Capítulo Dez

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Eleanor

Hoje é o dia do jogo e os hematomas amanhecem pior do que ontem.

Ontem, um dia depois que John me agrediu, eu consegui fazer uma maquiagem que disfarçou os hematomas em formato de dedos que estavam no meu rosto. Consegui fazer isso tão bem que Amy não notou nada de errado quando eu fui acorda-la e nem Mor percebeu quando lanchamos na faculdade. Hoje isso não será possível, já que as maracas estão bem mais aparentes.

Minha mãe durante todo o dia de ontem me evitou, ela sempre faz isso no dia após as agressões de John. Não sei se ela faz por culpa, porque não liga ou sei lá, ela simplesmente não sai do quarto quando estou por perto.

Hoje Elora Harper decidiu que era um bom dia para levar Amy até a escola, quem é de fora pensa que ela é só uma mãe que quer levar a filha de cinco anos para escola, mas eu sei que ela fez isso porque ontem de noite, quando veio pegar água e me encontrou na cozinha, viu como o hematoma em meu rosto estava em um tom profundo de roxo e o em meu braço um esverdeado arroxeado. Então para não levantar suspeitas do colégio ela resolveu levar Amy.

Agora falta meia hora para eu ir pegar o ônibus e estou sentada na mesa da cozinha tomando um café preto. Observo como as paredes estão descascando, a porta da geladeira que a cada dia que passa fica enferrujada, o piso lascado, vejo que tudo em casa é podre e velho, isso vai desde os móveis até as paredes e até quem habita esse lugar.

A porta da sala se abre com um rangido alto, faz anos que não se passa um óleo nas dobradiças, e Eleanor entra. Minha mãe é uma mulher linda, sua pele clara demais contrasta com os cabelos escuros e lisos, sua estatura esguia e baixa lhe dão uma aparência de mais jovem.

Ela me encara, e seus olhos azuis claros que antes me olhavam com carinho agora me olham com tristeza, acho que esse sentimento é o que mais predomina aqui em casa.

Minha relação com ela não era assim, nós nos amávamos, eu amava ficar com ela, ela era meu porto seguro, minha âncora, meu tudo. Até que um dia, depois de anos sendo somente eu e ela, Eleanor apareceu com um cara, Jonathan Sulivan, ela me disse que estava grávida e que ele viria morar conosco e que seríamos uma família.

No começo John não era ruim, ou pelo menos fazia o máximo para não mostrar seu lado verdadeiro, foi depois que Amy nasceu que tudo piorou. Ele começou a me olhar de maneira estranha, minha mãe começou a perceber e ela não gostava disso, ela dizia que ele a tinha, era só esperar o resguardo passar. John esperou e para suprir essas vontades ele começou a me agredir.

Era por não lavar a louça da janta, por chegar minutos atrasada, por o responder, por deixar Amy chorando, entre outras coisas. Minha mãe no começo me defendia, mas então ela percebeu que ele me batia para acabar com a vontade de fazer coisas piores comigo, o prazer dele em me ver apanhando era o suficiente, então ela começou a fechar os olhos para isso.

Hoje em dia eu sinto que ela se arrepende, se arrepende de não ter sido uma mãe para mim, de ter deixado quinze anos felizes que tivemos serem destruídos em cinco anos, destruição que nunca vai ser apagada da minha mente e nem da dela. Ela sabe que quando escolheu John ao invés da própria filha a nossa relação foi para o lixo e que por mais que eu saiba que ela se arrepende de tudo eu nunca vou vê-la ou querê-la que nem antes, é por isso que ela sempre me olha com esses olhos tristes.

— Eu levei Amy para o colégio. — Ela diz.

Sei que está tentando puxar assunto, ela sempre fala alguma coisa genérica com a intenção de eu engatar uma conversa com ela. Tem dias, quando a falta de amor materno é tão grande que sinto que vou explodir, que eu respondo e conversamos brevemente sobre coisas banais, mas esse dia não é hoje.

Amor nas Entrelinhas Histórias para pegar e não largar. Descubra agora