capítulo 17

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É mais do que óbvio que minha família fica surpresa quando Rafael estaciona o carro em frente à nossa casa.

Já tinha avisado que sairia com meu patrão e a irmã dele, mas sei que serei bombardeada por perguntas depois — especialmente por minha mãe, que me observa com olhos atentos até eu entrar no carro.

Rafael acena para ela ainda de dentro do veículo e murmura um "boa noite" antes de dar partida.

Estou sentada no banco da frente, enquanto Agnes segue atrás, entretida no celular, sorrindo com algo que vê na tela.

— Você está linda, flor. — viro o rosto rapidamente ao ouvir Rafael dizer isso, e agradeço mentalmente pela semiescuridão dentro do carro, que provavelmente esconde meu rosto ruborizado.

— Obrigada.

Aliso o vestido longo de alças, florido e despojado, e ajeito as rasteirinhas que escolhi com carinho. Meu cabelo está solto, e coloquei os brincos que ganhei no meu último aniversário.

Rafael, por outro lado, veste calça jeans, camiseta branca e um blazer escuro de corte justo. Agnes está uma graça com seu vestido jeans e tênis coloridos.

— Vai nos levar mesmo pra um restaurante? — pergunto, ainda meio descrente.

— Esse é o plano. Depois pensei em darmos uma volta pela cidade. Tem uma sorveteria ótima não muito longe daqui.

— Isso soa ótimo. — Agnes comenta, animada.

— Vocês vão acabar comigo. — brinco, arrancando risadas dos dois.


***


Foi estranho entrar no restaurante que Rafael escolheu. Luxuoso demais pra mim. Ainda bem que sei usar os talheres certos, senão seria um desastre. Apesar disso, a comida mineira estava deliciosa, e a conversa fluiu com naturalidade.

Depois do jantar, Rafael paga a conta e nos levantamos.

— Você não tá de dieta, né? — ele pergunta com um sorriso torto.

— Claro que não. — faço uma careta e ele ri.

Hoje posso exagerar. Só preciso não passar mal de tanto comer.

A sorveteria para onde ele nos leva depois é bem mais simples, e me sinto mais à vontade. Rimos, conversamos, e até Rafael ri de uma piada boba que conto.

— Acho que essa delícia de sorvete não tá me fazendo bem. — comento depois de um ataque de risos.

— Certeza que é o excesso de açúcar. — Agnes diz, rindo com o irmão.

Minutos depois, seguimos para o carro de Rafael.

Ele dirige pela cidade em um passeio tranquilo. A música suave no rádio torna tudo ainda mais confortável. Não descemos em nenhum momento, e o tempo parece desacelerar enquanto passamos por ruas iluminadas.

— Vou deixar Agnes em casa primeiro, já que estamos perto. Depois te levo. — ele comenta, entrando em uma rua mais calma.

Assim que estaciona em frente à mansão, o porteiro abre o portão. Agnes me dá um abraço caloroso, se despede e entra em casa.

Logo Rafael volta à estrada, agora rumo ao bairro onde moro.

Durante o caminho, o silêncio é tranquilo. Um tipo de silêncio que não incomoda. Quando ele estaciona em frente à casa simples onde moro, não buzina. Provavelmente todos já estão dormindo.

Estou prestes a abrir a porta para descer, mas percebo que ela está travada.

— Obrigada pelo passeio, Rafael. Pode destravar agora. — digo, meio tensa com a proximidade entre nós, principalmente quando ele sorri daquele jeito cheio de segundas intenções.

— Fica mais um pouco. Ninguém percebeu que chegamos.

— Destrava a porta. — insisto, tentando manter a firmeza na voz.

— Tá nervosa por ficar perto de mim?

— E-eu... claro que não!

Ele ri, e então se inclina, diminuindo a distância entre nós. Meu corpo inteiro se enrijece quando nossos rostos ficam próximos demais. Tento manter o foco, mas meus olhos traem meu controle ao se prenderem nos lábios dele.

Balanço a cabeça, tentando afastar os pensamentos, mas não tenho tempo de dizer nada. Rafael me beija.

Isso mesmo. Ele cola os lábios nos meus e, por instinto, começo a empurrá-lo com as mãos no peito. Mas não consigo continuar resistindo. Meus dedos escorregam até os ombros dele, e minha boca... minha boca cede.

O carro tem vidros fumê, então ninguém lá fora vê. Rafael aprofunda o beijo, e nossas línguas se encontram com uma urgência inexplicável. Um gemido escapa de mim, e ele prende minha nuca, os dedos entrelaçados nos meus cabelos.

Por um instante, esqueço de tudo. De onde estou, de quem ele é. Mas então... o rosto da noiva dele surge na minha mente. E a culpa me acerta como um soco.

Me afasto bruscamente, ofegante, o coração disparado.

Rafael me encara em choque. Seu olhar azul transborda emoção contida, e então ele solta um suspiro frustrado.

— Merda! — resmunga entre os dentes.

— Destrava a porta. Quero sair. — digo, quase em lágrimas. — O que acabou de acontecer foi um erro.

Ele não responde. Apenas me observa, como se tentasse encontrar alguma explicação para o que acabou de fazer.

Finalmente, ouço o som do destrave da porta.

Desço do carro às pressas e entro em casa usando a chave reserva, sem olhar para trás.

Da janela da sala, vejo o carro dele se afastar na escuridão.






A Flor e o HerdeiroOnde histórias criam vida. Descubra agora