capítulo 12

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Aproveitando minha folga no fim de semana, deixo a mansão no sábado rumo à casa da tia Noemi. Passo esses dias com ela, minha mãe e meu irmão, curtindo alguns passeios e a companhia deles, enquanto me mantenho longe de tudo o que envolve Rafael Bittencourt.

Prefiro assim. Afinal, não há qualquer esperança para nós — considerando seu noivado e sua mãe super protetora. Não daria certo mesmo, então é melhor me manter quieta no meu papel de funcionária da mansão e esquecer esse assunto que tem se tornado complexo demais para mim.

— Seu pai ficaria orgulhoso de você — diz mamãe, depois do almoço de domingo. Estamos no meu quarto agora, enquanto dou uma ajeitada na bagunça. — Você é tão esforçada.

— Será mesmo?

Minha mãe conheceu meu pai depois que se mudou da Itália para uma fazenda em Minas com seus pais e avós, ainda criança. Anos depois, se reencontraram no campo, e ela se apaixonou por ele de imediato, contrariando a vontade da família. Aprendeu o português, decidiu morar com meu pai e só depois se casaram. Seus parentes a desprezaram por escolher alguém de classe inferior, mas ela nunca cedeu: ficou com ele, e foram felizes por um bom tempo. Meu pai faleceu por problemas de saúde quando eu tinha 14 anos.

Foi um período muito difícil. Pedro, muito apegado a ele, ficou profundamente abalado. A dor foi enorme para todos nós, mas especialmente para ele, que sempre viu nosso pai como um exemplo de homem do campo. Mamãe também o amava demais, e tive que ser forte para ajudá-la a não se afundar na tristeza.

— Claro que sim. De você e do seu irmão. Meus dois tesouros — diz com emoção na voz, e sorrio para ela.

— Você também é meu tesouro, mãe — seguro sua mão com carinho. — Vou conseguir uma boa casa para nós. Vou me esforçar no trabalho, e com a ajuda do Pedro, podemos até encontrar uma casa mais perto da mansão. O que acha?

— Acho ótimo... mas não sei se quero me mudar tão cedo — franzo o cenho, e ela continua: — Coitada da Noemi. Ela é tão solitária e gosta tanto da minha presença. E aqui, ao menos, não me sinto sozinha quando vocês estão no trabalho. Mas você pode conseguir uma casa para você e seu irmão. Não fique presa a essa velha aqui.

— A senhora não é velha. Está na flor da idade! — aperto suas bochechas, e ela ri. — Mas se quer ficar aqui, quem sou eu pra negar? Só quero sua felicidade.

— Sei que sim.

— Mesmo assim, tia Noemi também pode se mudar conosco. Se for muito apegada a esta casa e não quiser ir, podemos reformá-la.

— Oh, que boa ideia, filha. Obrigada.

Olho meu relógio. — Ah! Lembrei agora!

— O quê?

— Tenho que visitar a Aninha. Ela está me esperando. — me ergo da cama, alisando o vestido simples. — Não vou demorar. Beijos!

— Beijos! Diga que mandei um abraço pra ela e pra família.

— Pode deixar!


***


Na segunda de manhã, já estou dentro do ônibus rumo à mansão. A viagem é rápida dessa vez, graças ao trânsito leve, e sigo calmamente em direção à entrada principal do condomínio luxuoso. O porteiro libera minha entrada, e cumprimento alguns funcionários pelo caminho.

— Senti sua falta! — Soraia me abraça, arrancando um sorriso meu. Faz pouco tempo, mas é verdade: nos tornamos bem próximas.

— Também senti a sua — retribuo o abraço e sigo para a área dos funcionários, onde troco de roupa rapidamente.

A Flor e o HerdeiroOnde histórias criam vida. Descubra agora