Capítulo 24

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Rosallind

  Às vezes, penso que a pior parte de carregar um segredo não é escondê-lo do mundo… mas escondê-lo de quem tem o mesmo sangue que você.

Caminho pelos corredores de pedra do castelo, o som ecoando como passos de outra pessoa, uma versão mais tranquila, mais controlada de mim mesma. A noite ainda pesa no ar. O salão de guerra agora está cheio de vozes, risos tensos e copos tilintando, mas nada disso me engana. Todos ali estão pendurados por fios invisíveis. Dois guardas inclinando a cabeça em respeito.
— Senhora Rosallind. - eles dizem, sincronizados. Apenas aceno, porque palavras são desperdício.

O salão está quente, iluminado pelas chamas das tochas e pelo vinho que Baldric já começou a beber como se sua vida dependesse disso. Homens de Marsolis, homens de Aldraskar, todos misturados, todos fingindo que não estão pensando nos próprios medos. Exatamente o que eu queria.

Meus olhos encontram meu pai primeiro.

Lucian De Noir tem o hábito irritante de parecer sempre calmo. Ele está sentado à mesa principal, coluna ereta, expressão de quem observa o tabuleiro inteiro enquanto todos os outros enxergam apenas suas peças. Ele é o líder  por uma razão. Ele ergue o olhar para mim quando me aproximo.
— Gostaria que não tivesse transformado uma reunião diplomática em uma taverna, Rosallind. - ele diz suavemente, mas há ameaça por trás da tranquilidade. — Há maneiras mais tradicionais de lidar com o medo alheio.

— Sim, pai. - sorrio como se fosse obediente. — Mas nenhuma delas funciona tão rápido quanto o álcool. - seus olhos se estreitam. Uma advertência silenciosa.

Vladimir se aproxima do nosso lado, suas sombras agitadas como serpentes inquietas atrás dele. Ele parece exausto, e mais irritado comigo do que com Baldric, o que sempre é divertido.

“Eles não sabem.” A voz de Vladimir invade minha mente, quase um sussurro. “Sobre o Orbe. Sobre você. Eles não fazem ideia.”

"Sim. E essa é a parte mais deliciosa."

Baldric Drakoni ergue-se, cambaleando levemente, mas com toda a dignidade de quem nasceu com uma coroa invisível sobre a cabeça.
— Lady Rosallind. - ele diz. — Seu vinho é forte... ou talvez seja sua hospitalidade que me surpreende.
— Prefiro acreditar que é o segundo. - respondo com elegância.

Ele ri, mas logo sua expressão volta ao conflito que o trouxe até aqui.
— Precisamos retomar o assunto do Orbe. - Baldric diz, agora olhando diretamente para meu pai, para Vladimir, para todos. — Se queremos enfrentar aquilo que assombra nossas fronteiras… a coisa sem rosto… precisamos recuperá-lo. Sem o artefato, estamos tateando no escuro.

Lucian respira fundo, e é como se o salão inteiro prendesse o ar com ele.
— E o que sugere, Lorde Drakoni? - meu pai pergunta. — Que unamos nossas forças sem nem sabermos quem está por trás do roubo?

Baldric abre a boca para responder… mas eu o interrompo.

— Senhores, por favor. - levanto uma das mãos, e até os soldados embriagados param. — A noite está avançada. Discussões acaloradas produzem apenas decisões ruins.

Meu pai me lança um olhar que poderia partir montanhas.

Baldric parece confuso.

Vladimir murmura mentalmente “Incrível. Você realmente enlouqueceu desta vez."

Ignoro ambos.

— Hoje, todos descansam. - ontinuo, sorrindo de forma que apenas quem me conhece muito bem veria o perigo ali. — Amanhã, falamos de artefatos roubados e criaturas sem rosto. Esta noite… - faço um gesto para os criados, que já trazem pães, carne e mais vinho — …seremos apenas pessoas tentando sobreviver ao que quer que esteja se aproximando.

E é verdade, afinal.

