Cap. 03 Lucas

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Lucas

(Divinópolis, 2015)

Meu coração sempre soube que a felicidade não era algo do que eu pudesse me gabar, não por não ser feliz de verdade, mas porque diziam os antigos que se a gente fica feliz demais o destino dá um jeitinho de estragar tudo.

Minha história com Alice infelizmente comprova esse dito popular.

Eu a amei mais do que um pássaro ama a flor, por falar em flor, nunca me conformei com a vida curta das flores, uma beleza que encanta e que se esvai cedo demais, desde o momento em que a vi, sabia que nos casaríamos e teríamos um filho juntos.

Está bem eu não sabia disso, mas eu a escolhi para ser minha mulher, só não sabia que ela seria realmente uma flor tão rara que a vida por pura maldade a faria sangrar tão jovem até o último suspiro.

Então aqui estamos nós, eu e Elisa, nessa cidade pacata, Divinópolis, o jardim tranquilo que minha Alice escolheu para descansar e voltar para terra.

Por essa razão essa cidade desperta em mim sentimentos ambíguos,
amor e revolta, uma mistura de gratidão e dores profundas...

Quanta saudade tenho,
às vezes parece que ainda consigo escutar os diálogos que se tornaram nossa rotina nos últimos meses de seu tratamento.

Meu coração encolhe tanto, só não desaparece de vez, porque Elisa o preenche novamente, cada risada sua é como um sopro de vida. 

___Amor, você já está de pé tão cedo, por favor volta para a cama, eu vou Levar Elisa na escolinha, mas já volto, eu repetia todas as manhãs ___Estou bem amor, não se preocupe, só vou escrever um pouquinho lá no escritório e volto para cama, prometo,  dizia mostrando uma força bruta e uma leveza inexplicável.___Vamos papai, está na hora, Elisa dizia, com toda inocência que uma criança de  cinco anos é capaz, - abraçando as pernas da mãe que retribuia beijando o topo de sua cabeça. 

Alice era uma rosa tão rara que eu gostaria de tê-la colocado em um potinho, como eu lamento não ter podido salvá-la dessa maldade que é o cancer,
mas sou um mero mortal e nem todo o amor que sinto por ela conseguiu fazer um milagre.

Mas é preciso reconhecer que ela partiu serenamente deste mundo, com seu coração de poeta e alma gigante, foi corajosa até o ultimo suspiro.

Faz exatamente um mês hoje que ela (como diz Elisa), virou estrela no céu.

Eu entrei no escritório no final da tarde e vi seu diário na gaveta, me perguntei quanto tempo demorei para notar,  encontrei seguro por um adesivo na capa, uma de suas muitas formas de me tocar tão forte, alí escrita em um papel vintage, sua última carta escrita para mim e Elisa.

Fiquei um pouco chocado ao ler, parei logo no início quando achei fixada uma lista que ela deixou para direcionar meus primeiros 365 dias sem ela.

Ah Alice você não entende...
Eu não estou preparado para seguir em frente ainda,
tenho mantido a rotina de luto aqui em casa, 
tenho trabalhado trancado no escritório e nada de "socializar", por isso a voz de comando tão cheia de esperança e aconchego de Alice, me fez desmoronar totalmente, meio abalado eu fui vistá-la. 

Estava indo bem, conseguindo desabafar e chorar longe de Elisa,  até que vi aquela moça em um túmulo próximo, parcecia que iria desmaiar a qualquer instante, pálida como um fantasma. 

A moça bonita que nem sei o nome mas a beijei nos lábios, e foi embora sem trocar uma única palavra, não, definitivamente não parece real. 

Eu a procurei na rua assim que sai daquele movimento repetitivo, piscando os olhos e mordendo os lábios, dando batidas no rosto, me perguntando se tinha sido real mesmo, ou fruto de meu cansaço e fragilidade emocional.

Estava tudo escuro lá fora, mas a lua redonda e alaranjada parecia esnobe
no céu, tão perfeita, tão tranquila, mesmo solitária, diferente de mim, totalmente atordoado.
Enfim, quando olhei para a rua  a moça havia desaparecido.  

***

Já faz dias desde  que encontrei a moça no cemitério, não consigo esquecê-la, não sei se estou ficando louco, mas estou com a sensação estranha de que nada acontece por acaso, que aquele  encontro, em um dia de dor tão profunda, em um lugar tão morbido e solitário, nos conectou de alguma forma,  não me refiro a ter um relacionamento físico, estou de luto poxa! Estou falando de uma conexão de alma,  por isso eu preciso encontrá-la de novo, nem que seja só mais uma vez, para dizer um oi, e talvez, perguntar seu nome e depois saber mais de suas dores.
Que o destino nos ajude.

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