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Na aurora seguinte, demolimos os cavaletes que sustentavam a pesada corrente de ferro sobre o rio. A longa corrente afundou instantaneamente, enquanto nossa frota remava rio acima. O tempo estava sereno, e a chuva da noite havia dado uma trégua. Apesar disso, estávamos encharcados e irritados. Nastya estava assentada na amurada do navio, envolta por uma espessa pele de urso, um presente de um dos meus homens que nutria segundas intenções com a mestiça. Ela cuidara dos feridos na batalha do forte do rio, e até mesmo aqueles que pareciam destinados à morte começavam a se recuperar. Pouco a pouco, os homens se afeiçoavam aos cuidados oferecidos pela mestiça, e já havia muitos pedidos de casamento, alguns feitos seriamente, outros em tom de brincadeira. Suas canções nos inundavam de alegria, aquecendo-nos para enfrentar a constante chuva. Tive que ordenar que amarrassem um homem ao mastro e que Knut usasse o açoite por tentar beijá-la à força. Ela pediu para eu não castigá-lo, mas a disciplina a bordo de um navio deve ser mantida. Então ordenei vinte chicotadas.

— Karl! — gritei.

Ele atravessou o navio e dirigiu-se ao leme.

— Senhora? — respondeu.

— Prefere recrutar ou vender os prisioneiros? — inquiri.

Ele ponderou por alguns segundos.

— Vendê-los, senhora! — respondeu.

— Knut! — gritei — Quero os prisioneiros alinhados à minha frente.

Em pouco tempo, os homens estavam ajoelhados diante do leme.

— Os prisioneiros, minha senhora! — anunciou Knut.

Nastya os havia alimentado e fornecido bebida. Eram homens comuns, de cabelos negros e pele mais morena que a nossa, embora não tão escura quanto a dos Indras. Os Rurguêses usavam cabelos curtos e aparados, e poucos ostentavam barba. Diferentemente dos homens de Ultramar, que haviam se acostumado à vida nos navios e tomavam poucos banhos. Para quem sempre viveu em um navio, onde a água era suficiente apenas para beber, o hábito de banhar-se não era facilmente adquirido.

— Quem fala por vocês? — perguntou Karl.

Eles permaneceram em silêncio, e um homem mais velho se arrastou para a frente.

— Eu sou Sor Bel Santin, sou o único Cavaleiro aqui e eu falo por esses homens. — declarou ele.

O homem tinha o rosto largo, cabelos brancos e uma testa alta, quase careca. Seus olhos eram castanhos e sérios, e ele exibia uma ferida recente e tratada na testa.

— Você é um nobre? — inquiri.

— Não sou um nobre, mas sou cavaleiro de família abastada... Sou o capitão da Torre da Guarda de Rutemburgo, ungido por mossa majestade o rei Fideltorix, e minha família, a Casa Santin de Relo Verde, pagará resgate por mim — disse ele.

— Você é o chefe da sua Casa? — perguntei

— Sim! — respondeu ele.

— Relo Verde, é um castelo? — Perguntei e ele respondeu que sim

— Então... Se é o chefe, quem está no comando do castelo da família agora que é um prisioneiro? — perguntei.

— Meu irmão mais novo... — disse ele — Ficou encarregado do meu castelo, até que eu retorne... — e deixou as palavras morrerem.

— Ele vai pagar pelo seu resgate, e de todos esses homens? — perguntei.

O homem engoliu em seco.

— A casa Santin não é uma casa tão rica assim... — disse relutantemente — Tivemos anos difíceis, pagarei pelo resgate de três desses homens, e cada um tem a própria família para pagar seu resgate.

Canções de Ultramar, Livro 1Onde histórias criam vida. Descubra agora