❧ livre e espontânea pressão | [01]

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MARIA CLARA;point of view

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MARIA CLARA;
point of view.

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Era dia de sábado. E naquele dia extremamente quente, típico do Rio de Janeiro, minha vó berrava para que eu fosse lavar logo a louça. Morávamos em casas separadas, – minha casa era em cima e a dela embaixo – porém, quando meu pai não estava em casa, eu passava o dia com ela. Éramos só nós três, desde que minha mãe faleceu, há seis anos, vítima de câncer no pâncreas.

— Aquela louça vai mofar lá, Maria Clara. Se você não lavar, não vai nesse show do pentelhinho não. – Neide ameaçou e imediatamente me levantei do sofá

— É cabelinho, vó. Cabelinho. – ri, passando pela mesma e lhe dando um beijo na bochecha. — E não precisa brincar com coisa séria, já tô indo lavar a louça.

Sou nascida e criada na Vila Kennedy. Quero dizer, não morava propriamente no alto das ladeiras famosas da comunidade, já que minha casa ficava três ruas antes, quase na pista, mas, a vista privilegiada sempre esteve garantida. E foi só comentar isso com uma de minhas melhores amiga, Micaella, moradora do Recreio, que o fogo dela de conhecer minha área não parou de crescer. Todo dia ficava enchendo minha paciência, até que resolvi levar ela em um baile, onde terá show do Mc Cabelinho, apenas para fazer uma pré comemoração de seu aniversário.

Aproveitei para chamar minhas outras melhores amigas: Camilla, Beatriz e Débora. Camilla era minha vizinha, Beatriz morava em Bangu e Débora era a única que morava propriamente dentro da VK. Nenhuma delas conhecia Micaella ainda, já que ela nunca veio até minha casa. Viramos amigas no curso de design e como nos vemos diariamente, nunca marcamos nada fora da rotina. Porém, não significava que éramos menos amigas.

A cozinha da casa da minha avó tinha uma janela enorme que dava acesso à garagem, que como era coberta com um telhado, dava eco caso alguém falasse alto naquele ambiente. A casa de Camilla era colada à minha, sempre nos comunicávamos daquela forma; e foi exatamente o que me motivou à gritar seu nome.

Não demorou até que o emaranhado de cabelo cacheado, presos em um coque no alto da cabeça, surgisse no topo do muro. Era um muro alto, mas minha amiga subia em cima da caixa da bomba e conseguíamos nos ver. Fazíamos aquilo desde a infância.

— Tudo pronto pra mais tarde, gatinha? – indaguei, apoiando meu pé na parte lateral do joelho, enquanto lavava um prato

— Tudo. O entretenimento da noite vai ser a tua amiga patricinha, subindo as vielas. – Milla gargalhou, me fazendo negar com a cabeça enquanto tentava não rir. — E fiquei sabendo que vai ter umas atrações especiais, convidados. Distrito 23, eu acho. Primeira vez dos manos no palco, só espero que sejam bons.

— Nunca ouvi, mas, espero que sejam bons. – dei de ombros

Funk não era o gênero que eu mais curtia; ouvia e gostava, mas não era o mais frequente em minha playlist, portanto, estava indo nesse show por livre e espontânea pressão. Sempre gostei mais de rap, então, esperava que tivesse algo do tipo.

— O que acha de chamarmos a Bea e todo mundo se arrumar na sua casa? – minha amiga sugeriu, pegando o celular e apoiando os braços no muro

— Boa ideia. Mas, se fizerem muita algazarra, vocês que se resolvam com a minha avó. – comentei, apontando para a sala, onde dona Neide estava sentada

— Relaxa. Vó Neide me ama, sou mais neta dela do que você. Inclusive, avisa à ela que tenho uma fofoca das boas pra contar à ela. – a Jesus sorriu, querendo me irritar. Sabia que eu era ciumenta. — Beatriz disse que vem, mas só se tiver bolo que sua vó faz.

— Só tem de cenoura. Manda ela parar de vim querer acabar com a comida da casa dos outros, obrigada? – brinquei, fazendo Camilla rir também

Ficamos conversando até eu terminar de lavar a louça, então, minha amiga foi arrumar uma pequena mochila para poder se arrumar comigo. Ainda tínhamos tempo de sobra até o horário ideal para começarmos a ficar prontas, portanto, aproveitamos para fofocar com a minha vó. Dona Neide ama saber da vida dos outros; e a gente também.

Agora, vovó tinha ido passar um café e fazer um suco de laranja para Camilla e eu. Deste modo, nós duas voltamos nosso foco ao celular. Enquanto eu perdia horas e horas assistindo vídeos do tiktok, Camilla digitava sem parar.

— Débora disse que conhece esse grupo que vai se apresentar com o Cabelinho. Ela só conhece três deles e mandou foto. Eles cantam trap e são super legais. – Milla me estendeu seu celular, mostrando a foto de um garoto de tranças, magrelo e aparentemente bem alto. — Esse é o Mauro, mas geral chama de Oruam. Débora disse que ele é filho do Marcinho VP, sabe quem é!?Tua avó até conhece a mãe dele, lá da igreja.

Balancei a cabeça, concordando. Ela passou para o próximo; disse que aquele era o Chefin, mas ela não sabia o nome dele. Aquele sim chamou minha atenção, bonito mesmo. Fui obrigada a pegar o celular e dar zoom na foto, para ver melhor.

— Hmm, gostou né!? – a Jesus implicou cutucando minha costela, me fazendo revirar os olhos e me esquivar de seu toque

— Só achei bonitinho. Nada de mais, sem exageros. – dei de ombros

Camilla me mostrou o último, se chamava Jhowzin, e sobre aquele, também não comentei nada, apenas expressei minha vontade de que eles fossem realmente bons e nós mudamos de assunto, dessa vez começando a falar sobre o que vestiríamos.

Enquanto ela falava, foi inevitável não pegar o celular; e quando me dei conta, já estava digitando "Chefin" na aba de buscas do Instagram.

Não o segui, não curti nada. Apenas stalkeei seu perfil e antes que me desse conta, balançava a cabeça em negação, enquanto sorria de canto.

Aquilo não era bom.

𝗠𝗔𝗞𝗧𝗨𝗕 ━ 𝙲𝚑𝚎𝚏𝚒𝚗Histórias para pegar e não largar. Descubra agora