Capítulo 1

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Essas ruas vão fazer você se sentir completamente novo
As luzes vão inspirar você
Não há nada que você não possa fazer

Empire State Of The Mind - Alicia Keys

Nova York, Estados Unidos.
Três anos atrás...

Scarlett LeBlanc

- Cadê a sua elegância, Scarlett?

Devo ter esquecido no útero da minha mãe.

Foi isso que quis responder a Priscila, mas não disse. Apenas forcei um sorriso que deduzi ser elegante e continuei a deslizar.

O som metálico das lâminas cortando o gelo é a única coisa que posso ouvir enquanto deslizo pelo Wollman Rink. E, claro, Priscila gritando a plenos pulmões. Gosto de pensar que há algo no gelo que sempre me faz sentir viva. Não é só o frio que sobe pelas minhas pernas quando deslizo ou o vento brincando com meus cabelos, é a sensação de pertencer àquele lugar, sinto que o gelo e eu falamos a mesma língua. Porque, aqui, tudo que importa são as lâminas sob os meus pés e o som do meu coração batendo no mesmo ritmo dos meus movimentos.

Enquanto estou sobre o gelo, sempre encontro meu lar.

Giro, deixando meus braços se abrirem contra o vento, me achando quase um pássaro que pudesse voar. O vestido branco de treino flutua ao meu redor, ajudando nos meus movimentos. Me sinto invencível. Uma daquelas protagonista de história novaiorquino. O Central Park, com suas árvores escuras e luzes distantes, é só um borrão. Meu mundo termina na borda do rinque.

- Postura, Scarlett - disse assim que passo próxima a ela.

Priscila está encostada na grade do rinque, observando-me com atenção. Alta, com cabelos presos em um coque impecável e um cachecol vermelho contrastando com a pele escura, a professora é tudo que eu aspiração ser. Graciosa, firme e inabalável. Às vezes, quando minha autoestima está boa, posso dizer que sou tudo isso - até um pouco mais. Mas hoje, não é um desses dias.

Diminuo a velocidade, ajusto os ombros e elevo o queixo, do jeito que ela sempre me ensinou. A cada deslizar, repito em silêncio o que Priscila diz desde o meu primeiro dia no gelo: "Elegância é força disfarçada." E eu acredito.

Deslizo em linha reta, aumentando a velocidade. Sinto meu coração disparar com a adrenalina. O salto duplo vem instintivo, um giro perfeito que me joga no alto. Segundos depois, meus pés voltam a tocar o chão, e saio deslizando com um sorriso no rosto. Não importa quantas vezes Priscila diga: "Não comemore em frente aos jurados." Eu sempre ignoro, e sempre saio com um sorriso idiota no rosto.

- Excelente! - exclama, com uma pontada de orgulho na voz.

Sorri de canto, mordendo o lábio inferior.

- Mas não se empolgue demais. Elegância é sobre controle, não sobre velocidade - corrige, cruzando os braços.

Em silêncio, balanço a cabeça em concordância. Posso dizer que Priscila tem algum fetiche com a palavra "elegância".

"É preciso força para deslizar sem cair ", penso, ajustando minha postura. Em seguida, começo outro movimento, desta vez mais suave. Meus braços acompanham o ritmo da minha respiração, e o silêncio me invade, o silêncio que eu tanto aprendi a amar na patinação. Não vou mentir, precisou de tempo para amar esse silêncio. Mas é ele que torna o rinque um mundo à parte, onde ninguém pode me alcançar.

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