me espera

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Eu ainda estou aqui
Perdido em mil versões irreais de mim
Estou aqui por trás de todo o caos
Em que a vida se fez

James empurrou a tranca e abriu a janela, o ar limpo entrando e arejando o quarto fechado. Ele pode ouvir a respiração nervosa de Regulus atrás de si, enchendo o quarto silencioso. O bolo se tranca ainda mais na garganta de James. 

Ele fechou os olhos por um momento e respirou fundo antes de se virar para o homem mais jovem. 

—  Obrigado por me deixar ficar. Eu vou arrumar outro lugar pra ficar logo, não vou te incomodar por muito tempo, eu prometo — Regulus disparou, tão rápido que James mal entendeu suas palavras, tendo que parar por um momento para capturá-las. 

—  Você pode ficar o tempo que quiser, Regulus. Não se preocupe — ele tentou falar o mais calmamente possível, se aproximando quando Reg encolheu os ombros e desviou o olhar, parecendo tão frágil — Você está seguro aqui, nós pegamos você. 

Tenta me reconhecer no temporal
Me espera
Tenta não se acostumar eu volto já
Me espera

Ter Regulus por perto novamente era desconcertante. 

Esquecer o primeiro amor era difícil.

Esquecer o amor da sua vida era impossível. 

Cada esforço, cada lágrima, cada noite mal dormida, tudo, tudo foi por água abaixo no momento em que ele apareceu na sua porta naquela noite sombria. Ensanguentado e em prantos, Regulus caiu quase sem vida em seus braços, e James soube que ele nunca mais se permitiria deixar aquele homem, aquele menino, ir embora novamente. Ele nunca se perdoaria se deixasse isso acontecer.

Mas isso não significava que James não tinha vontade de simplesmente sair correndo sempre que Regulus entrava no cômodo, sentindo-se hipnotizado e inegávelmente apaixonado pela mera presença do homem mais jovem, com seus lindos cachos de ébano e seus lindos olhos, uma mistura de azul, cinza e prata.

Ele estava voltando ao seu brilho, aos poucos, mas estava. Era claro pela forma como ele já não se retraía mais sempre que Sirius estava por perto, ou como ele não fugia mais para o quarto, nervoso e assustado sempre que Remus tentava falar com ele sobre algum livro renascentista. Algo sobre Romeu e Julieta se James não se enganar.

Era magnífico ver seu menino estrelado conversar animadamente com Remus sobre A Divina Comédia e lentamente, fazer as pazes com seu tão amado irmão mais velho. 

Eu que tanto me perdi
Em sãs desilusões ideais de mim

A relação entre James e Regulus é um tanto quanto diferente.

 Foi decidido mutuamente, mesmo que em silêncio, que Regulus ficaria morando com James.

Potter não sabe exatamente porque tomou essa decisão, talvez fosse os olhares ansiosos e esperançosos que Regulus lhe dava sem hesitação quando foi feito o levantamento de onde o mais jovem dos Black residiria. 

Eles haviam criado uma rotina juntos, isso James não poderia negar. Agora, Regulus se movia pela casa como se vivesse ali desde sempre, como se aquele lugar lhe pertencesse muito antes dele sequer colocar seus pés ali. Ele explora a casa, mexe nos armários, tira tudo do lugar apenas para colocar de volta e rumar para outro canto onde tenha algo que possa chamar sua atenção. 

Não me esqueci de quem eu sou
E o quanto devo a você

Sempre há dois lugares onde James pode encontrá-lo: sentado no balcão da cozinha com um livro e uma xícara de café em mãos, ou no sótão, enfiado entre caixas onde James guarda a maior parte de suas lembranças da infância e adolescência. 

James perdeu as contas de quantas vezes encontrou Regulus olhando fixamente um álbum de fotos antigo, ou simplesmente agarrado a alguma camiseta velha de James que estava perdida dentro daquelas milhares de caixas. Assistir Regulus por aí, de shorts e vestindo camisetas gastas do Potter já não era mais nenhuma surpresa de se ver pela casa. 

James gosta de pensar que Regulus sente tanta falta quanto ele. 

Tenta me reconhecer no temporal
Me espera
Tenta não se acostumar eu volto já
Me espera

Eles tem momentos que James define como "alumbramento"

Há dias em que Regulus o encara, por segundos, por minutos, por quanto tempo ele quiser. Simplesmente olhando no fundo de seus olhos ou memorizando cada detalhe de James naquele dia. James devolve o olhar, não hesitando, e eles ficam ali, se olhando, sentimentos tão profundos quanto suas almas brilhando em suas íris. 

Também há dias em que Regulus toca. Ele se senta colado a James no sofá, deita a cabeça em seu ombro e fica, sua respiração calma e uniforme quando James o toca de volta, enrolando os dedos em seus cachos e acariciando seu couro cabeludo. 

O som de seu coração acelerado reverbera contra James no silêncio reconfortante. 

Mesmo quando eu descuido (me desloco)
Me desmando (perco o foco)
Perco o chão (e perco o ar)
Me reconheço em teu olhar (que é o fio pra me guiar)
De volta, de volta

Acontece em uma noite chuvosa e fria de novembro, meses após seu garoto estrelado voltar para James. 

James já está praticamente dormindo quando batidas na porta são ouvidas, e ele não precisa abrir a porta para saber quem é. 

Após alguns segundos, Regulus abre a porta, a madeira rangendo quando Black entra no quarto e fecha a porta atrás de si. 

Tenta me reconhecer no temporal
Me espera
No temporal
Me espera

A cama afundando sob o peso de seu garoto estrelado no meio da madrugada já é algo normal, essencial para James conseguir ter uma boa noite de sono. Ele abre os olhos no breu do cômodo e observa a forma elegante de Regulus, puxando as cobertas para acomodá-lo junto de si. 

Regulus respira fundo e afunda contra o aperto de James. 

Tenta não se acostumar
Eu volto já
Me espera

É tão macio, tão perfeito, tão significante

As borboletas no estômago

Pele contra pele

Olhos fechados

Coração em êxtase

E o encaixe perfeito de seus lábios.

Eu ainda estou aqui

Red Thread - one shot bookOnde histórias criam vida. Descubra agora