Na hora do almoço segui para o café onde ficara de me encontrar com Nathan. Caminhei silenciosa pelas ruas movimentadas observando as fachadas de alguns edifícios. Nomes em alto relevo, alguns brilhavam mesmo aquela hora, jovens caminhavam pelas ruas carregando sacolas de diferentes lojas, tudo parecia normal. Parecia.
Meu coração começou a acelerar a medida que eu percebia olhos que me observavam em cada janela, alguns pareciam inocentes e me olhavam suplicantes com se não quisessem estar ali. Outros carregavam uma intenção assassina tão profunda que me deixavam desorientada. A medida que ia caminhando mais rápido, aquela sensação de estar sendo olhada de todos os lados me deixou aterrorizada, quase como se a cidade estivesse me engolindo e eu comecei a correr. Era como ser o centro das atenções em algum jogo macabro.
Abri a porta do café, o sino sou quando eu entrei e caminhei ofegante, os olhos quase lacrimejantes e o suor se formando sobre a testa, peguei um guardanapo e o sequei. O lugar estava quase vazio, com exceção de dois jovens que falavam distraídente sobre umas revistas em quadrinhos que folheavam. E uma senhora que estava completamente imersa em um livro antigo, cujo título se esvaíra há muito tempo. Ela me fitou e sorriu com gentileza.
-Bem vinda, vai fazer o seu pedido agora? – A garçonete carregava consigo uma toalha limpa e uma bandeja prateada em baixo do braço, caminhava com rapidez e sorria com simpatia.
-Ah, não. Ainda. Estou esperando alguém. - Falei, sentindo minha voz soar distante, como se não viesse de mim.
Ela sorriu e acenou concordando e depois se dirigiu até a mesa mais adiante, onde os garotos estavam. O detetive chegou alguns momentos depois, e me cumprimentou com o sorriso. Usava uma camisa preta, e uma blazer branco que lhe dava um ar elegante e maduro.
-Oi Linda, você tá acabada. – Revirei os olhos irritada.
-Eu nem tinha percebido. – Ele deu uma risada e eu me senti melhor, a medida que ele puxou a cadeira e se sentou.
-Vou pedir o especial para nós dois. Tudo bem para você?
-Tudo bem. – Enquanto esperávamos a nossa comida, eu o observei aguardando que ele me falasse mais sobre o lugar, da forma como prometera.
-É uma longa história. Mas resumindo, nossa cidade foi fundada por uma bruxa. Eu falei que ela escondia um segredo, mas não posso falar o nome dela, ninguém pode e é melhor que você não saiba.
-Mas nem todas as bruxas são más. – Notei um brilho sutil em seus olhos quando disse essas palavras.
- Talvez. Mas dizem que ela ofereceu a família inteira como um sacrifício de sangue para selar a proteção em torno desse lugar que ela amava.
-Você está se ouvindo? Acabou de usar a palavra "dizem". Ou seja, ninguém sabe quem disse. Como eu poderia acreditar só por que as outras pessoas falam?
- Acho que está certa, mas que outra explicação tem ora tudo o que acontece neste lugar? - Dei de ombros embora não estivesse convencida.
- Então quer dizer que ela amava tanto assim essa cidade? Ao ponto de sacrificar tudo? – Eu perguntei, desacreditada.
-Supostamente. E é por isso que nós temos que lidar com os dois lados da moeda. Os mortos vagam entre nós e não há nada que possamos fazer em relação a isso. Alguns são apenas almas perdidas tentando encontrar um lugar de descanso. Esses são mais fáceis de lidar. Mas há aqueles que carregam sentimentos muito fortes, como mágoa, raiva, rancor, ódio. Esses podem ser complicados.
Refleti sobre as palavras dele e me perguntei como eu tivera uma sorte tão grande de vir parar naquele lugar.
-E como eu posso sobreviver a isso?
-Bem simples, nunca olhe nos olhos deles e ignore-os, como se eles fossem coisa da sua cabeça. – Observei que a jovem atendente estava se aproximando e imaginei se seria estranho caso eu atravessasse a garganta dele com o garfo.
-Você disse que o sangue nos prende aqui. – Perguntei enquanto a garçonete depositou os pratos em cima da mesa, encarando o garfo que brilhava de forma tentadora.
-Sim. - Nathan falou engolido a primeira garfada e se deliciando com ela, esse cara era inacreditável.
-Mas minha avó... Ela nasceu aqui. Como ela conseguiu sair? – Sua face quase permaneceu inalterada, a não ser pela pequena ruga que se formou entre suas sobrancelhas.
-Sinceramente, eu não faço ideia. Pra fazer algo assim, ela precisaria oferecer algo com o dobro de valor. – O detetive falou com a expressão sombria.
-Algo como? – Perguntei sentindo o coração menor e mais apertado.
-Almas.
-Ela não faria isso. – Nathan me encarou cético. – Eu sei que não. Apostaria a minha vida nisso.
-Bem, pode haver uma saída que ainda não conhecemos.
-Isso! Deve ser isso...
-Me fale sobre o seu dia de aula. – Eu expliquei pra ele sobre as crianças e o encontro com o senhor da biblioteca, mas havia algo me incomodando em toda aquela conversa, minha intuição me dizia que haviam peças faltando, mas uma vez que ela me trouxe pra esse lugar horrível, decidi ignorá-la.
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CIDADE SEM COR
HorreurApós a morte de sua avó, Linda decide recomeçar sua vida na pacata cidade de Black Hill. Mas ela vai descobrir que nem tudo sobre o lugar é tão tranquilo quanto parece ser.
