Matt
Hoje é mais um daqueles dias em que nos mudamos.
- Vamos para onde agora? - pergunto ao meu pai.
Não queria mais me mudar, parece que estamos fugindo, algo do tipo.
- Qualquer lugar que não seja aqui. - disse ele.
- Bela resposta. - disse a minha irmã.
Ela passou na minha frente e se sentou no sofá.
- Por que sempre nos mudamos? Já estou cansado! - disse o meu irmãozinho ao meu lado.
- Basta! - meu pai bateu na mesa à sua frente. - Vamos nos mudar e ponto.
Ele estava mais sério do que o normal. Ele não nos tratava mal, só quando nós não o escutávamos.
- Desculpe. - sua voz saiu rouca. - A nossa vizinha viu o Jamie pela janela. Não podemos mais ficar aqui. E tenho certeza de que vão gostar da nossa nova casa.
Olhei para o Jamie e ele levantou os ombros e as mãos fazendo uma careta. Agora eu entendi. Sorri para ele.
- Vão arrumar as suas coisas.- disse ele ainda com as mãos apoiadas na mesa.
Fui para o meu quarto. Esse era sempre o motivo da nossa mudança. Um de nós três fazia algo extremamente extraordinário para os mundanos, e dessa vez foi o Jamie. Mudanças sempre me estressavam.
Meu celular vibra no meu bolso. Era uma mensagem da Molly.
" Ei gatinho. Vai fazer alguma coisa hoje?"
Sorri com a mensagem dela.
" Estou arrumando as minhas coisas. Vou me mudar."
"Que péssimo, Matt. E como você está?"
"Na verdade, normal. Não ligo mais para essas coisas de mudanças."
"Tem certeza? :( "
"Tenho sim. :) "
" Pode vir aqui em casa mais tarde? Se quiser, claro, sabe que não precisa."
"Vou sim."
A Molly era a única pessoa que me deixava de bom humor.
Olhei para o meu quarto e estava uma bagunça, não iria acabar isso tão cedo. Encarei a caixa à minha frente e fechei os olhos, me concentrando. Abri um olho com esperanças, e lá estava ela, flutuando na minha frente. Sorri e bati palmas. "Eu consegui", pensei. Eu tinha parado de praticar, tinha perdido o jeito. Fechei os meus olhos novamente, e depois abri, e os meus livros estavam entrando dentro da caixa.
- Você está encrencado se ele te ver praticando agora. - disse o Jamie na porta.
- Só se ele tiver câmeras pela casa, ou você contou à ele. - digo apertando os olhos para ele. - Bom, acho mais provável que ele tenha olhos atrás da cabeça.
Sorrimos.
- Eu ainda sou melhor. - disse ele.
- Melhor? - o desafio.
- Quer apostar? - pergunta ele.
Acenei com a cabeça. Jamie fechou os olhos e sorriu. A caixa levitou com dificuldade.
- Acho que você precisa treinar mais um pouco, maninho. - coloquei a mão em seu ombro.
Ele sorriu.
Olhei para ele. Percebo que todas as caixas estão no ar, até aquela que ele tentou levitar, e minhas coisas sendo guardadas rapidamente dentro delas.
- Viu? - disse ele batendo no meu ombro. - Acho que pratico até demais, maninho.
Eu o chamava de irmãozinho, mas ele já estava próximo do meu tamanho, com apenas doze anos.
- Você tem razão, maninho. - sorri.- Isso é inacreditável. Nem consigo imaginar o que você estava fazendo quando a nossa vizinha te viu.
- Na verdade, eu só estava pegando un livro que estava na última prateleira da estante. Não alcançava nem com um banquinho. Então eu simplesmente...
- Fez o livro flutuar sozinho? - sorri.
Ele sorriu satisfeito.
- Ah, e obrigado pela a ajuda. - apontei para o quarto.
Balancei o seu cabelo e parei na porta.
- Vou me encontrar com a Molly. - digo. - Por favor, não diga para o pai.
- Tudo bem, vai lá. - ele sorriu.
Fizemos nosso toque de mãos e sai. Olhei para trás e ele ainda estava ali, parecendo uma estátua. Eu tinha pena do Jamie, por ele nunca poder sair de casa, por ele nunca ter aproveitado a sua infância. Na verdade, nenhum de nós aproveitamos.
O pai não estava em casa, então sai pela porta da frente. Peguei a minha moto na garagem e fui para a casa da Molly.
Fui pela estrada que dá na praia. Senti o cheiro da maresia bater em meu rosto. Queria poder sentir essa sensação para sempre, de segurança e liberdade.
Eu estava diante da casa dela. Os pais dela provavelmente não estavam em casa, porque a mãe dela sempre deixa a luz da varanda acesa, e hoje não estava.
