RAFAEL
Aproveito o feriado para visitar minha namorada.
Dirijo pelas ruas já conhecidas até o bairro simples onde Margarida mora. O lugar pode ser modesto, mas carrega a leveza da presença dela. Meu coração bate mais rápido conforme me aproximo da casa de tijolos aparentes e estaciono do outro lado da rua.
Mas, antes mesmo de descer do carro, algo chama minha atenção.
Duas figuras correm em frente à casa, encharcadas, rindo alto. A água voa no ar em jatos desajeitados, e os gritos de diversão ecoam pela rua tranquila.
Demoro um segundo para entender o que estou vendo — e quando reconheço a garota, meu estômago revira.
É Margarida.
Ela está rindo com tanta leveza que parece flutuar. Um rapaz a persegue com uma mangueira, igualmente molhado, enquanto ela tenta escapar da água. O cenário seria engraçado... se não doesse tanto.
Reconheço o garoto. Os traços são familiares, mesmo que o tempo tenha passado.
Meus punhos se fecham no volante, e o ar parece desaparecer por um instante.
As lembranças me atingem como um soco.
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Alguns anos atrás...
Naquele tempo, minha cabeça estava tomada por uma única certeza: eu queria Margarida na minha vida. De verdade. Nada de segredos, nada de meio-termo.
Estava decidido a oficializar tudo. Queria falar com a mãe dela, tornar nosso relacionamento público e, se ela aceitasse, levá-la comigo pra capital. Casaria com ela se fosse preciso. Casaria sem pensar duas vezes.
Minha flor.
Dirijo pela estrada de terra com o coração inquieto, imaginando como seria o reencontro. Mas no meio do caminho, paro o carro de supetão ao ver algo que não esperava.
Margarida.
Ela está de pé, perto de um garoto. Um adolescente, talvez. Conversam de forma descontraída, rindo, sem perceberem minha presença. O cenário ao redor é bucólico, árvores altas, grama alta, céu limpo... mas ela só tem olhos para ele.
Ela sorri. Um daqueles sorrisos que conheço bem — sinceros, leves, encantadores.
Algo nele a faz correr, e ela grita por cima do ombro:
— Eu te odeio, garoto!
— Odeia nada. Sei que me ama — ele responde, provocando.
— Isso é verdade, mas não seja convencido!
Ela... o ama?
Sinto o chão desaparecer sob meus pés. Permaneço parado, observando, sem saber ao certo por quê. Talvez esperando que fosse só uma brincadeira. Mas o garoto não perde tempo. Ele a pega nos braços e a coloca sobre os ombros, arrancando mais risadas dela, antes de desaparecerem pela trilha.
Aquilo me destrói.
Não preciso ver mais nada. Não preciso ouvir mais nada.
Ela já tem alguém.
Alguém que a faz sorrir daquele jeito.
E eu... eu não vou ser o idiota que se contenta em ver de longe. Não nasci pra ser espectador de uma história que um dia foi minha.
Mesmo que doa pra caralho, mesmo que eu tenha que me afastar dela, eu viro as costas e volto para Belo Horizonte, engolindo cada fragmento do que um dia sonhei em viver.
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A Flor e o Herdeiro
RomanceMargarida Bellini é tão peculiar quanto o seu nome. Bonita como uma flor do campo, ela captura a atenção de Rafael Bittencourt no instante em que seus caminhos se cruzam pela primeira vez, na pequena região onde vive com a mãe e o irmão. Mas, depoi...
