Memórias, elas são imprevisíveis como as ondas do mar, vêm e vão de maneira irregular. Tenho em mente a imagem de uma moça e ela teima em sair da minha mente, não lembro direito do seu rosto, na minha última visão dela, ela estava a chamar por mim e a tentar me acalmar - hey, vai ficar tudo bem! Como é que te chamas? Meu nome é Tchissola - foi o que ela disse antes de eu apagar, lembro dela ter se ferido no peito.
- Aires levanta daí, criatura.
- Zilpa? - respondi meio que involuntariamente. Abri os olhos vagarosamente e era a Amari a chamar por mim.
- Se não vais ajudar nem deverias ter vindo - diz cruzando os braços na sua frente e eu me endireito na cadeira e olho além dela - o que foi? O que tanto olhas? - ela acompanha o meu olhar até Zilpa que limpava as mesas junto da entrada do café. - ah... percebi - Amari voltou a arrumar as cadeiras meio aborrecida agora.
Hoje era dia do inventário do café da tia Ana, Zilpa pediu ajuda para Amari e eu como de costume vim com ela, não para ajudar, mas porque eu me sinto sempre bem perto dela, porém após a situação passada não tenho me sentido tão confortável com Amari, apesar de ter o seu perdão sinto-me sempre culpado. Hoje, na verdade, vim por ela, A Zilpa, me deixa sempre reconfortante só de a ver, esqueço de todo o resto.
- Amari o que achas de homens mais novos que você? - Pergunto sem tirar os olhos da Zilpa, Amari se aproxima e ajeita as cadeiras junto a mim - qual a probabilidade de uma mulher se interessar por alguém mais novo?
- Eu diria que média - ela puxa uma cadeira e senta perto de mim me fazendo desviar a atenção para ela - não tem a ver com a idade, mas sim com a maturidade, supostamente as mulheres ganham maturidade mais rápido que os homens, por isso elas preferem homem mais velhos, pois já têm uma visão sobre a vida formada em comparação com os jovem.
- Elas? Você não é assim?
- Talvez seja, mas não é o ponto aqui... Aires! para com isso.
Quando reparei estava com o dedo polegar na boca, mordia ele e se continuasse iria sangrar, era involuntário, tenho fases em que a automutilação é automática, o fazia mesmo sem querer.
- Desculpa, não foi minha intenção.
- Tudo bem, é do hábito. Você está habituado em fazê-lo e eu em sentir - ela levanta e começa a andar em direção ao balcão - só não voltes a fazer disso um costume.
Entraram dois homens no estabelecimento com um monte de caixas de papelão, deixaram com a Zilpa e saíram. Aproximei-me de lá e segurei uma das caixas que estava presentes a cair do topo.
- Deixa, eu levo - ofereço-me para ajudar.
- Eu ajudo Você, assim mostro onde fica o depósito.
- Ok, vá na frente.
Ele pegou duas das caixas e começou a andar para a área de serviço e eu a segui até chegarmos ao depósito.
- Pensei que ficarias o dia todo ali sentado a refletir na vida - diz e pousa as caixas num dos cantos do compartimento, faço o mesmo e pouso as minhas caixas por cima das dela.
- Estava só a... - me viro e ela estava parada a me encarar.
- Estavas só?
- Nada de mais, estava apenas a fazer nada de mais. - Contorno ela e saio do depósito para pegar as outras caixas.
- E essa cara então? - diz Amari quando passo por ela.
- Que eu saiba é a de sempre.
- Esse é o problema - ela me segue e faz o mesmo trajeto até as caixas - pensei que vir ao café te deixava feliz.
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Entre irmãos
Mistério / SuspenseAmari, Aires e Amir, os trigémeos da família Ngola, sempre tiveram conectados pela dor. Após a morte da mãe, do aprisionamento do pai e do incidente em que perderam o irmão, Amari e Aires mudaram-se para a casa da tia e acabaram por perder parte da...
