A vila bruxa de Colline de Fer na França era pequena e tranquila, com casinhas simples da Era Vitoriana perfeitamente alinhadas e uma paisagem verde deslumbrante de tirar o fôlego. As ruazinhas de ladrilhos estavam sempre ocupadas por pequenos bruxinhos eufóricos e bruxos e bruxas trabalhando e passeando sob o sol aconchegante e sua brisa constante. Era doce, simples e nada ali se comparava com qualquer outro lugar do mundo.
E foi exatamente por esses motivos que James e Regulus Black-Potter escolheram Colline de Fer como seu novo lar após o fim da guerra.
Por mais que Voldemort tivesse sido derrotado e seus Comensais da Morte detidos, as coisas não eram mais as mesmas e por, bem, suas situações como ex-membro da ordem e ex-comensal da morte, o casal recém-casado resolveu largar tudo para trás e ir embora juntos para um lugar onde pudessem se reconstruir um ao lado do outro.
Colline de Fer era perfeita para isso, longe o bastante para que o passado não pudesse alcançá-los.
Eles se acostumaram facilmente com o ambiente, os vizinhos eram gentis e uma pequena casinha branca no fim de uma rua sem saída não poderia ser mais aconchegante. Sua rotina era pacífica, seus corações e mentes traumatizados ainda em cura após a guerra. Eles foram com calma, aos poucos deixando um pedaço de si mesmo em cada canto da casa, com fotos, pinturas, livros, pôsteres e tudo que representasse uma parte da alma de cada um.
Aquela casa havia se transformado em seu porto seguro. Aquele era seu lugar, seu lar. Bem onde eles deviam estar, um ao lado do outro.
Mas eles não poderiam negar, o pequeno bosque que residia atrás do quintal dos fundos era o seu lugar favorito de todos. Com árvores que pareciam ainda mais belíssimas durante o outono e grama fofa sob seus pés, o bosque encantou o casal e Regulus e James passaram a arrumar qualquer tipo de motivo para fazerem uma caminhada de mãos dadas entre as árvores.
Após algumas semanas da mudança, em uma madrugada onde o céu estava limpo de nuvens e a lua brilhante em toda sua glória, Regulus acordou ofegante e com os olhos embaçados por lágrimas por causa de, outra vez, um pesadelo.
Gritos e sangue, uma marca grotesca e a maldição cruciatus.
Quase inconscientemente, a mão de Regulus voou para seu braço, coçando e arranhando a pele que estava marcada por baixo do tecido fino do pijama. Ele lutou contra seus pulmões congestionados, aquela ilusão de água ainda o impedindo de respirar.
Não chore
Não chore
Não chore
Era tarde demais, as lágrimas já rolavam soltas por seu rosto vermelho e amassado pelo sono, e ele agradeceu a todos os deuses existentes pela morte de Walburga Black. Ele sabe que estaria fazendo muito mais do apenas chorando se sua mãe ainda estivesse simplesmente respirando no mesmo mundo que ele. Esse era o peso da criação daquela mulher.
Regulus desviou o olhar choroso para o outro lado da cama, onde James já se remexia, acordando por conta da movimentação do Regulus.
— Jamie? Jamie? - Regulus chamou baixinho, agarrando o ombro de James para despertar seu marido da nuvem de sono.
— Reggie? O que houve, querido? - Como se tivesse levado um choque, os olhos de James clarearam e num instante ele estava perfeitamente alerta, se aproximando e abraçando o corpo trêmulo de Regulus quando encontrou olhos cristalinos molhados por lágrimas.
— Eu apenas tive um pesadelo, está tudo bem. Eu só queria que você me abraçasse, vai ficar tudo bem - Sua respiração ainda estava desregulada, mas seu corpo rapidamente relaxou contra James.
— Tudo bem, eu estou aqui - James apertou seu corpo ainda mais contra o dele, permitindo que Regulus sentisse que não estava frio, que foi apenas um pesadelo e que ele estava seguro. Que James estava aqui e não iria a lugar nenhum — Quer se deitar?
