a outra namorada

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Todas as malditas evidências apontavam para uma direção, só não conseguíamos enxergar qual deveríamos seguir. Um túnel escuro cheio de passagens, onde vez ou outra, a luz solar fazia presença, mas quando nos aproximávamos, ela se apagava.

Quanto mais Murphy falava, mais minha mente divagava. Primeiro me envolvi com uma comunista parte de um grupo de guerrilheiros, depois passei a frequentar o puteiro com mais frequência nos dois anos que seguiram após a partida planejada de Elisa, e agora estava com a corda no pescoço novamente.

— Eles não puderam provar nada na época, mas agora os pontos estão se encaixando.

O fato era que mesmo distante de tudo, Escobar ainda deixava suas marcas pelo país. Não era segredo para ninguém que Cali mantinha seu próprio cartel, dominando algumas cidades dos EUA, principalmente, contudo, os irmãos Rodriguez eram discretos, se vendiam como empresários bem sucedidos e todo o dinheiro era bem lavado, diferente de Escobar.

Uma pequena empresa de táxis com dois carros que magicamente movimentava milhares de dólares por semana. Isso mesmo, por semana. O filho de uma puta tinha tanto dinheiro, que passou a correr um boato que ele simplesmente enterrava malotes em propriedades ao redor de Medellín, e anos mais tarde descobrimos que não eram apenas boatos. Mais um ponto para Noonan.

— Se vamos fazer isso, eu preciso saber de todos os detalhes, Javi — ele continuou ao pegar seu bloco de notas e caneta.

Por onde começar? Era tanta merda acontecendo que eu precisaria de pelo menos duas horas para segredar tudo. O pior é que foi exatamente o que aconteceu, passei duas horas e meia falando sobre meu relacionamento conturbado com Louise Noonan, nosso acordo sigiloso, às informações valiosas que ela me entregava em primeira mão, e por último, mas não menos importante, falei sobre a investigação que o coronel havia promovido.

Ele escutou as minhas palavras atentamente, não questionou em nenhum ponto, como o bom ouvinte que era. Murphy passou a mão pelos cabelos dourados, os jogando para trás.

— O que temos até agora? — ele encarou sua lista de anotações — Chegada repentina, o interesse quase obsessivo por você, a invasão do apartamento, La Quica... Não faz muito sentido, Javi.

— Eu sei que não — retruquei num tom cansado, meu expediente mal começara e eu já queria ir para casa —- Isso que me incomoda tanto.

— Não — então ele repousou a caneta sobre a mesa de centro, parecendo pensativo — Ela é filha da embaixadora, certo? Tem tudo para ser o orgulho da mãe, então alguém como você é totalmente dispensável. O que quero dizer é que você nunca foi necessário para ela.

O aroma da cerveja subiu até o meu nariz, a garrafa condensava, deixando pequenas gotas de água escorrerem por seus lados, causando um breve arrepio pelo contato. Claro que não deveria estar bebendo as duas da tarde dentro do departamento, mas estávamos em um ponto que ninguém se importava muito contanto que o trabalho fosse feito.

— Não sei o que ela quer com você, mas definitivamente não é a sua ajuda — ele concluiu — mas em compensação ela nos deu muita coisa valiosa, é uma pena que precise ser descartada dessa forma, e...

Mas cada palavra sua foi roubada quando a figura esguia de Louise fez presença. Meu olhar vagou por cada movimento dela, o jeito despreocupado com que colocara seu casaco, que ajeitara a maldita franja, caminhando para a saída do local sem olhar para trás.

Eu senti meu coração bater um pouco mais rápido e apenas a acompanhei até que sua silhueta desaparecesse.

— Pode ir — Murphy indicou com um gesto.

ULTRAVIOLENCE | PEDRO PASCALOnde histórias criam vida. Descubra agora