Capítulo 14 _ Coisas do Passado

33 4 2
                                        

Memórias, elas são imprevisíveis como as ondas do mar, vêm e vão de maneira irregular. Tenho em mente a imagem de uma moça e ela teima em sair da minha mente, não lembro direito do seu rosto, na minha última visão dela, ela estava a chamar por mim e a tentar me acalmar - hey, vai ficar tudo bem! Como é que te chamas? Meu nome é Tchissola - foi o que ela disse antes de eu apagar, lembro dela ter se ferido no peito.

- Aires levanta daí, criatura.

- Zilpa? - respondi meio que involuntariamente. Abri os olhos vagarosamente e era a Amari a chamar por mim.

- Se não vais ajudar nem deverias ter vindo - diz cruzando os braços na sua frente e eu me endireito na cadeira e olho além dela - o que foi? O que tanto olhas? - ela acompanha o meu olhar até Zilpa que limpava as mesas junto da entrada do café. - ah... percebi - Amari voltou a arrumar as cadeiras meio aborrecida agora.

Hoje era dia do inventário do café da tia Ana, Zilpa pediu ajuda para Amari e eu como de costume vim com ela, não para ajudar, mas porque eu me sinto sempre bem perto dela, porém após a situação passada não tenho me sentido tão confortável com Amari, apesar de ter o seu perdão sinto-me sempre culpado. Hoje, na verdade, vim por ela, A Zilpa, me deixa sempre reconfortante só de a ver, esqueço de todo o resto.

- Amari o que achas de homens mais novos que você? - Pergunto sem tirar os olhos da Zilpa, Amari se aproxima e ajeita as cadeiras junto a mim - qual a probabilidade de uma mulher se interessar por alguém mais novo?

- Eu diria que média - ela puxa uma cadeira e senta perto de mim me fazendo desviar a atenção para ela - não tem a ver com a idade, mas sim com a maturidade, supostamente as mulheres ganham maturidade mais rápido que os homens, por isso elas preferem homem mais velhos, pois já têm uma visão sobre a vida formada em comparação com os jovem.

- Elas? Você não é assim?

- Talvez seja, mas não é o ponto aqui... Aires! para com isso.

Quando reparei estava com o dedo polegar na boca, mordia ele e se continuasse iria sangrar, era involuntário, tenho fases em que a automutilação é automática, o fazia mesmo sem querer.

- Desculpa, não foi minha intenção.

- Tudo bem, é do hábito. Você está habituado em fazê-lo e eu em sentir - ela levanta e começa a andar em direção ao balcão - só não voltes a fazer disso um costume.

Entraram dois homens no estabelecimento com um monte de caixas de papelão, deixaram com a Zilpa e saíram. Aproximei-me de lá e segurei uma das caixas que estava presentes a cair do topo.

- Deixa, eu levo - ofereço-me para ajudar.

- Eu ajudo Você, assim mostro onde fica o depósito.

- Ok, vá na frente.

Ele pegou duas das caixas e começou a andar para a área de serviço e eu a segui até chegarmos ao depósito.

- Pensei que ficarias o dia todo ali sentado a refletir na vida - diz e pousa as caixas num dos cantos do compartimento, faço o mesmo e pouso as minhas caixas por cima das dela.

- Estava só a... - me viro e ela estava parada a me encarar.

- Estavas só?

- Nada de mais, estava apenas a fazer nada de mais. - Contorno ela e saio do depósito para pegar as outras caixas.

- E essa cara então? - diz Amari quando passo por ela.

- Que eu saiba é a de sempre.

- Esse é o problema - ela me segue e faz o mesmo trajeto até as caixas - pensei que vir ao café te deixava feliz.

Entre irmãos Histórias para pegar e não largar. Descubra agora