— Não, não. Apenas... apenas me segure - Regulus murmurou encostando a cabeça no ombro de James.
Com os braços de James abraçando seu corpo fortemente, os olhos de Regulus caíram sobre a janela. Quando James seguiu o olhar de seu marido, ele o encontrou olhando fixamente para a lua que brilhava lá fora.
— Você quer ir lá fora?
— Quero.
☾
Suas mãos estão firmemente entrelaçadas quando ambos os amantes caminham lado a lado pelo bosque. Os olhos de James não deixam as feições de Regulus nem por um segundo, hipnotizado pela forma como o topo das árvores impede parcialmente que a luz do luar chegue à pele pálida de seu marido, o iluminando apenas com a prata que escapa entre as folhas amareladas e secas. Regulus parece estar absorto em pensamentos, franzindo o cenho e apertando a mão de James na sua de vez em quando, pegando o olhar dele no seu, a tempestade castanha contra o mar azul, como se quisesse ter certeza que James ainda estava lá.
Eles não sabem por quanto tempo andaram em silêncio, apenas sentindo a brisa da noite e o calor que seus corpos irradiavam. Em algum momento, Regulus subitamente parou, olhando fixamente para frente, e James avistou o que ele olhava, com tanta admiração observando nada mais do que uma clareira. Eles não tinham encontrado esse ponto do bosque ainda, e vendo o brilho no olhar antes nublado de Regulus, James pensou que talvez aquele fosse o momento perfeito para encontrar aquele lugar.
Regulus puxou James em direção ao centro da clareira, parando novamente quando chegaram e o ambiente se abriu diante deles. Regulus suspirou e James soltou sua mão quando o homem mais novo se agachou para sentar na grama. Ele se sentou de costas para James, suas longas pernas cruzadas e a cabeça baixa. James sabia o que ele queria, mesmo sem palavras, eles vinham fazendo isso a um tempo.
Regulus ouviu os passos de James se afastando, em sua mente, ele poderia até mesmo visualizar a imagem do converse vermelho de seu marido afundando contra a grama verde. Quando uma brisa passou por ele e seus cachos caíram sobre seu rosto, Regulus sentiu algo no topo de sua cabeça, como um carinho desajeitado.
Quando se virou para trás, um cervo de grandes galhadas olhava para ele com olhos castanhos que brilhavam como faróis na escuridão. Ele deixou o cervo enfiar o focinho em seus cabelos, inalando seu cheiro. E quando ele se sentiu relaxado o suficiente, uma raposa tomou o seu lugar.
Sob a luz do luar, o cervo protegeu a forma encolhida da raposa, acariciando seu pelo ruivo quando o outro animal se aconchegou na grama, fungando levemente.
Eram momentos assim em que Regulus tinha certeza de que eles estavam longe de tudo.
Momentos protegidos por algo impossível de ser descrito, um sentimento que os leva para longe dos problemas do passado, longe de qualquer coisa que possa machucá-los.
Momentos singulares entre dois amantes em processo de cura.
A raposa abriu os olhos novamente e encarou o cervo que estava inclinado sobre si. O cervo bufou uma respiração, inclinando a cabeça para o lado e colocando a língua para fora. De forma muito fora do comum para um animal, a raposa revirou os olhos, observando o cervo deitar ao seu lado na grama e apoiar a cabeça perto dele, cuidando para não o machucar com seus chifres.
A raposa hesitou, admirando os grandes olhos do cervo antes de se inclinar para perto dele e deixar uma pequena lambida quase que imperceptível em seu focinho.
Eles ficariam bem.
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Red Thread - one shot book
Fanfiction☆ the deer sniffed the lilies and was distracted by the stars Respostando todas as minhas one-shots jegulus em um único livro. Eu não tenho palavras para descrever o amor que eu sinto pelos starchaser então espero que vocês possam sentir esse amor a...
