Capítulo 7

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As pessoas dizem que o mundo mudou
Mas, felizmente, entre eu e você nada mudou ainda.

Life Goes On - BTS

Nabi Park

A chuva fina caía lá fora, transformando a janela em um vidro embaçado. Sentada à mesa de estudos, segurava com firmeza um livro sobre a história da Coreia, mas meus olhos não se fixaram nas palavras. Deslizei os dedos sobre a borda, enquanto observava as gotas de chuva se cruzando calmamente umas nas outras, até desaparecerem na moldura. Era uma chuva tranquila, sem muito barulho, e por uma fração de segundos, tentei me enganar, pensando que era apenas sobre a chuva que eu refletia. Mas não era, nunca é. Era sobre a constância. Eu não acho que há nada de errado em seguir em linha reta, sem tempestades. A vida não precisa ser uma coleção de momentos intensos e incontroláveis.

“Alguém trará o caos.” A frase parecia simples, quase banal, mas não saia da minha cabeça. O biscoito da sorte que meu avô me entregou com um sorriso misterioso no rosto, minutos antes de eu embarcar para Oxford, agora ecoava em minha mente. Cresci disputando esses biscoitos com meus primos, quebrando-os como se a mensagem fosse um segredo valioso. Sempre dei certa importância a essas palavras, mas naquele dia, algo neles me incomodou. Eu não acredito que o caos fosse chegar até mim, que de uma hora pra outra minha vida que sempre foi uma linha reta, se tornasse uma montanha russa, um caos.

Eu não acredito, ou tlvez não queria acreditar.

Soltando um longo suspiro, asfalto os pensamentos, retomando o controle. Me virei na cadeira, permitindo que meus olhos repousasse em Scarlett. Ela estava deitada na cama, quase engolida pelos lençóis, como se eles pudessem a proteger da tempestade que se formou dentro de si mesma, percebo seu olhar preso em um ponto qualquer da parede. Não havia nada ali, mas para ela parecia haver. Scarlett tinha esse dom: enxergar o que ninguém mais via, viver em um ritmo que ninguém mais conseguia acompanhar. Ela era um furacão, imprevisível, intenso. Agora, porém, estava ali, quieta, como se tivesse perdido o rumo dentro de si mesma.

E só uma pessoa era capaz de fazer isso.

— Está tudo bem? — Sabia que não estava tudo bem. A pergunta era mais pra soar como um consolo do que uma curiosidade.

Scarlett levou um tempo para responder.

Desde que chegou ensopada na madrugada passada, ela não falava sobre o que aconteceu. Eu podia supor o óbvio, mas ainda assim, não era o mesmo que ouvir dela.

— Eu vou está aqui quando quiser falar, Scar.

Ela ergueu o olhar para mim, os olhos marejados, mas sem lágimas derramadas. Sua voz saiu como um fio de som, quase engolida.

— Ele está aqui.

Assinto suavemente, observando-a de forma cautelosa.

— Ele está. — Minha afirmação veio como uma pedra caindo no fundo de um lago. Não havia como suavizar aquilo. Não era o que ela precisava ouvir, mas era a verdade.

Se tornou inevitável não pensar que nesse exato momento, Klaus está vagando por algum dormitório ou corredor dessa Universidade.

Rever Klaus, depois de tanto tempo, foi um choque. Não é como se eu não quisesse rever o meu amigo, ou melhor dizendo – melhor amigo. Mas o fato dele estar aqui, de alguma forma, era estranho. Tão estranhamente estranho quanto desconcertante.

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