Toquei a campanhia e esfreguei as mãos. Aqui estava frio.
- A porta está aberta! - gritou a Molly.
Abri a porta devagar e a tranquei.
- Molly?
- Estou aqui na sala! - gritou ela.
Fui para a sala. Se o meu quarto estava uma bagunça, imagina como estava a sala dela.
- O que aconteceu aqui? - sorri.
- Ah, isso. São apenas coisas que eu não uso mais, estavam no porão. - disse ela. - Tô separando algumas coisas.
Molly levantou com dificuldade por causa da bagunça ao seu redor. Ela estava conseguindo sair, mas tropeçou em alguma coisa que eu não consegui enxergar, mas eu à peguei à tempo. Sorrimos.
- Me desculpe. - ela sorriu sem graça.
- Tudo bem.
Levantei à sua cabeça e coloquei seu cabelo atrás de sua orelha.
- Você está mais vermelha do que eu. - sorri.
Ela me deu un empurrão fraco. Sorri e a beijei.
- Por que você vai se mudar? - pegunta ela.
- Ah, o meu irmão vez algumas besteiras. - sorri. - E meu pai me disse que a nossa nova casa vai ser melhor.
- Vai para onde?
Essa era a pergunta que eu estava evitando.
- Não vamos falar disso agora. - eu a beijei.
Realmente não sabia para onde iríamos dessa vez. Poderíamos mudar até de país, não sei ao certo.
- Matt... - ela sorriu. - Antes de eu ter o luxo de ficar com você, preciso arrumar tudo isso.
Analisei a sala. Estava tudo espalhado.
- Uma ajudinha vai ser melhor. - sorri.
Ela sorriu.
Comecei perto da lareira da sala.
- Seus pais já deram alguma notícia? - pergunto.
- Minha mãe me mandou um e-mail ontem, falando que eles tiveram um imprevisto, e que iriam para Miame. - disse ela em um tom de decepção.
- Não gosto que você fique aqui sozinha, Molly. - digo.
- Já estou acostumada. - ela abaixa a cabeça.
Queria poder abraçá-la e falar que tudo ficaria bem, mas nunca é assim.
- Ah, não brinca! - digo.
- O que foi?
- Você tem um Barney roxo! - sorri.
- Ah meu deus! Não! Matt, me dê isto! - ela tentou puxar da minha mão, mas eu levantei.
- Aposto que você dormia com ele. - digo
- Me dê ele, Matt! - ela gritou, me fazendo cosquinhas.
- Isso é completamente injusto. - digo caindo no sofá.
- Nem tanto. - ela deitou em cima de mim, me beijando. - Já estamos na metade.
Em meia hora terminamos de arrumar tudo. Separamos as coisas que ela vai ficar em duas caixas, e em cinco caixas, as que ela vai dá à um orfanato.
- Quer comer alguma coisa? Posso fazer, ou podemos pedir algo. - pergunta ela.
- Que tal algodão doce? - pergunto sorrindo.
- Que tal um cachorro quente e depois um algodão doce? - pergunta ela sorrindo.
- Fechado. - sorri.
- Ok, então. Preciso tomar um banho. - disse ela. - Não vou demorar.
- Okay.
Molly subiu as escadas e eu fiquei sentado no sofá.
Fiquei encarando o fogo. Não queria mentir para a Molly do que eu realmente sou. Queria poder convidá-la para jantar comigo e com a minha família, como pessoas normais, mas eu sei que isso nunca vai acontecer. Meu pai nos proibiu de namorar mundanos e pessoas de um tal de acampamento. Uma vez eu perguntei o porque, mas ele não me respondeu. A mesma coisa quando eu perguntei da minha mãe, ele nem se virou para me encarar, apenas olhou para o lado e se manteu em silêncio. Eu sempre fui carente, principalmente de pais. Eu via os meninos da minha idade saindo da escola com os seus pais, sorrindo. Sempre os invejei, aquilo me magoava. Eu sabia que o meu pai nunca seria assim. Até o dia em que eu descobrir os meus poderes. Eu os chamo de poderes, porque acho "magia" e "mago" muito formal. Eu quase nos matei, na verdade. Eu e a minha irmã, Lucy, estávamos cuidando do Jamie e o meu pai não estava em casa. Eu comecei a suar, ficar com calor. Não me lembro do resto. Só sei que eu desmaiei. Como eu sou o mais velho, meu poderes apareceram primeiro, e isso foi uma novidade, pelo menos para mim e para a Lucy. Meu pai voltou no dia seguinte, e a Lucy contou o ocorrido para ele. Essa foi uma das únicas vezes em que eu o vi sorrir. A primeira vez foi quando eu tinha oito anos, quando o meu pai recebeu um grande envelope de um homem alto de terno, que bateu na nossa porta.
