Dias depois...
Ansiedade e temor me definem neste momento. Minhas mãos estão trêmulas enquanto ajudo Pedro e minha mãe com as bagagens. Em questão de segundos, tudo já está acomodado no porta-malas do ônibus e logo estamos sentados em nossos assentos, prontos para partir.
É minha primeira vez deixando a pequena cidade no coração de Minas, e a apreensão me acompanha enquanto penso em como será me adaptar à capital. Durante boa parte da viagem, fico imaginando como será a casa onde vamos ficar temporariamente.
No meio desse turbilhão de pensamentos, acabo adormecendo, recostada na poltrona.
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— Vamos, Margarida. Chegamos. — desperto com um cutucão de Pedro e esfrego os olhos antes de me levantar.
Descemos do ônibus junto com os demais passageiros e seguimos até o local onde as bagagens estão sendo devolvidas.
Pego minha mala e, em poucos minutos, já estamos deixando a rodoviária. O movimento ao nosso redor me impacta de imediato. Tanta gente, tantos carros... tudo tão diferente da minha vila tranquila.
Belo Horizonte é bem diferente do que imaginei.
É bonita, mas...
Observo o vai e vem constante de veículos, o som das buzinas, o burburinho das pessoas apressadas. É um lugar bonito, sim, mas confesso que sinto falta do silêncio do campo. Talvez eu só pense assim porque ainda não me acostumei a toda essa agitação.
Faço uma careta e Pedro imita minha expressão, igualmente assustado. Mamãe sorri ao ver nossas reações. Ela só está tão tranquila porque já morou aqui quando era adolescente.
— Estão assustados?
Eu e Pedro apenas assentimos, e o sorriso dela se abre ainda mais.
— Não imaginei que fosse assim. — Pedro comenta, enquanto esperamos dona Noemi em frente à rodoviária. Ela havia ligado para mamãe há pouco, explicando que o trânsito a impediu de chegar no horário combinado.
— Ela vem mesmo? — pergunto, apreensiva.
A ideia de me perder no meu primeiro dia em BH me deixa tensa. Estremeço só de imaginar.
— Vem sim. Fica tranquila.
— Que bom. — pego a garrafinha na mochila e bebo um pouco de água. Alguns taxistas se aproximam, oferecendo corrida, mas minha mãe recusa todos com um aceno educado.
Respiro aliviada quando uma mulher de aparência acolhedora se aproxima e envolve mamãe em um abraço apertado. As duas parecem felizes por se reencontrarem. Sorrio quando dona Noemi me cumprimenta com carinho, logo depois de falar com Pedro.
— Espero que tenham feito uma boa viagem. — diz ela, aparentando ter por volta dos quarenta e poucos anos.
— Sim, foi ótima. — mamãe responde. — Estamos só um pouco cansados.
— Imagino... Vamos pra casa. Preparei uma boa refeição pra vocês. Aposto que não comeram nada decente ainda.
— Só um lanche. — Pedro confessa, empolgado com a ideia de comida caseira.
— Então se preparem, porque vão comer até se empanturrarem.
Que bom, penso, sentindo o estômago roncar.
Seguimos até o táxi mais próximo e, em poucos minutos, o carro já está em movimento, nos levando em direção ao bairro onde dona Noemi mora.
Fico abismada enquanto o carro cruza as ruas de BH. Tudo é tão diferente da região onde vivi por anos. Nada lembra o campo — aqui, o barulho, os carros e a diversidade de pessoas tomam conta de tudo.
Sorrio ao ver a mesma expressão de espanto no rosto de Pedro.
Quando o táxi estaciona em frente a uma casa pequena, mas bem cuidada, descemos e esperamos enquanto dona Noemi paga o motorista.
Observo a rua asfaltada e sigo o olhar até o carro se afastar. Em seguida, a dona da casa abre um pequeno portão e entramos em sua varanda repleta de plantas. Pouco depois, estamos finalmente dentro da casa, aliviados por termos chegado bem.
Assim que dona Noemi escancara as janelas, meus olhos percorrem os quatro cantos da sala de estar. As paredes verdes exibem retratos de família, e uma TV de tamanho mediano repousa sobre uma mesinha. Piso com cuidado para não sujar o carpete com meus tênis e observo os dois sofás arrumados com esmero.
— Venham, quero mostrar os quartos pra vocês — ela diz, animada.
Sua empolgação é contagiante. Como mamãe comentou que ela é uma mulher solitária, compreendo bem sua alegria em ter companhia.
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Pedro ficou com um dos quartos, enquanto eu e mamãe dividimos o maior. Confesso que é bem mais espaçoso do que o meu antigo quarto no interior. A janela deixa entrar uma brisa agradável, que me alcança com suavidade.
Com o passar dos dias, dona Noemi decide nos levar para conhecer a cidade. É uma ótima chance de passear, ver lugares novos - pontos turísticos, shoppings - e, ao mesmo tempo, começar a me localizar. Vai ser útil, já que em breve começarei a procurar por um emprego.
Só espero encontrar algo digno... sem precisar me sujeitar a humilhações de nenhum tipo.
***
Olá, galerinha.
O próximo capítulo está surpreendente!
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A Flor e o Herdeiro
RomanceMargarida Bellini é tão peculiar quanto o seu nome. Bonita como uma flor do campo, ela captura a atenção de Rafael Bittencourt no instante em que seus caminhos se cruzam pela primeira vez, na pequena região onde vive com a mãe e o irmão. Mas, depoi...
