— Oh, eu... — gaguejo, com os olhos arregalados.
Rafael solta uma risadinha breve antes de assumir uma expressão meio séria.
— O que você está fazendo aqui? — a pergunta não soa ríspida, apenas... divertida.
Tento não focar em seu torso nu enquanto desvio o olhar para os lados.
— Limpando? — arqueio uma sobrancelha.
— Ah, você é a nova empregada da mansão, né? Eu quase tinha esquecido. — comenta, caminhando até o guarda-roupa. Estremeço com a breve proximidade.
— Sim, mas não fui rejeitada por pouco. — murmuro, lembrando do surto da namorada dele.
— Ah, sei. Relaxa. Pilar não é uma vadia... na maioria das vezes. — Rafael lança um olhar brincalhão na minha direção.
Meus lábios se entreabrem com o choque das palavras.
A forma como ele se refere à própria namorada é surpreendente. Na verdade, tudo nele agora é. Esse garoto na minha frente quase não lembra o Rafael quieto que conheci no campo.
— Ok. — suspiro, tentando me recompor. — Eu tenho que ir, senhor. Já terminei de arrumar o quarto. — murmuro, nervosa, ao vê-lo levar as mãos até a toalha.
Ele não vai ficar nu na minha frente, vai?
— Espera. — paraliso quando ele segura meu pulso e me puxa de volta.
Fico frente a frente com ele, lutando para manter a expressão neutra.
— O quê?
— Como assim você já vai? Até parece que sou um estranho. — ele franze o cenho. Tenho que erguer o rosto para alcançar seus olhos, afinal, ele é bem mais alto que eu. — Por que está me tratando com tanta formalidade, flor? Não lembra dos nossos momentos no campo? Quando eu te enchia de beijos e...?
— Para com isso agora! Alguém pode ouvir. — resmungo, assustada. Se Célia ou alguém mais escutar, estou ferrada. Demissão na certa.
— E daí se ouvirem? — ele retruca, irritado. — Acha mesmo que eu deixaria alguém fazer algo contra você?
— Então me solta. — desvio os olhos daquele rosto bonito.
Por que, Rafael? Por que você tem que ser tão perfeito?
— Não!
Meus olhos se arregalam.
— O que disse?
— Eu disse que não vou te soltar. — sua voz vem firme, carregada de uma intensidade difícil de descrever.
Para minha surpresa, Rafael me vira com um gesto rápido, fazendo com que eu dê alguns passos para trás. Quando percebo, estou com as costas pressionadas na porta do guarda-roupa enorme.
— Isso é ridículo. Por que está fazendo isso? — pergunto, ofegante. A adrenalina toma conta de mim.
— Quer mesmo saber? Tem ideia do susto que levei ao te ver trabalhando na minha casa?
Nossa respiração se mistura quando ele inclina o rosto em direção ao meu.
Ter ele tão perto, ainda por cima com tão pouca roupa, é uma tortura.
Minha voz sai tensa:
— Você odiou, certo?
— Odiei? — o sorriso que ele solta é de tirar o fôlego. — Você tá maluca, flor? Eu amei saber que você está morando aqui, tão perto de mim. Sabe há quanto tempo eu espero te ver de novo? Você não faz ideia da falta que me fez.
Meu coração bate rápido demais. Essas são exatamente as palavras que esperei ouvir... mas...
— Você tem namorada, então não deveria falar essas coisas. — consigo empurrá-lo de leve, o suficiente para escapar em direção à porta.
— Flor! — ouço sua voz frustrada, mas já estou no corredor, dando tudo de mim para não ceder à vontade de voltar.
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É claro que passei o dia inteiro com aquilo martelando na cabeça.
Rafael provavelmente teria me beijado, se eu não tivesse o empurrado e saído quase correndo. E, pra ser sincera, nem sei o que teria feito se o beijo tivesse acontecido. Talvez, com minha força de vontade patética, eu não teria resistido. E aí, pronto. Merda feita.
Todo mundo sabe que nosso passado no campo não foi feito de promessas. Tenho certeza de que, pra ele, tudo não passou de uma paixão de férias. Ele nunca deu sinais de querer retomar aquilo no futuro. E isso fica ainda mais claro agora que ele tem uma namorada.
Nada disso dá o direito a ele de lançar aquele olhar cheio de sentimento na minha direção, bagunçando tudo dentro de mim.
E pra piorar... eu estou irritantemente frustrada por a gente não ter se beijado.
Julguem à vontade, mas uma parte enorme de mim queria que ele tivesse ignorado os limites.
Droga!
— Aqui. — dou um pulo quando uma das empregadas empurra algo nos meus braços no corredor.
— Soraia! Você me deu um susto, poxa. — resmungo, segurando as toalhas limpas.
Ela ri da minha expressão.
Soraia é, até agora, a pessoa mais legal que conheci na mansão. Como eu, veio de uma cidade pequena tentar a sorte na capital. Tem algo nela que me lembra minha amiga Ana Clara.
— Desculpa. É que você tava mesmo bem longe... — diz, meio em tom de brincadeira. — Pode levar essas toalhas pro quarto do senhor Rafael? Célia pediu.
— Hm, claro — murmuro, relutante.
Só me faltava essa. Voltar ao covil do lobo não era o que eu planejava tão cedo. Mas ordens são ordens, e se quero manter meu emprego, tenho que obedecer.
Sigo em direção ao quarto do Rafael.
Abro a porta com cautela, como se estivesse cometendo um crime, e vou até a cama para depositar as toalhas.
— Sorrateira como uma cobra. — quase grito ao ouvir a voz divertida atrás de mim. Ele ri ao ver meu susto. — Desculpa. Não queria te assustar.
— Não me assustou. — forço um sorriso, embora meu coração esteja aos pulos.
Ele está largado numa poltrona próxima à janela, celular de lado, me observando.
Assim que percebo que ele vai se levantar, apresso os passos até a porta e saio rápido.
Atrás de mim, ouço sua risada e um sussurro alto que me arrepia inteira:
— Você não vai conseguir fugir de mim pra sempre, florzinha.
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A Flor e o Herdeiro
RomanceMargarida Bellini é tão peculiar quanto o seu nome. Bonita como uma flor do campo, ela captura a atenção de Rafael Bittencourt no instante em que seus caminhos se cruzam pela primeira vez, na pequena região onde vive com a mãe e o irmão. Mas, depoi...
