capítulo 16

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MARGARIDA

Dias depois...

Estou no pátio da escola após a reunião dos pais, da qual precisei participar porque o senhor e a senhora Bittencourt estavam no trabalho.

Em meio ao meu devaneio, percebo alguém se aproximando. Só então noto que é um dos professores de Agnes, o simpático Tony.

Ele me cumprimenta com gentileza e me acompanha até a saída, onde espero Agnes terminar de conversar com uma amiga. Vejo-a de longe, sorrindo com uma garota de cabelos cacheados, e volto minha atenção para o rosto animado de Tony.

— Sabe, te conheço há pouco tempo, mas consigo entender por que Agnes é tão apegada a você — comenta ele, com um brilho curioso no olhar.

— E qual seria o motivo? — pergunto, com um sorriso divertido.

— Você sabe conversar com as pessoas de forma leve. Já conheci parentes de alunos que discutem por bobagens, tipo bolsas de grife ou quem tem o carro mais caro. Você parece... diferente. Simples.

— É porque sou — dou de ombros. — Só trabalho como acompanhante da Agnes. Antes disso, morava no interior. Não tenho luxo nenhum, mas estou bem assim.

Tony sorri, pensativo. O jeito como ele me observa me deixa um pouco sem jeito.

— Estive pensando... — começa ele, hesitante. — Droga, nem sei por onde começar.

— Começa pelo começo — incentivo, arqueando uma sobrancelha.

Ele ri, nervoso.

— Só não quero que pense que sou presunçoso por dizer isso.

— Isso vai depender do que você pretende dizer.

— Certo. — Ele respira fundo. — Quer sair comigo no sábado à noite? Só um jantar. Nada com segundas intenções.

Fico surpresa e nem consigo reagir de imediato. Estou prestes a dizer algo quando uma mão firme se apoia no ombro de Tony, fazendo-o se virar.

É Rafael.

Ele está um pouco mais alto que Tony e o encara com os olhos azulados ligeiramente estreitos. O que ele está fazendo aqui?

— Margarida já tem compromisso nesse dia — diz, com a maior cara de pau. — Eu vou levá-la, junto com Agnes, para sair.

Vou? Interessante... Porque nem eu sabia disso!

— Ah, que pena. Podemos marcar para outro dia, então? — Tony me olha com esperança. Apenas sorrio, tímida, e faço um aceno de cabeça. Rafael permanece calado, como se aquela interação não o afetasse em nada.

Tony se despede e se afasta. Só então encaro Rafael, que está com um sorriso discreto nos lábios.

— Aquele cara tá mesmo afim de você?

— Não. Acho que não... — murmuro, meio desconcertada. Ele bufa.

— Tá sim. Mas não vai ser agora que ele vai roubar minha flor — diz, aproximando-se. Meu corpo estremece quando ele se inclina e sussurra perto demais. — Espero que ele fique longe. Não gostei da energia dele.

Ele se afasta, e por um instante, seus olhos azuis carregam algo próximo à irritação.

Reviro os olhos.

— E essa história de sairmos? Você não estava falando sério, né?

— Estava sim — responde, com naturalidade, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Quero te levar pra sair. Mas relaxa, não vou te atacar. Agnes vai junto.

— Mas é meu dia de folga...

— Justamente. Você não vai estar trabalhando. Só quero te levar pra se divertir com a minha irmã. Mas só se quiser. Não costumo pressionar ninguém.

— Não sei...

— Pensa e me dá uma resposta mais tarde.

Fico refletindo por alguns segundos, mas uma dúvida começa a me incomodar.

— O que está fazendo aqui? O motorista...

— Dispensei ele hoje de manhã. Decidi vir buscar você e a Agnes — responde, como se fosse a coisa mais normal do mundo. — Aliás, onde ela está?

— Ali. — Aponto, vendo Agnes finalmente se despedir da amiga e vir em nossa direção, sorrindo tranquila.

— Oi, maninho — diz, animada, e beija a bochecha de Rafael. Depois, me beija também. — Vamos pra casa?

— Claro. Entrem. — Ele aponta para um carro luxuoso parado ali perto. Me surpreendo com a beleza do veículo. Provavelmente é dele.

No caminho, sento no banco de trás. Depois de muita insistência, Agnes se senta na frente, ao lado do irmão. Eu simplesmente não consigo suportar a ideia de ficar tão perto de Rafael sem... surtar.

Mesmo assim, sinto os olhos dele me observando pelo retrovisor.


***


Mais tarde, na sexta-feira à noite...

Estou mexendo no celular quando Rafael entra no quarto. Quase dou um pulo, tamanha a surpresa.

— Aconteceu alguma coisa? — pergunto, deixando o celular de lado.

— Nada demais. Só vim buscar sua resposta — diz, parando diante da cama. — E então? Vai sair comigo no sábado?

— Não!

— Direta, hein? Nem se eu insistir?

— Nem se insistir. Você é noivo, Rafael. Isso é... estranho.

Ele solta um suspiro exasperado, e eu fico na defensiva.

— Uma pena. Agnes estava tão animada. Passei no quarto dela agora e ela já até separou a roupa. Acho que vai ficar bem decepcionada ao saber que você não vai com a gente — comenta, forçando um semblante abatido.

Bufo, derrotada.

— Isso é golpe baixo.

O sorriso travesso que ele dá me irrita ainda mais.

— E então...?

— Tá bom. Eu vou — digo, contrariada. O brilho que surge nos olhos dele é quase infantil. — Mas quero horário e local. Preciso saber onde encontrar vocês.

— Não precisa. Eu vou te buscar. Me passa seu endereço.

Pego meu celular e passo a localização da casa da tia Noemi. Ele anota, guarda o aparelho no bolso e dá um meio sorriso antes de sair.

— Te vejo amanhã, flor.

A Flor e o HerdeiroOnde histórias criam vida. Descubra agora