Cap. 22 Diane, 2015

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Elisa 

Após a despedida sobre o capô do carro, Lucas e Dianne não tiveram a chance de se encontrar pessoalmente, mas mantiveram contato diário ao longo das duas semanas via SMS. Sim, em uma era dominada pela internet e seus inúmeros aplicativos, ambos concordaram que a maneira mais íntima de se comunicar era, de fato, o antiquado SMS. 

Não era surpreendente que, quando o celular de Diane tocou repentinamente naquela fatídica manhã de novembro, ela entrasse em pânico ao ver que era uma chamada de vídeo de Lucas. Quase reagindo instintivamente, ela jogou o celular na cama e exclamou "Ai meu Deus" no meio do quarto. Após se acalmar e atender, a voz encantadora e o sorriso cativante que apareceu na tela quase fizeram seu coração derreter completamente. Elisa!

   ***

Bem, lá estava Lucas, parado, absorto diante daqueles olhos sonolentos e aquela boca, ah, Deus! Aqueles lábios tão...


— Tia Diane, meu pai trouxe frutas para o nosso piquenique!

— Oi, entrem, por favor. Diane estava eufórica com a visita deles. Parecia tão... Feliz?

Quando Lucas chegou ao escritório naquela manhã e viu uma figura girando em sua poltrona e falando ao telefone, ou melhor, ao celular, ele soube de imediato que era Dianne, mesmo antes de ver seu rosto na tela.

Elisa havia pedido que ele ligasse para Dianne, alegando um assunto importante, mas Lucas hesitou, pois não podia revelar que ele e Dianne haviam acordado estranhamente em não se falar por chamadas, somente por mensagens de texto durante aquele mês.

Lucas soube que elas haviam marcado um encontro e, naturalmente, ofereceu-se para levar Elisa. Chegou no horário combinado com um sorriso radiante e uma grande e bela cesta de piquenique, acompanhada de uma toalha xadrez. A pedido de Diane, ele passou um tempo com elas no jardim antes de voltar ao trabalho.

***

No final do dia...

Ao cair da tarde, Elisa havia explorado cada canto daquele lugar mágico de Diane, desde o jardim, passando pelo guarda-roupa e cozinha, até o pequeno baú de memórias no quartinho, onde descobriu um velho álbum de família.

Ela o folheou com seriedade, percebendo que se tratava de um registro muito íntimo, mas com a delicadeza de uma fada, o que explicava por que havia conquistado o coração de Dianne.

Essa tarde trouxe emoções intensas para Dianne, ao ver-se novamente como uma menina, junto de seus pais, sua mãe grávida, "sua mãe grávida", os... Foi então que seu antigo sonho emergiu. O anseio de ser mãe.

Conteve suas lágrimas e foi se sentar na varanda de casa para não desabar de emoção na frente da pequena Elisa.

Diane ficou alguns minutos sozinha ali pensativa, e lá estava aquelas duas jabuticabas lhe encarando com delicadeza.

— Tia, você ficou triste devido às fotos?

— Não, meu anjo, não é tristeza, é apenas um pouco de saudade.

— Você gostaria de ser criança novamente, se pudesse?

— Nossa! Que pergunta difícil. Se eu pudesse entrar no túnel do tempo e voltar à infância, seria maravilhoso rever meus pais, meu irmão. Mas eu não teria te conhecido. Respondeu ela, gesticulando com as mãos...

— É verdade, tia Diane. Então, melhor não...

— Você gostaria de ser criança para sempre, como o Peter Pan?

— Não! Eu quero crescer e ser uma grande escritora como minha mãe.

— Nossa! Que legal! Então você gosta de livros?

— Sim, eu adoro ouvir histórias também.

— Ah, eu vejo aqui na minha bola de cristal que um dia você será famosa em todo o mundo.

— Quando você era criança, o que queria ser, tia?

— Ah, eu queria ser dona de casa, casar e ter muitos filhos correndo pela casa.

— A senhora não teve filhos, não é, tia?

— Às vezes crescemos e esquecemos os sonhos de criança.

— Ah, tia, eu não vou esquecer o meu sonho.

— Promete? Vamos fazer o juramento do dedinho?

— Vamos, eu gostei, tia.

Pausa...

— Tia Diane, você ainda quer ter um bebê?

Diane engasgou-se com a própria saliva. Como uma pergunta tão simples poderia exigir uma resposta tão complexa? Ela não conseguiu dizer nada. Elisa a abraçou em silêncio.

***

Elisa vestia o traje de balé que um dia Dianne usou no palco da escola, e girava pela casa, imitando uma bailarina. Ela e Dianne ainda dançavam juntas quando esta última notou Lucas observando-as, parado diante do pequeno portão de madeira. Fascinado?

Diane recompôs-se até perder o rosado das bochechas enquanto Lucas caminhava até elas.

Nossa! Há quanto tempo não via minha florzinha tão alegre assim. Obrigado.

Essa menina é um verdadeiro raio de sol, sou eu quem deve agradecer.

Papai, vou ao quarto de Diane buscar minha mochila.

Lucas estava tão extasiado que não pôde resistir. Avançou três passos e envolveu Diane num abraço que transcendia palavras preparadas. Contudo, ele diria algo que encontrou no diário de Alice.

Você sabia que "Quando duas almas se encontram através do olhar, o beijo se torna mágico"?

Lucas acariciou a alma de Diane com os olhos, tocou o rosto dela, como se tocasse um piano, e só então, tocou em seus lábios, como se tivesse vivido sua vida inteira à espera daquele momento.

Diane sentiu sua pele esquentar, seu coração disparar e suas mãos trêmulas passearem nas costas de Lucas.

Seu Coração finalmente deu sinal de vida, derreteu parte do gelo acumulado. Diane sentia-se viva!

Naquele momento os dois lembraram-se da pequena e olharam espantados para a porta. E é claro que lá estava ela sorrindo, os olhos grandes de jabuticaba.

Lucas e Elisa retornaram para casa conversando com empolgação sobre o piquenique na casa de Diane.

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