capítulo 19

1.8K 181 15
                                        

RAFAEL

Durante a noite, me aproximo da janela do quarto, pensativo.

Decido não ir ao trabalho hoje. Preciso de tempo para refletir sobre os próximos passos.

Meu momento de tranquilidade acaba quando a porta é aberta com força.

Me viro e vejo minha mãe entrar com os olhos em chamas, e meu pai logo atrás. Ao contrário dela, ele parece calmo.

— O que foi agora? — pergunto, já imaginando o motivo da visita.

— O pai da Pilar acabou de ligar. Estava furioso com o estado em que a filha chegou em casa.

— Ah...

— Só isso que tem a dizer? — minha mãe se exalta ainda mais. — O que você fez com ela, Rafael? Por que terminou? Estavam tão bem...

— Não estávamos bem, mãe. Nunca estive. Eu nunca senti nada forte por Pilar. Só fiquei noivo por pressão sua, porque você vive falando em netos, em casamento, como se minha vida tivesse que seguir esse roteiro. Mas eu nunca quis apressar nada. E então percebi que não é hora de casar.

Não com Pilar, pelo menos.

Ela fica em silêncio por um momento, digerindo minhas palavras. Depois fala em um tom mais calmo:

— Pilar vai embarcar amanhã para o exterior. Provavelmente ficou em choque depois do que aconteceu.

— Eu conversei com ela hoje cedo. Fui sincero, respeitoso. Não foi uma decisão fácil, mas a minha felicidade está em jogo. Não posso me casar com alguém que não amo, com quem não tenho verdadeira conexão.

Minha mãe continua me olhando, agora com expressão preocupada.

Meu pai finalmente se manifesta:

— Luíza, deixa nosso filho tomar as próprias decisões. Ele é adulto, sabe o que está fazendo. Não precisa da nossa aprovação em tudo.

— Está do lado dele, Cézar? Não vê que o Rafael está me magoando com essa escolha, e causando constrangimento pra tanta gente? Já, já vão começar as ligações, os comentários. O que eu vou dizer?

Suspiro, frustrado.

— Já pensou no seu filho, mãe? Ou prefere ver todos satisfeitos, enquanto eu vivo uma vida amarga, infeliz?

— Não é isso, Rafael, mas...

— Por favor. Chega. A decisão está tomada. Eu assumo as consequências, mas não vou voltar atrás. Já está feito.

Ela assente, contrariada.

— Tá certo. Eu vou respeitar sua decisão. Só espero que não se arrependa depois.

— Me arrepender? — dou um sorriso sem humor. — Essa foi a melhor escolha que eu poderia ter feito.

— Céus! Eu não consigo ouvir mais isso. — ela murmura com a voz embargada e sai do quarto, deixando-me a sós com meu pai.

— Luíza só está chateada. Com o tempo ela entende. — ele diz, me dando um tapinha no ombro. — E você... seja feliz com sua escolha. Boa sorte, filho.

— Obrigado, pai. Você não imagina o quanto é bom ouvir isso.

Ele sorri, com carinho, e sai, provavelmente para tentar acalmar minha mãe.


###

MARGARIDA

Depois de colocar Agnes na cama e esperar que adormecesse, deixo o quarto em silêncio e sigo para o meu.

Mas mal dou três passos no corredor, uma porta se abre com rapidez e alguém me puxa para dentro de um quarto masculino.

Rafael fecha a porta e me encosta nela com firmeza, me deixando sem fôlego pela proximidade.

— Rafa! — exclamo, surpresa.

— O que foi? — ele sorri, tranquilo. — Não ficou feliz em me ver?

Seus olhos deslizam por mim, analisando meu novo uniforme: uma calça rosa-claro feita de um tecido macio e uma camiseta da mesma cor.

— Preciso dizer... você fica linda nesse uniforme.

Corada, respondo sem hesitar:

— É mesmo? Então não devia falar isso enquanto ainda está noivo de outra. — sou direta, tentando empurrá-lo para longe, mas ele não se move.

Em vez de retrucar, Rafael apenas sorri. E parece sinceramente feliz.

— Não sente nem um pouco de culpa?

— Nenhuma. — ele toca de leve minha bochecha. — Não há mais ninguém entre a gente.

Fico confusa com suas palavras.

— O que você quer dizer com isso?

— Quer mesmo saber?

— Claro. Agora me deixou curiosa.

Rafael respira fundo e solta:

— Terminei meu noivado com a Pilar. Está satisfeita?

Eu o encaro, incrédula, e mal consigo formar uma frase.

— O q-quê?

— Terminei tudo com a Pilar — repete, calmo. — Acabou hoje cedo. Não existe mais nada entre nós.

— Rafael... eu nem sei o que dizer. — ele dá um passo para trás, me dando espaço, mas continuo atônita.

Ele segura meu braço com delicadeza.

— Não precisa dizer nada. — me olha intensamente, e sinto meu coração acelerar. — A gente não precisa de palavras agora. Há coisas mais interessantes pra fazer... — se aproxima, nossos rostos ficando perigosamente perto. — Eu sou louco por você, flor. E agora, não há mais nada que nos impeça.

Sem pensar, coloco as mãos nas laterais do rosto dele e digo antes que a coragem me abandone:

— Isso é mesmo verdade? Não está mentindo pra mim?

— Por que mentiria? — ele murmura. — Eu tô falando a verda...

Mas não o deixo terminar.

Puxo-o para mim e nossos lábios se encontram em um beijo profundo. Um beijo arrebatador, que diz tudo o que ainda não tivemos coragem de dizer em voz alta.

A Flor e o HerdeiroOnde histórias criam vida. Descubra agora