Mesmo dentro do porta-malas do carro de Thomas, Jessy não desistiu de lutar e espernear. Sua voz está abafada por causa do saco preto que colocaram em nossas cabeças e a fita cobrindo a nossa boca, impedindo que a gente chame por ajuda. Nossas mãos estão atadas a frente do corpo, em nós tão apertados que começo a temer se conseguirei chegar viva até o nosso destino. Para ser honesta comigo mesma, espero que não.
Eu desisti.
Desisti de lutar e chamar por ajuda, desisti de correr o risco para buscar uma saída que me tire desse inferno. Afinal, o que vai me esperar do outro lado quando eu sair? Não tenho mais família, Thomas jamais vai parar de me procurar agora que já arruinei seus negócios tantas vezes e Jessy sempre vai impedir Erick e eu de ficarmos juntos. E isso é bom. Ele precisa entender que não há chances de ser feliz comigo, com o destino que me foi designado a ter.
Fecho os olhos com força e me deixo levar pelo sacolejar do carro, sem fazer ideia de onde nós estamos e para onde estamos indo.
As lembranças de Jane fazem o meu corpo desistir a cada segundo mais que se passa.
Thomas matou a minha mãe e agora vai fazer o mesmo comigo.
Me admira eu ainda estar viva depois de tantas encrencas em que meti Thomas, de quantas vezes consegui estragar os negócios dele. Leonard está na cadeira por minha causa, Adrian está morto por minha culpa e consegui livrar Erick das mãos desse homem nojento.
Mesmo que minhas esperanças estejam indo embora, um sentimento de ódio ainda semeia dentro de mim e pensamentos de que quero Thomas morto rondam perigosamente a minha mente. Mas não posso ser assim, não posso me rebaixar ao nível dele, não posso ser igual a ele. O que aconteceu com Adrian foi um acidente, levei a navalha para me defender e não matá-lo, e não quero que o mesmo peso dessa culpa fique em meus ombros pelo resto da minha vida.
Como se não fosse suficiente os meus pais terem morrido por minha causa.
Meu pai aceitou o emprego de Henrique, o pai de Erick, porque achou que assim conseguiria me dar uma vida melhor, que conseguiria nos tirar de onde sempre moramos. Mas tudo o que ele recebeu em troca foi a raiva e ganância de Henrique Prior. Minha mãe tentou me dar uma chance para eu fugir depois que nós fizemos as pazes e ela morreu por causa disso. Enquanto ela estava ao lado de Thomas e me odiava por causa de tudo o que havia ''provocado'' na sua vida, Jane estava viva e até conseguiu a confiança de alguém como Thomas.
Meus pais tentaram fazer o melhor por mim, tentaram me salvar, e os dois morreram por isso. E eu jamais vou conseguir vê-los de novo para agradecer e dizer o quanto os amo.
O desespero de Jessy começa a aumentar quando sentimos o carro parar e o barulho das portas se abrindo e fechando.
Através do tecido preto e quente, a luz do sol fica visível aos meus olhos e antes que eu consiga desviar o olhar, duas sombras já estão se erguendo sobre mim e me puxando pelos braços.
Cheiro de água salgada.
Estamos perto do mar?
A dúvida permanece em minha mente até mesmo quando passamos a pisar em um terreno diferente e instável que identifico ser madeira velha quando a ouço ranger embaixo dos meus pés.
A pessoa que está me carregando continua a me empurrar até que o terreno muda novamente e se torna sólido. Continuamos a caminhar por alguns minutos e começo a pensar qual é o tamanho desse barco, já que é a única explicação para isso, pois parece que nunca chegamos ao nosso destino.
Durante o caminho, capto as vozes de homens, muitos homens, mas nenhum me é familiar e dentre todos eles o único que procuro é por Thomas.
Paro bruscamente quando a pessoa que está me segurando aperta o meu braço e se põe a minha frente. Observo a sua silhueta grande e larga e o vejo esticar a mão para pegar algo. Logo o aperto se torna mais forte e sou praticamente jogada para a frente, caindo de joelhos no chão, e ouvindo o mesmo acontecer com Jessy ao meu lado.
Passos se aproximam de nós e tento aguentar a vontade de me encolher e implorar por ajuda, mas me surpreendo quando nada parecido com esses sentimentos surgem em mim.
Apenas fico parada, esperando por algo horrível acontecer e imaginando como eu irei enfrentar isso também.
O saco preto é puxado com rapidez da minha cabeça, fazendo meus cabelos sujos embaçarem ainda mais e serem jogados para frente dos meus olhos. A luz forte me cega por um momento e fecho os olhos com força, enquanto ouço o choro de Jessy contra a fita cobrindo as nossas bocas.
Pisco mais algumas vezes e balanço a cabeça para tirar as mechas do meu cabelo que cobrem a minha visão, e sinto meu corpo se arrepiar no mesmo instante quando o vejo de pé diante de mim.
— Emily. — sussurra Thomas, sorrindo e se agachando para ficar a minha altura. — É tão bom te ver indefesa e frágil, sabia?
Apenas o encaro, sem conseguir falar ou xingá-lo por algo, e sei que não o faria mesmo se pudesse. A sensação arrepiante e avassaladora de acabar com Thomas retorna conforme o encaro por longos segundos em silêncio desse cômodo e tudo o que consigo pensar é em pular em cima dele e achar algo que possa usar como arma.
