MARGARIDA
Pedro realmente é maluco.
Conseguiu me deixar completamente encharcada — e agora vou ter que trocar de roupa de novo. Mas tudo bem, ele também não saiu ileso. Minha vingança foi certeira.
Ainda estamos rindo, ofegantes e felizes, quando ouvimos o barulho de uma porta de carro batendo. Passos firmes e pesados ecoam pela calçada. Me viro, distraída, com o riso ainda nos lábios... até meu olhar cruzar com o de Rafael.
Meu sorriso desaparece imediatamente.
Ele não diz uma palavra. Não me encara por mais de dois segundos. Passa reto por mim, como se eu fosse invisível, indo direto em direção ao Pedro.
— Rafael? — chamo, confusa.
Mas é tarde demais.
O som do impacto é seco, e meu irmão cai com o soco repentino.
— O que você está fazendo?! — grito, correndo até eles.
Pedro tenta se defender, mas Rafael está cego. Com o maxilar tenso e os olhos sombrios, ele desfere outro golpe.
— Para com isso! — empurro-o, desesperada.
Mamãe e Noemi saem correndo da casa, assustadas, mas não consigo focar nelas. Só vejo meu namorado esmurrando meu irmão, e o caos diante de mim.
— Solta ele! — bato no ombro de Rafael. — Solta o meu irmão agora!
E como se minhas palavras fossem um estalo, ele finalmente para.
Rafael recua, ofegante. Seus olhos azuis encontram os meus, cheios de confusão e arrependimento. Parece que só agora percebe o que fez.
Eu continuo sem entender o que acabou de acontecer.
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— Ótima maneira de conhecer o cunhado — murmuro, ainda nervosa.
Pedro está ao meu lado, com gelo no maxilar. Rafael está sentado no sofá da frente, de cabeça baixa. Mamãe e Noemi nos deixaram a sós depois de se certificarem de que ninguém ia morrer de verdade.
Rafael respira fundo, envergonhado.
— Cara... me perdoa. De verdade. Eu... não sei o que deu em mim.
Pedro dá de ombros, ainda com a expressão fechada, mas tentando manter o bom humor.
— Tá tudo bem. Foi só um soco... ou dois. — toca o rosto, fazendo uma careta. — Mas, afinal, por que me bateu?
Rafael hesita. Depois confessa:
— Eu não sabia que vocês eram irmãos.
Pedro solta um riso irônico.
— E achou o quê? Que eu era o amante?
O silêncio de Rafael é a resposta. Me viro para ele, chocada.
— Sério isso, Rafael?! Como você pôde pensar uma coisa dessas?
Ele me encara com culpa evidente.
— Me desculpa, flor. Fui um completo idiota. Eu só... vi vocês dois juntos, tão próximos, rindo, molhados... nunca tinha conhecido seu irmão antes. Foi mais forte que eu.
— E se fosse só um amigo? Ainda assim isso não justificaria te atacar desse jeito.
— Eu sei. Não sou um cara ciumento. — Me olha, sem graça. — Ok, talvez um pouco... mas quando vi o Pedro, algo despertou em mim.
— Como assim?
— Eu já tinha visto ele antes. Há anos, no interior. — Rafael cruza os dedos nervosamente. — No dia que eu decidi te pedir em namoro, fui até sua casa. Mas vi você com ele, no campo. Vocês estavam rindo, brincando. E você disse que o amava...
— Ah. — Meu coração afunda. — Então foi por isso que você sumiu.
— Sim. Achei que ele fosse alguém especial pra você. Não sabia que era seu irmão. E... em vez de perguntar, de enfrentar, eu fui embora. Covardemente.
Pedro parece surpreso e se levanta, entendendo que é hora de nos deixar a sós.
— Não quero atrapalhar os pombinhos. Tô indo. — ele dá um leve sorriso antes de desaparecer no corredor.
Me viro de volta para Rafael.
— Você realmente acreditou que eu tinha um caso com Pedro?
— Não éramos nada oficial na época. E você parecia feliz com ele. Achei que eu não tinha mais espaço na sua vida.
— Então, por causa de um mal-entendido, você me deixou.
— Eu fui um idiota.
Solto um suspiro, cansada daquela história mal resolvida.
— Pedro é meu irmão, Rafael. Meu irmão mais velho. Ele sempre me protegeu. Por isso as brincadeiras, a intimidade. Não tem nada além disso.
Ele respira fundo, e me encara com ternura. Sua mão quente toca meu rosto com cuidado.
— Agora eu entendo. Eu fui cego... pelos ciúmes, pela insegurança. Em vez de buscar respostas, fugi. Como um tolo.
Balanço a cabeça, mas não consigo evitar um sorrisinho.
Rafael arqueia uma sobrancelha, confuso.
— Do que está rindo?
— De tudo. Da briga. Dos mal-entendidos. De vocês dois... homens! — brinco, e ele ri também.
— Então estou perdoado?
— Sim, lindinho. — Cutuco o ego dele de propósito. — Você foi um bobo, mas agora tudo está esclarecido. Não vou guardar mágoas por algo que ficou no passado.
— Que alívio. — Ele sorri, aliviado, e aproxima nossas testas. — Será que seu irmão me odeia?
— Com certeza. Mas se você depositar uns cem mil na conta dele, acho que ele supera.
Rafael arregala os olhos, e eu caio na gargalhada.
— Brincadeira! Pedro já entendeu tudo. Ele perdoa fácil. Vai adorar te ter como cunhado.
— Ufa... — ele me dá um selinho demorado. — Que sorte a minha o destino ter te colocado de volta na minha vida.
— A sorte é mútua. — eu o abraço forte, desejando nunca mais deixá-lo ir.
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A Flor e o Herdeiro
RomanceMargarida Bellini é tão peculiar quanto o seu nome. Bonita como uma flor do campo, ela captura a atenção de Rafael Bittencourt no instante em que seus caminhos se cruzam pela primeira vez, na pequena região onde vive com a mãe e o irmão. Mas, depoi...
