capítulo 8

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Dias depois...

Eu mal posso acreditar que consegui o emprego. É uma notícia incrível e, ao mesmo tempo, assustadora. Claro que estou levando em conta o fato de isso só ser possível graças ao Rafael, que convenceu Célia, mas não vou negar a oportunidade por orgulho ou qualquer outra coisa.

Eu apenas vou agarrar esse emprego com unhas e dentes, mesmo estando um pouco apreensiva.

Arrasto minha mala para fora da casa simples e meus olhos ardem assim que encontram minha mãe. Pedro está ao seu lado, com dona Noemi.

— Ei, não chore. — Mamãe me abraça. — Você não está mudando de cidade, apenas de bairro e de casa.

— Mas vou sentir sua falta. — Choramingo, fazendo-a sorrir um pouco.

— Prometa que virá aqui todo fim de semana.

— Prometo. — murmuro antes de abraçar Pedro e dona Noemi. — Virei para cá nos fins de semana.

Conseguir o emprego de empregada interna da família Bittencourt foi uma realização incrível, tanto pelo salário generoso quanto pelos outros benefícios. Mas isso não apaga o fato de que vou morar na mansão, longe da minha família.

Além disso, nem quero pensar em como vai ser tenso ficar perto do Rafael, por mais que ele viva em seu próprio apartamento.

— Eu tenho que ir. — murmuro, percebendo que o motorista da família Bittencourt está impaciente em frente ao carro escuro e luxuoso. — Agora eu tenho que ir. Vejo vocês no final de semana. — Pego minha mala e mochila com meus pertences.

Aceno mais uma vez para eles antes de entrar no carro.

O senhor atrás do volante permanece em silêncio, enquanto observo a paisagem do lado de fora, realmente ansiosa para pisar na mansão dos Bittencourt outra vez.


***


Meu semblante é pasmo assim que conheço o quarto onde vou dormir.

— É esse mesmo?

— Sim. Algum problema?

— Oh, não, Célia. Na verdade, superou minhas expectativas. — Observo o cômodo com paredes lisas e brancas, e a cama de solteiro próxima à janela. O quarto fica no andar de baixo e, segundo Célia, na área destinada somente aos funcionários internos.

— Que bom. — Ela esboça um breve sorriso, diferente da carranca habitual. Para não perder seu gesto inédito, sorrio de volta. — Como já está instalada, eu vou indo. Tenho serviços a fazer.

— Obrigada por ter me ajudado a localizar o quarto.

— Não agradeça. É meu trabalho. Com licença.

Puxo minha mala para perto do guarda-roupa antes de retirar minhas roupas de dentro e organizá-las. Em poucos minutos, termino o que precisava fazer e respiro aliviada.

Sorrio para meu novo quarto, satisfeita por ter um lugar mais que decente para dormir.

Sigo até a cama, percebendo que há um uniforme perfeitamente dobrado sobre ela. Puxo as peças, notando que o modelo parece ter sido feito sob medida para o meu corpo.

— Hora de trabalhar. — murmuro comigo mesma na manhã seguinte. Confesso que dormi bem naquele colchão fofinho e tive bons sonhos.

Sorrio, seguindo para a área de serviço.

— As tarefas de todos os funcionários já foram atribuídas, e você poderá ter acesso às suas através desse painel digital. — Célia me encara assim que as outras funcionárias se afastam para suas funções.

Há um painel, parecido com uma TV, onde estão listados os horários e tarefas de cada empregado durante aquele dia.

— Seu modelo de carga horária foi enviado para seu e-mail esta manhã, e todas as tarefas estão programadas para cada dia. Então, não espere a mesma atividade todos os dias. Elas podem variar, mas se repetirão ao longo da semana.

Sigo até o painel e vejo que me foi atribuída a limpeza e arrumação de alguns quartos, por enquanto. Pelo tamanho da mansão, deve haver vários quartos desse tipo.

— Esse quarto aqui... — ela aponta um número no painel. — Pertence ao Sr. Rafael. — Tento disfarçar minha surpresa. — Você ficará com a limpeza dele e desses outros. O Sr. Rafael tem seu apartamento, mas gosta de vir para a casa dos pais algumas vezes, então o quarto precisa estar limpo caso isso aconteça.

Bem, eu posso lidar com isso. É o quarto do Rafa, mas continua sendo apenas um quarto. Além disso, ele quase não aparece por aqui, segundo Célia, e eu não acho que vá vê-lo. Meu coração acelera só de pensar nisso.

Logo depois de afastar minhas divagações, inicio o meu trabalho — e é bom fazer isso, ao invés de ficar pensando demais. Deixo o quarto do Rafa por último, adiando o inevitável. Sei que não posso demorar muito, então é com apreensão que sigo para a "zona de perigo".

Assim que adentro o cômodo espaçoso, não consigo conter meu espanto diante de tanto luxo. Diferente dos outros quartos que limpei, esse é tipicamente masculino, começando pelas paredes até a cama com uma colcha marrom. Há marrom por todo lado e uma TV enorme de frente para a cama. Além disso, o quarto tem até um pequeno frigobar e mais parece uma casa.

Sem me ater muito à minha apreciação, me apresso para limpar o quarto. Retiro a pouca sujeira que encontro, percebendo que tudo é muito limpo e organizado.

Tudo no guarda-roupa tem o cheiro do Rafa e há um pedaço dele em cada canto do cômodo. Medalhas de mérito nas paredes revelam que ele foi um aluno inteligente na escola. Há alguns troféus de campeonatos em uma estante e retratos sobre a mesa de canto, bem perto do abajur.

Sem poder me conter, aproximo-me e seguro um porta-retratos. Há uma foto do Rafa com a roupa de formatura. Deixo esse retrato de lado e pego o que está ao lado. Sorrio ao encarar uma versão mais jovem do Rafa. O menininho de cabelo castanho claro, que devia ter uns cinco anos na época em que a foto foi tirada, sorri para a câmera.

— Como você era fofo, Rafa. — murmuro para mim mesma, e só percebo o ruído atrás de mim tarde demais.

— Quem era fofo?

Estanco no lugar por um momento antes de me virar, com o coração acelerado.

Rafael, a versão real em carne e osso — e músculos — está parado a poucos metros de mim. E não é só isso que consigo captar, afinal ele está em frente à porta do banheiro do quarto, usando nada além de uma toalha enrolada na cintura.

Meus olhos percorrem seu peito nu, notando as gotas de água do banho recente e músculos nos lugares certos. Meus olhos sobem para seu rosto.

Rafael está sorrindo, enquanto eu estou prestes a explodir de constrangimento.

Droga!

A Flor e o HerdeiroOnde histórias criam vida. Descubra agora