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Eu queria trapacear. Queria fingir que nada daquilo tinha acontecido, queria enganar minha mente e forjar outras lembranças para que a dor da culpa não fosse tão intoxicante.
Porém, enquanto esperava Benjamin terminar tudo para irmos tomar sorvete, me vi sucumbindo, deixando-me levar pela realidade das coisas.

Talvez não existisse mais tempo para fingir, para me enganar. Ninguém passa a perna na morte. E, de alguma maneira, a morte estava me sondando. Por onde eu passava algo ruim ficava pra trás.

Primeiro foi a minha mãe, depois a família que me adotou e agora o Liam. Quantos outros teriam que morrer ou se ferir para que eu entendesse? Até onde o meu medo iria me cegar?

Fui criada numa religião muito restrita. Rezei para imagens de santos a vida inteira, fiz orações antes de dormir por anos, limpei o altar da igreja e li a bíblia desde criança.
Nossa crença se baseava em céu e inferno. Ponto. Não tinha um meio-termo, nem divagações. Ou você era bom ou ruim, ou ia para o paraíso ou descia para o purgatório.

Coisas místicas nunca fizeram parte das fases da minha vida. Nunca acreditei nisso. Nunca sequer parei para pensar nessas coisas. Nem mesmo quando me chamaram de esquisita e sugeriram que eu tinha algum tipo de pacto.
Isso parecia extremamente longe da minha realidade.

Mas pelo visto não tão longe assim....

Estou perambulando pela recepção. Fico roendo a unha do dedão e encarando a porta giratória vez ou outra. O que estou esperando finalmente? Que o motoqueiro volte? Que me diga que não sou maluca? Sei que ele não faria isso. Ele está mentindo descaradamente pra mim.

— Acha que ainda vai demorar muito? — Perguntei ao Ben, espiando-o. Ele estava concentrado, digitando freneticamente no computador. — Se quiser, talvez eu possa ir organizando o....

— Juro que estou acabando! Fica aí e relaxa.

— Ah que fácil fazer isso! — Resmunguei, dando a meia volta. Eu não conseguia parar quieta. Por fora o meu semblante poderia até estar calmo, mas por dentro eu estava me despedaçando em dúvidas.

Era como ter que abrir uma Caixa de Pandora e não saber quais mazelas irei libertar.
Se fosse como na história, eu poderia acabar fazendo uma merda tão grande que colocaria mais gente em risco; em contrapartida... sem saber é ainda pior.

— Ben? — Me apoiei no balcão, ficando na ponta dos pés para vê-lo do outro lado. — Será que tem problema se eu mexer rapidinho no computador? Digo, só enquanto te espero acabar aí.

Ele levantou a cabeça e endireitou os óculos de leitura que usava às vezes.

— Não precisa nem perguntar, Karol?! — Brincou, sorrindo de canto. — Vai lá, enquanto isso eu acabo de lançar esses títulos no sistema.

— Beleza. — Peguei minha mochila que estava caída no chão e marchei em direção ao outro extremo do salão.

A cada passo dado mais forte o meu coração batia. As palmas das minhas mãos começaram a suar e eu pensei em desistir, porém era tarde. As mesas dispostas lado a lado com computadores antigos estava bem ali. Só precisei andar mais um pouco e desabar sobre uma das cadeiras.

Liguei a máquina e esperei o monitor ganhar vida.

Meus ouvidos zumbiam com a ansiedade latente dentro do meu sangue. Não havia cor a minha volta, assim como não existia para onde correr. Eu estava sentenciada àquele momento.

Com as mãos trêmulas retirei o pesado livro que a Madre Superiora me entregou dias atrás e o coloquei sobre as minhas pernas. A capa parecia mais vívida e chamativa do que da última vez. Passei os dedos pelos detalhes talhados no couro e depois o abri.

O Príncipe LoboOnde histórias criam vida. Descubra agora