Inclusive para mim.

Porque a cada segundo, sinto o peso do Orbe, talvez tenha sido muito estupidez roubá-lo, mas já fiz, e preciso me manter sob nenhuma suspeita.


༄༄༄
Seraphina

— Eles… viriam atrás de mim tão rápido assim? - minha voz saiu falha, quase um sussurro.
Hank cruzou os braços, a sombra larga dele escurecendo metade do quarto. Seus olhos, apesar da dureza, carregavam uma compaixão discreta que contrastava com a rusticidade do rosto marcado pelo tempo.
— Os De Noir não costumam deixar pontas soltas. E você, garota… - ele estreitou os olhos, como se pudesse enxergar através de mim. — Virou uma ponta bem grande. Fugitiva...

Meu estômago afundou. Eu sabia disso desde o momento em que dei meia-volta naquela sala e tentei fugir. Sabia quando o ar sumiu dos meus pulmões, quando Rosallind ordenou que Lorian me levasse. Sabia desde o instante em que toquei no Orbe de Kharon.

Mas ouvir alguém mais admitir essa verdade tornava tudo muito mais real.

Consigo ouvir o vento lá fora arrastando galhos contra as paredes da taverna, o rangido velho da madeira, vozes distantes vindo do salão inferior. Sons comuns. Normais. Mas nada parece normal agora, seguro a tigela quente entre as mãos, embora já tenha parado de comer há alguns minutos, meu apetite morreu junto com a sensação de segurança. Hank continua me observando por alguns segundos antes de puxar uma cadeira de madeira e se sentar pesadamente nela.
— Você carrega o cheiro deles. ‐ ele murmura — Do castelo. Das sombras. - franzo a testa.
— Cheiro?
— Medo também tem cheiro, garota. - desvio o olhar.
A chama pequena da vela dança sobre a mesa, iluminando o rosto cansado do taverneiro. Pela primeira vez desde que cheguei ali, ele parece velho, como alguém que viu guerras demais.
— Lorian não confia em ninguém. Nem nele mesmo. - ele esfrega a barba ruiva antes de continuar — Mas ele sabe reconhecer quando algo ruim está chegando.
Meu peito aperta. Porque eu também sinto...

Desde o Orbe.
Desde o castelo.
Desde Vladimir.

O pensamento surge como um corte frio. As sombras dele, os olhos dele a forma como o ar parecia respirar junto dele, engulo em seco e dou um meio sorriso para Hank.
— O que será essa… coisa sem rosto? - pergunto finalmente. — Baldric falou sobre isso antes de eu fugir. E Rosallind… ela parecia preocupada. - Hank fica em silêncio. Então ele se levanta devagar e caminha até a pequena janela do quarto e afasta um pouco a cortina e observa a noite lá fora.
— Há histórias antigas em Kistanfer. - sua voz sai baixa. — Histórias que os sacerdotes queimaram junto dos livros. Coisas que deveriam permanecer enterradas. - um arrepio percorre minha nuca.
— Hank…
— Dizem que existem criaturas que não nascem. - ele continua, ignorando minha interrupção. — Elas surgem. Como feridas abertas no mundo, sem rosto, sem nome, sem alma. - meu estômago se revira.

Lembro das visões.
Da sensação horrível que o Orbe causava.
Da voz sussurrando meu nome.
Hank volta o olhar para mim.
— E dizem também, que sombras começaram a andar sozinhas perto da fronteira. - quarto parece menor de repente, mais escuro, meu coração acelera quando um som ecoa do andar de baixo. Passos.

Vários.
Hank percebe imediatamente, sua postura endurece na mesma hora.
— Fique quieta. - ele ordena em voz baixa e as vozes aumentam.
O tilintar pesado de espadas, meu sangue gela.

Então escuto uma frase abafada vindo lá de baixo.
— Estamos procurando uma garota.
Hank fecha os olhos por um breve instante.
Droga.
Eles me encontraram rápido demais.

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⏰ Última atualização: May 20 ⏰

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