000. PRÓLOGO.

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( 000. grande amigo Merle )

' MARJORIE HILL POV'S '

FAZIA UM TEMPO DESDE QUE OS MORTOS resolveram se rebelarem e voltarem à "vida", de uma forma que ninguém nunca entendeu. Entretanto, após todo o caos que tudo isso causou ao mundo, as pessoas - aquelas que sobraram, pelo o menos - simplesmente desistiram de achar um "porquê" e apenas aceitaram as condições que foram obrigatoriamente impostas à nós.

A realidade agora era outra. Uma realidade dura, suja, cheia de sangue e morte. Sinceramente, uma realidade bem assustadora. Porém, com meus catorze anos de idade, vi e tive que passar por coisas que nenhuma criança - ou, qualquer outra pessoa possível - merecia ver ou passar. De alguma forma, havia uma certa... "comodidade" nessa nova realidade. Não de uma forma boa, é claro, mas, quando você passa um bom tempo dentro de tudo isso, você se acostuma.

Simples assim.

Primeiro, você tem que se acostumar com o fato de que não, eles não são mais humanos. E que, se você exitar em feri-los, eles não farão o mesmo. Eles querem te ferir. Então, ou são eles... ou é você.

Em segundo lugar, o cheiro. O cheiro da carne podre, da humanidade se esvaindo, do ar totalmente poluído pela morte e o sangue velho. De início, achei que isso seria impossível de se acostumar. E, por mais que até hoje eu ainda sinta certa ânsia de vômito perante à isso, é tolerável. Tem que ser, afinal, eles estão por toda parte e esse cheiro horrível os perseguem também - e até quando não estão perto, você consegue sentir. É tipo algo que te marca o suficiente para nunca esquecer.

Porém, eu acho que tem algo com o qual eu nunca seja capaz de me acostumar. A morte. Não aquela que nos rodeia, arrastando seus pés devagar pelas ruas, matas... por todos os cantos - ou, como os nomeamos carinhosamente, os errantes ou zumbis. Eles são a morte em sua mais pura forma, onde posso vê-la, tocá-la e atirar em seu crânio podre. Depois desse tempo em que passei lutando pela minha sobrevivência e a da minha família, os mortos-vivos pararam de se tornar o meu maior medo.

Sendo substituída pela morte qual eu não podia ver. Apenas sentir. O perigo que nos rodeava, nos deixava sempre à mercê desse tipo de morte. Não sei explicar exatamente o que se passa dentro de mim, os conflitos que enfrento quando o assunto é esse. É só medo de uma morte mais dura.

E, pode ser - e sei que é - egoísmo da minha parte pensar assim, mas, o medo é que a morte real os pegue. Que ela atinja aqueles que realmente importam para mim. A minha família, aqueles que estão sempre ao meu lado, desde antes do mundo acabar. Não tenho medo da morte em forma de errantes, porque eles não são/foram alguém de verdade para mim - isso torna lidar com eles... menos difícil. Entretanto, eu tenho a absoluta certeza de que não conseguiria lidar com o fato de ver um daqueles que eu amo, nessa posição.

Esse é o meu maior medo.

- Margy? - ouvi, me livrando dos pensamentos paranoicos. Pousei meus olhos cansados na figura alta e esguia de meu irmão, parado à alguns passos ao longe. Ele usava sua típica jaqueta jeans-escuro, tinha seu machado mediano pendurado às costas, os cabelos castanhos claros e olhos da mesma cor sujos de poeira. Seu semblante - também cansado - me analisava - como sempre -, preocupado.

Jackson era três anos mais velho do que eu. E, desde que eu era apenas uma bebezinha, vivia sob suas asas protetoras. Ele tinha o mesmo instinto coruja que papai havia tido comigo e isso sempre me lembrava dele, de uma forma boa e cheia de carinho.

- Estou bem - afirmei, só então percebendo o quão para trás estava, em relação à Jackson, Melissa e Pandora - que também me encaravam. - Apenas com sede.

₀₁ 𝐂𝐇𝐀𝐎𝐒. ! ༉ 𝘁𝗵𝗲 𝘄𝗮𝗹𝗸𝗶𝗻𝗴 𝗱𝗲𝗮𝗱 ⎷Onde histórias criam vida. Descubra agora