Quando abaixo meus olhos para observar minhas mãos presas e machucadas, percebo que não tenho a menor chance e a adrenalina começa a baixar, me fazendo relaxar sobre os meus próprios calcanhares.
Vejo de canto Thomas olhar para Jessy com o mesmo sorriso e arrumar o cabelo bagunçado dela por causa do saco preto. A garota de encolhe com o toque dele e desvio o olhar ao observar seu rosto vermelho e as lágrimas que estão rolando sem parar pelas suas bochechas.
— E você, Jessy. — continua Thomas. — É ainda mais satisfatório ver você tão indefesa e saber que eu posso fazer qualquer coisa com você, já que você está em minhas mãos e seu pai não dá a menor bola pra você. Sabia que é assim que começa um bom trabalho de uma prostituta? Tenho certeza que vai se dar muito bem com as outras garotas.
Jessy abaixa a cabeça e começa a chorar novamente, se curvando em desespero e dor ao perceber o seu fim.
— A propósito — Thomas suspira e se vira para me olhar. —, sinto muito pela sua mãe.
No instante em que ouço essas palavras, lanço meu corpo na direção de Thomas, impulsionada pela raiva e dor tentando acertar um golpe nele, mas as mãos de Thomas agarram meu pescoço e me mantém no mesmo lugar.
— Eu falo isso do fundo do meu coração, Emily. — continua ele, enquanto seu sorriso se alarga cada vez mais.
Resmungo algo contra a fita e vejo o vislumbre da mão de Thomas perto do meu rosto no segundo seguinte, seguido da dor da fita sendo puxada com força da minha boca.
— Perdão, mas eu não te ouvi, meu lindo peão. — fala, mantendo a outra mão na minha garganta para me manter parada.
— Eu disse que você não tem coração, seu filho da puta. — repito, mesmo que meus lábios estejam dormentes e formigando.
Thomas faz uma careta, como se tivesse pensando a respeito.
— Touché. — sussurra, rindo.
— Você tirou ela de mim. — murmuro, e meus olhos começam a queimar pelas lágrimas. — No momento em que nós fizemos as pazes, quando nós duas iríamos começar tudo de novo, você tirou ela de mim, seu babaca.
— É, bom, esse foi o erro dela. — ele suspira e se levanta, fazendo uma falsa expressão de pena. — Eu soube, assim que sai do quarto, que ela ia estragar tudo e eu acertei. Você, com toda aquela história chata sobre o seu pai e o drama com Henrique Prior e o filho, me fizeram perceber que ela mudou de ideia. O que é uma pena porque ela me servia muito bem como fonte de informações e distração.
— Você é um monstro.
Apoio a ponta dos meus pés no chão e respiro fundo, tomando coragem e força para me lançar sobre Thomas.
Dessa vez ele é pego de surpresa e cai no chão com o meu corpo logo em cima do dele e as minhas mãos atadas tentam encontrar o caminho do seu pescoço.
Tento ver o seu rosto, encarar sua expressão assustada e surpresa novamente, mas tudo que encontro é um sorriso largo e uma risada humorada. Ele impulsiona o corpo e gira, deitando em cima de mim e pegando as minhas mãos acima da minha cabeça, me prendendo no chão.
— Vamos com calma, gatinha. — sussurra ele, contente. — Eu prefiro fazer isso longe de uma plateia.
Desvio a minha atenção e paro de me debater por um segundo, olhando para Jessy ainda de joelhos e encolhida, chorando sem parar.
— Você vai pagar por isso. — sussurro, enquanto minhas próprias lágrimas escorrem em minhas bochechas.
— Um dia quem sabe. — concorda ele, apertando as minhas mãos com mais força. — Mas não vai ser pelas suas mãos.
Thomas se levanta e me puxa com ele, arrastando meu corpo para perto da mesa no canto do cômodo. Ele abre uma das gavetas e tira uma seringa cheia de um líquido estranho, sorrindo de um jeito macabro enquanto se vira para me olhar de joelhos aos seus pés.
— Está na hora de começar a festa, meu peão. — sussurra no meu ouvido, e estremeço quando sua boca toca meu pescoço.
Meus olhos se arregalam quando sinto a picada dolorosa da agulha em meu braço e um gemido baixo de dor escapa dos meus lábios. Mas no momento seguinte, em questão de segundos, o mundo está rodando e girando. A imagem de Thomas está distorcida e borrada e seu sorriso sombrio é a única coisa que permanece intacta. Meu corpo está leve e molenga e meus lábios não conseguem formular sequer uma palavra.
A força simplesmente foge de mim e me deixa a mercê nos braços de Thomas.
E eu não faço ideia do que ele fará comigo.
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Uma Nova Chance
Storie d'amore🥇LUGAR NA CATEGORIA MELHOR FINAL DO PROJETOCOSMICO 🥇LUGAR NA CATEGORIA MELHOR RESSURREIÇÃO DO LEAGUE OF LEGENDS 🥈LUGAR NA CATEGORIA ROMANCE DO CONCURSO LEAGUE OF LEGENDS 🥈LUGAR NA CATEGORIA ROMANCE DO CONCURSO BELAS FLORES 🥈LUGAR NA CATEGORIA R...
