— Eu sabia que reconhecia essa voz. — Agnes se levanta, e por um breve instante vejo a surpresa e felicidade estampadas em seu rosto antes que ela se jogue nos meus braços.
Retribuo o abraço, ainda atônita ao descobrir que ela é a dona do quarto... e irmã do Rafael.
— Céus, que baita coincidência. — consigo dizer quando finalmente recupero o fôlego. — Sabe que eu também achei sua voz familiar? Agnes, é muito bom te reencontrar.
— É muito bom te ver também, Margarida. — Ela se afasta um pouco, mas o sorriso permanece ali, estampado em seu rosto doce. Como ela mudou desde a última vez que a vi.
Está visivelmente mais magra, o cabelo loiro agora preso em um coque desalinhado, e o rosto marcado por olheiras fundas. Parece não dormir direito há dias, o que me faz pensar se o bullying que ela sofria ainda a persegue. Talvez por isso o quarto estivesse tão escuro antes... talvez por isso todo esse isolamento.
— Me conta tudo. O que aconteceu desde a última vez? — puxo-a para sentar na cama comigo. — Aquelas nojentas te deixaram em paz?
Agnes solta um suspiro, abaixando os olhos.
— Sim, deixaram... — responde após uma breve pausa, forçando um sorriso. Mas algo me diz que não está sendo sincera. E se estiver escondendo a verdade, eu vou descobrir. — Mas chega de falar de mim. Quero saber de você. Como conseguiu esse emprego aqui?
— Depois de distribuir alguns currículos, fui chamada para uma seleção e... pronto, o trabalho caiu justamente aqui. Eu nem fazia ideia de que você morava nessa casa.
— E eu jamais imaginaria que você estivesse trabalhando aqui. Que surpresa maravilhosa!
— Põe maravilhosa nisso! — brinco, empurrando de leve seu ombro. Ela ri, e vejo um brilho novo em seu olhar.
É reconfortante ver que minha presença teve esse efeito. Agnes merece muito mais do que essa tristeza constante. Ela é doce, gentil, e tão jovem... não devia estar se afundando em solidão quando tem uma vida inteira para aproveitar. Prometo a mim mesma que enquanto eu estiver aqui, vou fazer o possível para arrancar mais sorrisos dela.
***
No fim da tarde, aproveito meu momento de descanso para tomar um banho longo e relaxante antes de seguir para o quarto de Agnes.
Consegui convencê-la a manter a janela aberta, e espero que ela tenha cumprido isso. Ela comentou que se sente sozinha a maior parte do tempo e me chamou para assistir a um filme com ela. Aceitei na hora. A verdade é que eu também não gosto de me sentir sozinha nessa casa gigantesca.
Enquanto caminho pelo corredor, passo em frente à porta de Rafael e tenho o azar dela se abrir justo nesse momento.
Antes que eu possa escapar, ele estende o braço e me puxa para dentro do quarto.
Abro os olhos, surpresa, enquanto ele me encara como um professor sério observando uma aluna rebelde.
— Por que me puxou pra cá? — questiono, tentando soar firme. — Não tem medo de alguém nos ver?
— Claro que não. Por que teria? A casa também é minha.
— Sua noiva provavelmente não ia gostar de me ver aqui.
— Pilar não está em casa.
— Mas continua sendo sua noiva. — cruzo os braços, irritada. — Não acho certo ficar sozinha com você. Me deixa sair. — olho para sua mão ainda segurando meu braço. O toque não dói... mas me causa sensações perigosamente familiares.
Estou me sentindo uma adolescente boba, e não uma mulher de vinte e dois anos que sabe o que quer.
— Por que vive fugindo de mim? — ele murmura, me puxando um pouco mais para perto.
Ficamos perigosamente próximos. O perfume dele me invade — um aroma amadeirado e inebriante que só piora minha confusão mental.
Droga. Por que estou reparando nisso?
