Capítulo XVI

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     Correndo ao lado de sua mãe, Elise sentia o vento suave acariciar seu rosto enquanto seus pés deslizavam pela relva macia do campo florido. O aroma das flores silvestres preenchia o ar, misturando-se às gargalhadas alegres que ecoavam pelo vale. Cada passo parecia leve, como se o mundo à sua volta fosse apenas uma ilusão e aquele momento durasse para sempre.

— Senti tanta saudade, mãe! — Elise exclamou, o olhar brilhando com emoção. — O que faço agora que estou sem você?

A mãe sorriu, os olhos transbordando ternura e compreensão.

— Continue sendo a pessoa que eu sei que você é. Persistente, corajosa, feliz. Não deixe que minha partida mude você. A tristeza faz parte da vida, mas superá-la é o mais importante.

Elise sentiu a mão suave da mãe repousar sobre seu peito.

— Você precisa ultrapassar os obstáculos para conquistar seu prêmio: ser feliz, ser você mesma. Sua essência não é como os vestidos que você veste para que os outros vejam. É algo muito maior, algo que ninguém pode tirar de você. Sempre estará aqui.

Os dedos maternos pressionaram levemente o coração de Elise.

— Por mais que escolher o caminho certo em situações difíceis pareça impossível, na maioria das vezes, é necessário.

Elise ouviu algo distante... Um som que cortava a tranquilidade do momento. Alguém a chamava. O encanto começava a se dissipar.

Sua mãe apenas sorriu, um brilho cálido em seu olhar.

— Coloque-se em primeiro lugar, por mais difícil que seja.

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Elise abriu lentamente os olhos e viu Thomas, James, o duque e seu pai. Os dois mais novos estavam sentados em poltronas próximas, enquanto o duque e Gregory andavam inquietos pelo quarto.

— E se ela não acordar, Malcom? — seu pai murmurou, passando uma mão cansada pelo rosto.

— Não diga algo assim, Gregory. Ela só está inconsciente. Logo acordará.

Thomas passava a mão pelo rosto, preocupado. Mas quando ergueu os olhos, viu Elise piscando. Levantou-se sobressaltado, e todos rapidamente o imitaram. Seu pai se aproximou e segurou sua mão.

— Finalmente acordou, minha filha... se lembra de alguma coisa?

Elise tentou repassar os eventos da noite anterior. A fumaça sufocante, o fogo se alastrando, os pulmões queimando...

— O incêndio... Alguém se machucou?

— Ninguém, querida! Não se preocupe. — Gregory acariciou sua cabeça.

— Como se sente, Elise? — perguntou o duque.

— Cansada... mas bem.

Ela tentou se sentar, mas seu corpo parecia pesado demais. Seu pai a ajudou.

— Vou pedir para lhe trazerem um chá. Você precisa descansar.

Todos saíram da sala, deixando Elise sozinha.

Seu olhar percorreu o quarto. Espaçoso, dividido em dois cômodos. Uma lareira ladeada por sofás, uma mesa acompanhada de poltronas, candelabros em cada parede. Às margens da cama, duas cômodas—em uma delas, uma palmatória de vela repousava apagada. O ambiente era bem iluminado, graças às amplas janelas.

Na segunda parte do quarto, avistou um espelho e um banco próximo à janela—o lugar perfeito para leitura, pensou. Então, ouviram-se batidas na porta.

— Pode entrar!

Uma senhora entrou. Seus cabelos pretos estavam presos em um coque, e sua roupa bem ajustada exibia tons de azul e branco. Ela carregava uma xícara de chá sobre um pires de porcelana. Elise aceitou com gratidão, e a mulher fez uma reverência antes de se retirar.

Apesar do chá e do conforto da cama, Elise se sentia entediada e inquieta. Não queria dormir, mas tampouco conseguia se levantar. Então, a porta se abriu novamente.

James.

— Oi... sente-se melhor?

— Sim, mas ainda não estou com forças para me levantar...

— Precisa de algo?

— Não, estou bem. Acredito que precisamos conversar. Não podemos nos e—

— Outro momento talvez seja melhor. — James interrompeu. — Vou sair com meu pai para resolver questões do conselho. Você precisa recuperar suas forças. Minha mãe, Amy e Thomas estarão por aqui. Se precisar, chame-os. Bom descanso, Elise.

Ele se retirou, deixando-a frustrada. Queria consertar as coisas entre eles, mas parecia um obstáculo difícil de transpor. Precisava encontrar uma forma de resolver tudo.

— Elise.

Ela olhou para frente. Thomas.

Tão perdida em pensamentos que nem havia notado sua presença. Começou a ajeitar suas roupas e lençóis, sentindo-se inesperadamente constrangida.

— Me assustou... Sempre aparece tão de repente e silenciosamente.

— Bati na porta, mas como não respondeu, achei que estivesse dormindo. Decidi checar.

— Ah, eu... estou um pouco perdida. Mas obrigada!

— Pelo quê exatamente?

— Por me salvar do incêndio.

— Se lembra...?

— Parece surpreso. Eu não estava totalmente inconsciente.

Thomas soltou um suspiro.

— Infelizmente, a casa está destruída. Quase em ruínas. Mas consegui recuperar isso...

Ele retirou algo do bolso e abriu a mão.

O colar de esmeralda de sua mãe.

Elise o pegou com delicadeza, os dedos deslizando sobre a pedra preciosa.

— Obrigada... É a única coisa material que tenho dela.

— É muito bonito. Vi que, na saída da casa, você levou o livro que lhe emprestei.

— Está em bom estado?

— Inteiro, como era antes.

— Poderia me emprestá-lo novamente? Não terminei de ler, e está sendo um tanto tedioso ficar aqui.

— Não consegue se mover?

O tom dele estava mais preocupado.

— Meu corpo está cansado. Parece difícil ficar em pé.

— Quer mais algum livro?

— Acho que não.

— Está bem. Já volto.

— Thomas... — Elise chamou, fazendo-o se virar novamente. — Obrigada, mais uma vez.

Ele sorriu para ela.

O tempo se arrastava. Elise jurava que haviam se passado séculos e Thomas não retornava. Mesmo cansada, não suportava mais ficar na cama. Com cautela, levantou-se e pegou um xale, apoiando-se conforme dava seus passos.

A segunda parte do quarto revelou um grande espelho, um piano e um armário. As paredes brancas exibiam arabescos e detalhes dourados, semelhantes ao andar inferior.

Ao sair, não notou qualquer movimentação na casa. Caminhou lentamente, até alcançar a escadaria. Deveria estar no segundo andar, concluiu. Quando Thomas a levou à biblioteca, reconhecera aquele lugar.

Com esforço, subiu cada lance de escadas. O cansaço pesava em seus músculos, mas prosseguiu. Ao chegar ao andar isolado, onde ficava a imensa biblioteca, estranhou ao ver a porta entreaberta.

Silenciosamente, aproximou-se. Sentia-se, por um instante, como uma criança outra vez.

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