Capítulo 23

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Selene

A luz suave da manhã se infiltra pelas frestas da tenda, mas não consigo ignorar os sons ininterruptos que invadem meus ouvidos. O ronco de Lyra, inconfundível, é como uma tempestade em meio ao silêncio. Sentei-me na beirada do catre, observando o quadro diante de mim com um misto de exasperação e um cansaço profundo que parecia consumir até a última gota da minha paciência.

Lyra está ali, completamente alheia ao mundo ao seu redor, sua cabeça descansando sobre o travesseiro improvisado, a respiração pesada e ritmada, cada ressoar vindo de sua garganta quase como se ela estivesse em um profundo estado de sono, um sono sem pesadelos. Eu, no entanto, não compartilho o mesmo luxo de descanso.

O frio surge no meu ventre, um peso gelado e invisível que parece se enroscar, apertando com força, como se algo escuro e profundo tivesse se instalado ali, torcendo e se expandindo. Sinto a pressão crescer, uma sensação de desconforto que vai além do físico. É como se meu próprio corpo estivesse se distorcendo, o peso da ansiedade preenchendo cada parte de mim, a bile sobe pela garganta, quente e ácida, ameaçando transbordar e deixar escapar o que há de mais repulsivo em mim. O gosto amargo preenche minha boca, e minha visão se estreita, embaçada pela náusea que cresce, me consumindo de dentro para fora.

Meus dedos se fecham involuntariamente em torno da adaga de lâmina fina. O aço é frio e firme, mas não me oferece o alívio que busco. É um reflexo, um impulso instintivo de me agarrar a algo, de tentar controlar o que não posso. Mas, mesmo com toda minha força, a pressão no meu peito só aumenta. Cada respiração se torna mais difícil, meu corpo lutando para encontrar oxigênio enquanto minha mente se afunda em uma espiral de pensamentos turvos. Não há clareza. Não há lógica. Tudo parece girar ao meu redor em um turbilhão de incertezas.

A escuridão que sinto não é apenas um peso físico. Ela se infiltra em minha mente, como uma névoa densa que obscurece tudo. Cada batida do meu coração soa distante, abafada, como se estivesse vindo de algum lugar fora de mim, como se meu corpo já não fosse mais meu. O ar se torna mais denso, a tensão uma presença opressiva que envolve tudo, a respiração fica entrecortada, forçando-me a respirar em pânico, tentando desesperadamente recuperar o controle, mas falhando. É como se algo lá fora estivesse esperando o momento certo para me consumir. Algo muito maior que eu.

Olho para Jack, tentando me agarrar à normalidade. Ele dorme tranquilo, alheio ao turbilhão dentro de mim. Seu corpo relaxado, respirando suavemente, parece tão distante da minha realidade. Ele é tão seguro, tão sereno. Como ele consegue ser tão imune ao que está acontecendo? Por que eu não consigo encontrar esse mesmo refúgio? Por que estou sendo engolida por esse vazio, esse medo crescente?. O ar dentro da tenda parece mais denso, a presença sombria crescendo em volta de nós, quase palpável, como se as sombras estivessem se materializando ao redor, esperando o momento certo para se lançar sobre mim.

Fecho os olhos por um momento, tentando me controlar, tentando reunir as forças necessárias para me afastar dessa sensação, mas é inútil. O desconforto só cresce, como uma onda implacável. A sensação de que algo terrível está prestes a acontecer se torna uma certeza. E no fundo da minha mente, uma pergunta começa a martelar, sem resposta, uma constante que não consigo apagar. O que está acontecendo comigo?

Quando abro os olhos, não sou mais recebida pelo conforto sombrio da tenda, mas pela vastidão de um campo desconhecido. O cheiro da terra úmida e o frescor do vento me envolvem, mas não há familiaridade. O chão sob mim é coberto por uma grama densa e selvagem, com flores que não consigo identificar, de cores vibrantes, como se estivessem tentando chamar a atenção para si mesmas. O céu acima é de um azul profundo, mas sem nuvens, sem vida. Apenas um vazio silencioso, como se todo o mundo ao meu redor tivesse sido retirado da realidade. Não posso entender o que aconteceu, ou como cheguei até aqui.

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