— Eu não fujo de você. — murmuro, desviando o olhar. O erro é mirar justamente em sua boca. E ele percebe. Sorri, como se lesse meus pensamentos. — Só acho errado essa proximidade entre a gente.
— Por quê?
Ele realmente está me perguntando isso?
— Sério, Rafael? Você está noivo! E sua mãe... bem, tenho certeza de que ela não aprovaria nada entre nós dois.
— Minha mãe? — ele franze a testa. — Ela falou algo pra você? Me diz.
— Não, não disse. — minto. Não quero que ele crie atritos com a própria mãe. — Mas não acho que ela vá gostar.
— Isso diz respeito só a nós dois. Ela não tem que gostar.
— Pena que não posso dizer o mesmo da sua noiva. — respiro fundo, exausta dessa conversa que parece nunca sair do lugar. — Parece que estamos andando em círculos.
— E por que isso te cansa tanto? É tão difícil assim ficar perto de mim? Você sente nojo?
Nojo? Ele só pode estar brincando. O que sinto está bem longe disso... e perigosamente perto de algo que aquece demais minhas bochechas.
— Claro que não sente nojo. — ele ri, notando minha expressão. — Você gosta de mim.
— Não gosto. — minto de novo.
— Gosta sim. E quer saber? Eu também gosto de você. Sou completamente louco por você, flor. — Ele acaricia minha bochecha com o polegar, e o toque é como fogo na minha pele. — Me dá só uma chance. Prometo que termino tudo com Pilar. Esqueço o passado.
Passado?
Franzo o cenho, prestes a perguntar o que ele quis dizer, mas não tenho tempo.
Seus lábios encontram os meus num beijo intenso.
No começo, fico paralisada. Mas é só por um momento. Em questão de segundos, estou correspondendo, totalmente entregue, sentindo o gosto de Rafael como se fosse a melhor coisa que já provei na vida.
Logo, seus beijos descem pelo meu pescoço. Meus dedos se espalham por seus ombros. As mãos dele escorregam pela minha cintura, descem ainda mais...
Quando sinto sua mão apertar minha bunda, a realidade me atinge em cheio.
O que estou fazendo?
Assustada, empurro seu peito com as duas mãos. Ele demora um segundo para entender, mas quando percebe, recua, passando a mão pelos cabelos, claramente frustrado com minha reação.
— Não, Rafael. Me deixa em paz, por favor. — minha voz sai embargada. Quase volto atrás quando vejo a dor no rosto dele, mas resisto. Dou um passo para trás.
— Isso é errado. Você tem uma noiva. Precisa respeitá-la. — não sei de onde tiro força, mas digo. — Fique longe de mim. Esqueça esse beijo.
— Você sabe que isso é impossível. — ele murmura.
— Acho que vai ser bem possível. É só beijar sua noiva perfeita de novo.
Por que minha voz saiu tão amarga?
— Está com ciúmes. — ele quase ri.
Fecho os punhos. — Claro que não!
— Acho que está, sim. Mas relaxa. Os beijos da Pilar nem se comparam aos seus. Sua boca... é viciante.
Meu rosto pega fogo.
— Para de falar essas coisas! E-eu já vou. — tropeço nas palavras antes de sair do quarto às pressas.
Antes de me afastar, ainda ouço sua voz ecoando pelas minhas costas:
— Um dia você vai implorar pelo meu toque, Margarida. E quando esse dia chegar... nenhuma regra vai nos impedir.
Nervosa e com o coração em disparada, caminho apressada até o quarto de Agnes, tentando expulsar cada palavra dele da minha cabeça.
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A Flor e o Herdeiro
Roman d'amourMargarida Bellini é tão peculiar quanto o seu nome. Bonita como uma flor do campo, ela captura a atenção de Rafael Bittencourt no instante em que seus caminhos se cruzam pela primeira vez, na pequena região onde vive com a mãe e o irmão. Mas, depoi...