- Aqui está. Nossa divida está paga. - dizia o homem. - Saiba que não foi fácil conseguir isso.
Meu pai sorriu e pegou o envelope amarelo. Ele se sentou na mesa e o abriu. Eu o espiei pelo canto da porta. Dentro dele continha duas fotos, uma era de uma casa com um casal na frente, e a outra, era uma menina. O resto era papelada. Eu só me lembro dele sussurrando um nome, "Claire", e sorriu. Depois disso nos mudamos novamente. Anos se passaram e ele me mandou para uma escola nova. Mesmo não se importando se eu queria aquilo, ele me mandou em uma missão. Tirando o fato que a minha primeira missão foi um desastre. Eu apenas deveria matar um tipo de monstro, metade lobo, metade coiote, no final eu consegui. Mas desta vez, eu deveria investigar uma menina chamada Claire Bennet. Eu não sabia o porque, ou quem ela era, mas era importante para ele. Então foi o que eu fiz. Eu a conheci na aula. Mas todos os planos tem um pequeno erro, uma pequena falha. Ela morava com a avó. A avó dela não era uma pessoa qualquer, ela era uma bruxa, vamos chamar assim. Pessoas que tem poderes e mais habilidades do que os outros. Mas ela era uma bruxa poderosa, de uma linhagem de sangue antiga. Uma pessoa difícil de se matar sem deixar rastros. Meu pai me fez tomar decisões, mesmo eu não querendo, ele me fez deixar de ser bom. Eu a matei. Eu matei a avó da Claire. Eu me lembro da decepção em seus olhos, da dor que ela sentia, ela me chamava de Liam, não sei porque. Conversamos em alguns dias. E todas às vezes ela me chamava de Liam Jones. Eu me lembro...
- E então, como estou? - pergunta a Molly.
- Está linda. - digo.
Molly estava linda! Ela estava com uma bota preta, sobretudo preto, calça jeans, blusa branca, e um cachecol.
- O que aconteceu? Você está bem? - pergunta ela preocupada.
Percebo que os meus olhos estão lacrimejando.
- Estou bem. - tento ser convincente. - Amor, lá fora está frio, acho melhor colocar uma toca.
- Tem certeza? Tudo bem. Já volto.
Me lembrei do nosso primeiro "acaso" encontro. Eu precisava saber mais sobre a Claire. Eu vi a Molly e ela conversando na escola. Então resolvi arriscar. Eu não conseguia conversar com a Claire, por causa do menino, seu namorado, talvez. Ele era um mago também, consegui sentir. E tenho certeza que ele não gostava de mim. Então resolvi conversar com a Molly. Um dia passei na casa dela, e eu a vi saindo com o carro. Ela estava sozinha. Pegou a estrada para o leste, e eu a segui um pouco mais atrás. Ela parou para apreciar o pôr do sol, e saiu do carro. Eu não iria conseguir falar com ela. Então eu meio que resolvi usar uns truques na manga, como dizem. Pensei que não iria funcionar, quando eu à vi entrando no carro, mas o carro não pegou. Ela começou à andar sozinha pela rua. Bem, como eu sou um cara gentil, eu ofereci uma carona. Ela hesitou de primeira, mas aceitou. Mas uma coisa eu não previa, que eu iria me apaixonar pela melhor amiga da menina que o meu pai quer matar. Eu me apaixonei por uma mundana.
- Pronto. - ela desceu com a toca na mão.
- Deixe que eu coloco.
Peguei a toca de sua mão e a coloquei em sua cabeca, beijando sua testa, e depois à sua boca.
- Eu te amo, Molly.
- Também te amo, Matt. - ela sorriu daquele jeito que eu amava.
Eu não via o motivo que o meu pai tinha de matar a Claire, ou até mesmo a Molly.
- Não vou deixar nada de mal acontecer com você, prometo. - meus olhos começam a lacrimejar.
- O máximo que pode acontecer é você ir para muito longe e pararmos de nos ver. - ela abaixou a cabeça.
Eu a beijei.
- Nada vai nos separar, Molly. - digo.
Eu estava com medo, mas prometi mesmo assim. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde ele iria tirá-la de mim. Eu não sou o mesmo de antes, ela me mudou.
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A Escolhida
FantasíaEstava escuro e frio. Olhei no relógio e eram três da manhã. Uma pequena melodia estava tocando baixinho. Levantei da minha cama e abri a porta devagar. Uma luz muito forte lá de baixo chamou a minha atenção . Fiquei curiosa e desci as escadas. Paro...