capítulo 18

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RAFAEL

Observo o jardim da minha mãe, mas nem mesmo a beleza da paisagem consegue aliviar a tensão nos meus ombros.

Passei a noite me revirando na cama, refletindo, tentando encontrar uma saída para tudo isso. Não demorou para eu chegar a uma decisão. Foi por isso que liguei para Pilar.

E mesmo tendo ultrapassado o tempo que meus pais estipularam, finalmente sei o que fazer.

Sinto mãos femininas tocarem meus ombros. Me viro.

Pilar está deslumbrante em um vestido vermelho. Ela se senta ao meu lado no banco e encosta a cabeça no meu braço.

— Você me chamou. O que houve?

Respiro fundo antes de responder.

Não é difícil dizer o que quero, mas Pilar pode não reagir bem. Então escolho as palavras com cuidado.

— Precisamos conversar sobre o casamento.

Ela me encara com um brilho nos olhos e um sorriso se formando nos lábios. Uma pontada de culpa me atravessa, mas já não posso mais voltar atrás.

— Sério? Vai adiantar tudo isso? Mal posso esperar para casarmos logo. Precisamos contar aos nossos pais e...

— Pilar... — suspiro, e seu sorriso vacila. Talvez ela esteja começando a entender. — Tive tempo para pensar se era mesmo a decisão certa, e...

— Fala logo, Rafa. Você está me assustando.

— Tá... Eu quero terminar. Isso não tá mais funcionando.

Ela se levanta do banco num pulo, os olhos arregalados.

— O quê?!

— Foi o que você ouviu. — me levanto também, encarando o choque estampado no rosto dela. — Estou rompendo o nosso noivado. Me desculpa se...

— Desgraçado! — o tapa vem rápido e forte, interrompendo minhas palavras.

Levo a mão ao rosto, mas não me irrito. Pilar está com raiva, e eu entendo. Qualquer um estaria.

Ela parece perceber o que fez. Me olha, assustada e arrependida, depois tenta se aproximar, devagar. Eu recuo, vendo suas lágrimas caírem.

— Amor...

— Chega, Pilar. Está decidido. Acabou.

— Por que está fazendo isso comigo?

— Não é por mal. Eu nunca quis te machucar. Mas pensei muito e percebi que nossa relação não estava mais funcionando. Gosto de você, mas não te amo. E sei que, no fundo, você também não sente o mesmo por mim.

— Claro que eu te amo!

— Mas eu não. E você precisa entender isso. Sinto muito por te expor assim, por te constranger... Me sinto um canalha por isso. Mas seria pior continuar fingindo numa relação morna.

— Eu não acredito... — ela cobre o rosto com as mãos, chorando ainda mais. — O que meus amigos e parentes vão pensar?

— É com isso que você está preocupada? O que eles pensam não importa. Isso diz respeito só a nós dois.

Ela balança a cabeça, magoada.

— Aposto que já tem outra, né? — cospe as palavras, e eu quase reviro os olhos. — Quem é a vadia? Alguma das minhas amigas?

Se ela soubesse...

— Nada disso. — murmuro. — De qualquer forma, desejo que seja muito feliz. Estou te deixando livre. Vivemos bons momentos, e eu não quero te machucar mais do que já fiz.

— Feliz? Acha mesmo que vou ser feliz sem você? — ela solta uma risada amarga, enxugando o rosto. Depois de um silêncio pesado, suspira. — Sabe de uma coisa? Eu vou embora. E não ouse me procurar nunca mais.

Ela se vira e vai embora.

Eu a observo se afastar, e em nenhum momento sinto vontade de correr atrás.



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MARGARIDA

Agnes ainda está na escola e eu estou encostada na parede do corredor, enquanto Soraia passa pano na área, limpando os últimos vestígios de sujeira.

Estamos rindo de uma situação engraçada que aconteceu com ela, quando ouvimos o som de saltos altos ecoando no piso.

Nós nos viramos e vemos Pilar se aproximar com o semblante transtornado e o rímel escorrido pelas lágrimas.

Fico confusa, observando-a passar por nós como uma tempestade.

Por pura maldade, Pilar chuta o rodo que Soraia segura, fazendo-a cair no chão.

Arregalo os olhos.

— Saiam da frente, malditas serviçais! — ela se afasta sem olhar para trás, enquanto Soraia a observa, ainda caída, com os olhos cheios de indignação.

Rapidamente, a ajudo a se levantar.

— O que deu nela? Quanta agressividade! — resmunga irritada, pegando o rodo de novo. — Será que brigou com o noivo?

Franzo a testa. Pelo comportamento dela, é bem provável.

— Talvez..., mas posso te perguntar uma coisa? Ela é sempre assim com os funcionários?

— É pior — murmura com uma careta. — A Raimunda, que trabalha aqui, já prestou serviços pra família da riquinha. Pilar humilha todo mundo. Trata quem é de classe inferior como lixo. Só não pisa em cima porque prefere fazer isso com palavras.

— Que coisa horrível — comento, pensando em Rafael, que é tão gentil com todos. A imagem dele ao lado de Pilar simplesmente não combina.

— Garota mimada. — Soraia continua resmungando, claramente ainda irritada com o tombo.

A Flor e o HerdeiroOnde histórias criam vida. Descubra agora