ela responde, ainda rindo.
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— Mal posso esperar pra conhecer BH. — suspiro, contemplando o lindo campo à minha frente.
O coração aperta um pouco. Vivi tanto tempo aqui... é impossível não sentir uma pontinha de nostalgia. Mas ir para a capital não significa abandonar minhas raízes. Eu prometo voltar sempre que der, visitar minha vila e as pessoas que gosto.
— Você fala tanto nisso, que até dá medo de dar errado. — Pedro comenta ao meu lado, coçando a orelha do cavalo. Sei que ele também vai sentir falta daqui — especialmente do Fumaça.
— Vira essa boca pra lá! Claro que vamos.
— Então para de falar tanto. Isso dá azar — resmunga, o olhar preso no animal. — Consegui um comprador pro Fumaça. Ele vem buscá-lo amanhã. — suspira.
— Vai sentir falta dele, né?
— Claro. Ele está comigo há anos. Mas não tem como levá-lo pra cidade.
— Sinto muito. — digo, observando-o com compaixão.
— Pelo menos o novo dono parece ser um cara bom. Ouvi falar bem dele. Ama animais e se encantou com o Fumaça logo de cara. Não poderia pedir por um lar melhor pra ele.
— Também vou sentir falta desse menino. — me aproximo do cavalo e acaricio seu pescoço. Ele é tão bonito.
— Você acha que vai dar tudo certo lá? — Pedro pergunta de repente.
Eu o encaro.
— Lá onde?
Ele revira os olhos.
— Belo Horizonte, burra!
— Ei! Me respeita. — dou um soco leve nele, fazendo-o rir.
— Responde logo. Você acha que vai dar certo?
— Hm... não faço ideia. — suspiro, observando meu irmão. Pedro tem cabelo escuro, um pouco de barba por fazer, e mesmo com 24 anos, ainda tem um quê de adolescente. — A gente só vai saber tentando. O destino é imprevisível.
— É... vou orar pra tudo dar certo.
— Eu também. — mal termino de falar, um calafrio estranho percorre minha espinha. Estremeço, torcendo para que seja um bom sinal.
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A Flor e o Herdeiro
RomanceMargarida Bellini é tão peculiar quanto o seu nome. Bonita como uma flor do campo, ela captura a atenção de Rafael Bittencourt no instante em que seus caminhos se cruzam pela primeira vez, na pequena região onde vive com a mãe e o irmão. Mas, depoi...
