Diane
O retorno. Uma onda de calor envolvia o estômago de Diane Fiore, quando o táxi parou de frente aquela velha casa na rua silenciosa, iluminada apenas pela lua cheia e as infinitas estrelas que a saudavam no infinito. Suas memórias mais marcantes sempre lhe ocorreram assim, no seio da noite.
Ela olhou para o táxi que se afastava com uma expressão de quem perdeu a alma, segundos depois de ser deixada ali, diante do portão de madeira desgastado pelo tempo. Parecia que um século havia passado desde que aquelas paredes abrigaram sua família; vendo de fora, tudo parecia tão distante que ela chegou a se perguntar se realmente aconteceu nesta vida...
Imóvel como uma goiabeira, tocou a aliança no dedo anelar, depois retirou lentamente uma mexa de seu cabelo que estava colada sobre as maçãs do rosto. Suspirou. Em sua cabeça, uma narrativa angustiante como se fosse um filme em preto e branco começou a passar dolorosamente, quer dizer não era um filme vencedor de óscar em Hollywood, se aquela fase de sua vida fosse um filme, pensou ela, - seria um curta-metragem, "breves registros de uma felicidade clandestina", enfim, um desses filmes de quinta, concluiu ela, com sarcasmo mórbido.
Tudo parecia normal na amistosa relação entre os pais, até que ela percebeu que sua mãe raramente ficava em casa desde a chegada do parque de diversões na cidade, duas semanas atrás. Agora, ela se arrumava mais, pintava as unhas compridas de vermelho, havia colocado mechas loiras no cabelo e vestia roupas mais ajustadas ao corpo. Laura sorria frequentemente; na verdade, ela agora sorria, o que era estranho, pois antes seu semblante era de alguém que havia perdido o gosto pela vida há tempos.
Diane já não tinha certeza se devia preocupar-se com o pai, que parecia ignorar as mudanças da mãe, ou se apenas deveria imitar seu comportamento e contentar-se com a felicidade dela. Era difícil ignorar a intuição de que aquela mudança súbita afetaria suas vidas de alguma forma.
E não demorou muito para que, como ela previra, tudo desabasse. A família, que antes era unida e feliz na simplicidade do cotidiano, tornou-se motivo de conversa na pequena cidade.
"A pobre adolescente que não tivera sorte! A coitada abandonada pela mãe precisava assumir a responsabilidade de cuidar do irmão mais novo, enquanto o pai se afogava no álcool.
Diane franziu a testa ao pensar nisso, na época ela sabia que se mais alguém pronunciasse essa palavra "coitadinha" se referindo a ela, tinha certeza que iria perder a paciência e explodir, até mesmo naquele momento, ainda odiava essa expressão, não gostava de incorporar o papel de vítima e muito menos de ser tratada como tal, preferia a versão que aprendera na igreja "coitadinho é o diabo, não tem nem a chave da própria casa", _ enquanto olhava para a chave em sua mão, riu daquela analogia.
Encolheu um pouco os ombros ao pensar na adolescente que na fase mais bonita da vida, ou pelo menos é o que lhe contaram sobre "a flor da idade". Ela era apenas uma flor abandonada, cujas pétalas foram impiedosamente esmagadas pela dor e vergonha. Laura.
É vergonhoso, aos quinze anos, ser o centro das atenções em Divinópolis, sentir a dor de ser abandonada no silêncio inescrupuloso, sem um único abraço ou explicação, por aquela pessoa que deveria amá-la e protegê-la no mundo e do mundo. Laura.
Anos mais tarde, o aperto na garganta ainda persistia. Dianne não tinha certeza se seria capaz de perdoar, mas fez um voto silencioso de que, se fosse abençoada com a maternidade, nunca faria o que sua mãe havia feito a ela e ao seu irmão Pedro.
***
Dianne continuou mais alguns minutos encarando a antiga casa, era mesmo inevitável não pensar na família que um dia compartilhou uma vida juntos ali, refeições, risadas, abraços, e por fim, indiferença, silêncio e as lágrimas. Na rua, alguns metros da casa, um carro Toyota verde-escuro passava tão lentamente, se Dianne fosse um pouco mais paranoica, pensaria que a pessoa ao volante estaria lhe observando. Segurou firme a alça da mala, pegou a chave no vasinho da planta, suspirou fundo e mergulhou finalmente de vez naquela página de sua vida.
Tudo que desejava era paz, um canto tranquilo para começar de novo. Encontrar suas raízes, quem sabe? Acendeu a luz, dirigiu-se ao seu quarto antigo, deitou-se na cama e chorou. Fechou os olhos por alguns momentos e, quando os abriu, o sol já estava a brilhar lá fora.
Era realmente necessário ter muita coragem para começar de novo. Ela enviou uma mensagem de texto para a sua pessoa favorita no mundo.
Diane: < Desculpe não ter avisado, sabia que você estava de plantão e não quis incomodar. Cheguei de madrugada. Pode trazer um café? >
Gaby: < Não acredito que você não me ligou! Chego aí em dez minutos>.
Diane: < Amo-te! Até o infinito>
Gaby: < Também te amo. Mas continuo brava!>
Diane: <, mas vai me perdoar assim que eu te abraçar, por que somos almas gêmeas? >
Gaby: < Exatamente. Não resisto ao teu charme, você sabe!>
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O Poder da Noite
Roman d'amour"Quando as luzes da cidade se apagam, acendem as estrelas dentro de mim" O Poder da Noite, é uma estória de laços fortes de amor e amizade, narrativas de noites longas de insônia, reflexões e superação. Diane Fiore é uma dessas pessoas cuja vida se...
