MARGARIDA
Durante a noite, respondo às mensagens de Rafael e, depois de um tempo, pego um dos meus romances favoritos. A leitura me distrai, me tira um pouco da realidade, até que ouço batidas suaves na porta.
Fecho o livro com calma e vou atender.
Quando abro, me surpreendo ao dar de cara com Luíza.
— Olá... a senhora precisa de algo?
— Sim. — ela parece hesitante. — Posso entrar?
— Claro. — faço um gesto com a mão, abrindo passagem.
Ela entra devagar, e eu fecho a porta, ainda tentando entender o motivo da visita. Luíza permanece em silêncio por um instante, como se estivesse escolhendo bem as palavras.
— Sabe... — começa, me encarando, meio constrangida — acho que finalmente caí na real.
— Sobre?
— Sobre você. Sobre seu caráter, na verdade. — Ela respira fundo. — Eu nem devia ter duvidado. Você nunca me pareceu uma garota ambiciosa ou oportunista. Sempre foi cuidadosa com a Agnes... Ajudou minha filha a sair do isolamento. E, bem... fez o Rafael sorrir como eu não via há muito tempo. Pilar nunca conseguiu isso com tanta naturalidade.
Fico em silêncio, absorvendo cada palavra. Luíza pausa, e o clima entre nós fica quase sereno, como se ela estivesse desarmada pela primeira vez.
— O que estou tentando dizer é que eu errei ao te julgar. Fui dura, injusta. E quero pedir desculpas. Pode me perdoar?
Nem penso duas vezes.
— Claro. — sorrio de leve. — Pra ser sincera, eu não esperava ouvir isso da senhora. Fiquei até sem palavras.
— Só me desculpe. Não quero mais interferir no que você tem com o meu filho. Quero que sejam felizes... vocês merecem isso.
Ouvir isso da mãe dele me pega desprevenida. Luíza realmente está tentando mudar.
— Obrigada pelo apoio.
Ela sorri de volta, tímida.
— Posso... te dar um abraço? — pergunta, em voz baixa.
— Pode sim.
Nos abraçamos, e é um gesto genuíno. Quando ela se afasta, me deseja boa noite com um tom gentil que eu nunca tinha escutado vindo dela.
Fecho a porta com cuidado assim que ela sai e, ainda meio abobalhada com tudo aquilo, pego o celular para contar a novidade ao Rafael.
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AGNES
Depois do que aconteceu na praça, não tive escolha a não ser contar tudo aos meus pais. Expliquei o motivo das provocações, quem estava envolvida... tudo. Eles ficaram ao meu lado, obviamente, e foram até a escola cobrar uma atitude. O problema é que, sem provas, era difícil fazer alguma coisa concreta contra Liliana e seu grupinho tóxico.
Minha mãe já cogita me transferir de colégio.
Durante a semana seguinte, volto à escola, mas Marcela falta. Sozinha, sigo até o banheiro feminino e retoco a maquiagem. Fazia tempo que não me cuidava assim... as ofensas de Liliana haviam me feito esquecer o quanto gosto de mim mesma.
Falando nela...
A porta se abre e Liliana entra com sua trupe.
Congelo por um segundo, mas me forço a manter a calma enquanto encaro meu reflexo no espelho. Sei que aqui elas não podem me agredir — tem câmeras. Não dentro das cabines, é claro, mas no local em que me encontro. Por isso sempre me empurram para fora da escola, para a praça.
Mas hoje... hoje eu venho preparada.
— Você é engraçada, Agnes — Liliana diz, encostando-se a uma das portas da cabine, com os braços cruzados. — Ouvi dizer que andou contando nosso segredinho para seus pais... e para aquela garota ridícula que te defendeu na praça.
— Hm, é mesmo? — continuo passando meu brilho labial, ignorando o veneno na voz dela.
Ele cai no chão segundos depois, com o tapa que uma das amigas dela dá no objeto.
— Agora as pessoas acham que eu sou a vilã da história — continua, visivelmente irritada.
— Mas é isso que você é. — digo, finalmente encarando-a no espelho com firmeza.
Sempre me perguntei por que ela me odeia tanto. Desde que entrei na escola, ela implicou comigo. Marcela acha que é inveja... talvez porque minha família seja uma das mais ricas da cidade. Liliana, apesar da pose, é bolsista. Assim como duas de suas seguidoras.
— Como eu te odeio, sua vadia rica! — ela grita. — Acha mesmo que alguém vai acreditar em você? Nem provas tem.
— Mas eu posso conseguir. — dou de ombros.
Ela franze a testa.
— É mesmo? E como?
Sorrio de lado. Estou exausta de me esconder. Hoje, se for pra lutar, vai ser com inteligência.
— Duvida mesmo de mim, sua pentelha? — provoco, com um sopro de coragem inesperado. Ela arregala os olhos e suas amigas se entreolham, surpresas. — Não vai responder? Pensei que fosse mais corajosa, grande saco de merda.
Ela perde o controle e avança. Duas meninas seguram meus braços, e Liliana me acerta com um tapa forte, tão violento que sinto o gosto metálico do sangue. Revido da única forma possível: cuspo nela. O chute que vem depois me atinge o estômago, mas eu já esperava por isso.
Tudo está saindo como o planejado.
Enquanto elas riem e debocham, levanto o rosto, sangrando, e olho diretamente para a câmera instalada no teto.
— Agora eu tenho provas, querida Liliana.
Ela congela. Vira devagar para encarar a lente vermelha que pisca discretamente.
As outras me soltam, e aproveito o momento para cair de propósito, chorando alto, fazendo cena. Quanto mais teatral, melhor. Quero tudo registrado.
— Ferrou! Vamos sair daqui, Lili — diz uma delas, desesperada.
Quase não consigo segurar o sorriso quando elas somem porta afora. Em segundos, a confusão atrai gente. Reconheço o professor Tony e membros da coordenação.
Alguém me ajuda a levantar, e mesmo que eu consiga andar, finjo certa fraqueza. Cada detalhe conta.
E, no dia seguinte, o resultado é mais do que satisfatório.
As famílias das meninas estão reunidas com a direção, meus pais, advogados e testemunhas. O vídeo não deixa dúvidas. Liliana, junto das duas cúmplices principais, é expulsa da escola. E, de brinde, perdem as bolsas de estudo.
Na saída, me aproximo do carro do meu pai. Liliana está por ali, ao lado dos pais furiosos, prestes a sair.
Cruzo o olhar com ela... e sorrio. Um sorriso vitorioso.
O gosto da justiça é simplesmente delicioso.
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A Flor e o Herdeiro
RomanceMargarida Bellini é tão peculiar quanto o seu nome. Bonita como uma flor do campo, ela captura a atenção de Rafael Bittencourt no instante em que seus caminhos se cruzam pela primeira vez, na pequena região onde vive com a mãe e o irmão. Mas, depoi...
