capítulo 14

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Enquanto o filme de comédia romântica que escolho passa na TV, não consigo parar de rir com Agnes em algumas cenas bobas. É bom ver que ela está finalmente melhor, com o semblante mais leve, como se parte da carga emocional que carregava tivesse sido deixada de lado.

Durante uma daquelas cenas bem clichês, ouvimos a porta se abrir e, ao olhar na direção do som, dou de cara com os olhos espantados de Luíza Bittencourt.

Ela observa a filha com um balde de pipoca nas mãos e, em seguida, volta o olhar para mim.

— Quando me contaram, não acreditei.

Na mesma hora, meu sorriso some. Levanto da cama num pulo, com o coração acelerado.

— Me perdoe, senhora, por estar aqui... eu...

— Pare. — ela acena com a mão, e sua voz não carrega irritação. Ao contrário, parece apenas surpresa com a cena diante de si. Com certeza estava acostumada a ver Agnes trancada no quarto escuro, como um fantasma esquecido. — Continuem assistindo, eu insisto. — o que vejo nos lábios dela é... um sorriso? Isso é mesmo real? — Eu vou indo, meninas. Não parem a diversão de vocês por minha causa. — ela murmura suavemente antes de sair.

Eu esperava um sermão. Um olhar reprovador. Algo que reafirmasse o quanto Luíza não me suporta. Mas não isso. Essa expressão quase afetuosa me pega completamente de surpresa.

Nos minutos seguintes, continuo me divertindo com Agnes. Estar com ela me traz paz, e percebo o quanto eu também precisava desse momento leve, sem tensão. Naquela noite, durmo tranquila.

Na manhã seguinte, Agnes vai para a escola enquanto mergulho nas tarefas da casa. E assim se seguem os dias.

Durante a semana, sempre que posso, faço companhia a ela. Mas fico genuinamente surpresa quando, na sexta-feira, ela me convida para almoçar com ela na sala de jantar principal.

— Eu insisto. — diz ela, com olhos grandes e suplicantes, enquanto me posiciono diante da enorme mesa.

O que me deixa ainda mais tensa é a presença da senhora Bittencourt... e do senhor Bittencourt. Por sorte, Rafael não está. Respiro aliviada por isso.

— Eu não posso, Agnes. — murmuro, pousando a jarra de suco cuidadosamente sobre a mesa.

— Pode sim. Sente-se. — a voz que me responde é a do senhor Bittencourt. Gentil, quase calorosa. Ele se parece bastante com o filho. Apenas uma versão mais velha e um pouco grisalha.

— Oh, não senhor. Eu não devo...

Luíza permanece calada, cortando o bife com uma calma cirúrgica. Seu semblante está neutro, indecifrável.

— Por favor. Fique à vontade. — ele reforça, e solto um suspiro antes de ceder e me sentar.

Sinto os olhares das outras funcionárias queimando em mim. Elas cochicham entre si, visivelmente incomodadas, antes de saírem com Célia. Exceto Soraia, é claro, que parece sempre do meu lado.

A comida no prato parece apetitosa, mas o nó no estômago me impede de aproveitá-la como deveria. Felizmente, o casal à mesa foca numa conversa sobre negócios e não me inclui. Agnes, percebendo meu desconforto, cutuca meu braço de leve e começa a falar empolgada sobre um anime novo que assistiu.

Depois do almoço, ela se levanta ainda vestida com o uniforme escolar. Provavelmente vai subir, tomar banho e trocar de roupa.

Levanto também, um pouco sem graça, e agradeço pela refeição antes de me retirar com o coração acelerado.

Foi uma situação, no mínimo, inusitada.

E o fato de Luíza não ter dito uma palavra sequer contra mim... ainda mais.

Com o passar dos dias, noto os olhares silenciosos da senhora Bittencourt pousando sobre mim mais vezes. São expressões pensativas, como se ela estivesse tentando decifrar algo — ou talvez apenas me estudando com mais atenção.

A confirmação dos meus sentimentos vem numa manhã chuvosa, quando Célia se aproxima enquanto limpo um dos muitos quartos da mansão.

— Margarida?

Levanto o olhar para ela assim que entra no cômodo.

— Preciso te falar uma coisa importante.

— O que houve? — pergunto, mantendo a calma enquanto coloco sachês perfumados no guarda-roupa recém-limpo.

— A partir de hoje, você não é mais empregada doméstica desta casa. — ela diz com seriedade.

Meus olhos se enchem de lágrimas imediatamente. O medo toma conta do meu corpo.

Não... não pode ser. Fui demitida. Claro que fui. Aqueles olhares de Luíza, seu desconforto disfarçado... era óbvio que ela não queria minha presença aqui.

— Eu... eu... por favor, não faça isso. Eu lutei muito por esse emprego. Preciso dele.

Célia franze a testa, visivelmente confusa.

— Quem disse que está sendo demitida?

Eu, agora, é que fico boquiaberta.

— Não estou? Mas...

— Você apenas vai mudar de cargo. — responde, simplesmente.

— Como assim?

Célia revira os olhos, como quem perdeu a paciência com a minha lentidão para entender.

— A partir de agora, Margarida, você será a babá de Agnes.





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