53 - conversa

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                         Três dias depois

Faziam três dias desde que Natalie e Priscilla haviam terminado o namoro.

Desde aquele dia, Natalie mal saíra do quarto. Chegara em casa arrasada, aos prantos, e desde então evitava qualquer contato com o pai. Passava as horas trancada, envolta na penumbra, quase sem se alimentar. O quarto era seu refúgio e sua prisão. O silêncio, sua única companhia.

Sentia-se devastada, carregando não apenas a dor do término, mas também a revolta — uma indignação profunda contra o pai, que agora representava tudo aquilo que a impedia de viver seu amor.

Estava terminando de organizar a pequena mala para a viagem quando algo dentro da gaveta de sua escrivaninha chamou sua atenção: era o diário da mãe de sua ex-namorada. Sem pensar duas vezes, ela o pegou, sentou-se na cama e começou a ler.

Diário – on

Hoje faz exatamente seis meses que estou neste lugar. Não há um só dia em que eu não pense nela. Ela domina meus pensamentos. Sinto falta dos seus olhos verdes, tão expressivos, que eu tanto amava. Todos os dias me pego pensando se ela está bem, se ainda lembra de mim.

Me arrependo amargamente de não ter aceitado sua proposta de fugirmos juntas. Hoje, talvez estivéssemos felizes. Sinto falta da sua voz, das bobagens que dizia — piadas que só ela achava graça. Mas o que mais me falta são seus braços. Era ali, aninhada, que eu me sentia segura. Era seu carinho, seus beijos, seu toque... Ah, como me arrependo. Como dói não estar com ela agora.

Diário – off

Priscilla estava absorta na leitura, quando escutou alguém tentando abrir a porta. Assustada, fechou o diário rapidamente, levantou-se e foi até a porta. Ao abrir, deparou-se com Beatrice.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou com frieza.

— Eu vim só pra conversar. Sem brigas, sem alfinetadas, eu prometo — disse Beatrice, com a voz serena.

— Conversar? Conta outra! Aposto que veio tripudiar, já que finalmente conseguiu o que queria: me ver longe da Natalie. Parabéns!

— Você está enganada, Pri. Eu nunca quis isso.

— Ah, por favor! — rebateu, com desdém. — E não me chame assim. Eu não te dei intimidade. E só porque me ajudou aquele dia, não pense que alguma coisa mudou entre nós. Eu já te agradeci, não precisa mais bancar a boazinha.

— Ok... me desculpa.

— Você não está aqui só pra conversar. Nunca esteve do meu lado. Sempre torceu contra mim. Você e o papai são iguais.

— Isso não é verdade! — Beatrice insistiu. — Eu não concordo com o que seu pai está fazendo. Nunca quis seu mal, Priscilla. Ao contrário do que você pensa... eu sempre gostei de você.

— Você tem dez minutos. Depois disso, não quero mais papo.

— Tudo bem — disse Beatrice, observando a mala sobre a cama. — Vai levar a Nala com você?

— Claro. Eu ganhei da minha madrinha quando era pequena. Nunca me separei dela. Mesmo sem ter contato com ela, eu... sempre senti algo com esse urso. Como se ela estivesse perto.

— Quem disse que você não a conhece?

— Como assim? Nunca vi nem por foto.

— Você a conhece melhor do que imagina. — Beatrice deu um passo à frente. — Porque... sou eu. Eu sou sua madrinha.

— Quê?! — Priscilla arregalou os olhos. — Isso é impossível!

— Eu te dei esse urso na nossa última viagem à Disney. Você tinha três anos e era extremamente apegada a mim. Eu teria que ficar longe por um tempo... e sabia que isso te machucaria. Então te dei a Nala, que você amou desde o primeiro olhar.

— Eu? Apegada a você?! Nunca!

— Era, sim. Muito. Só se afastou depois... por culpa minha. E eu admito isso.

Priscilla cruzou os braços, ainda desconfiada.

— Quer saber como conheci sua mãe? E como virei sua madrinha?

Ela assentiu com relutância.

— Eu e sua mãe nos conhecemos quando tínhamos dez anos. Meus pais trabalhavam na empresa do seu avô. Meu pai era contador, e minha mãe, advogada. Ele confiava muito nos dois. Tínhamos uma vida confortável, mas meus pais sempre foram obcecados por dinheiro.

— Então eu era criada por babás. Eles viviam dizendo que trabalhavam pra me dar o melhor, mas tudo que eu queria era a presença deles.

Um dia, a babá adoeceu, e como eu não tinha aula, meus pais foram obrigados a me levar à empresa. Foi nesse dia que conheci sua mãe. Estudávamos no mesmo colégio, mas nunca tínhamos nos visto.

— Nos tornamos inseparáveis. Eu amava sua mãe. Era como minha alma gêmea, mas de uma forma fraterna. Minha vida mudou por causa dela.

— Quando tínhamos quinze anos, fomos abordadas por uma agente de modelos. Ela nos disse que éramos lindas, que devíamos ir à agência com nossos pais. Sua mãe não se interessou, mas me incentivou. Eu fui, comecei com trabalhos pequenos, e em pouco tempo minha carreira deslanchou.

Beatrice respirou fundo, lembrando.

— Aos dezessete, recebi uma proposta pra trabalhar fora do Brasil. Meus pais assinaram o contrato por mim, sem sequer me consultar. Fui obrigada a ir. Meu namorado da época, Pedro, não aceitou bem. Disse que se eu entrasse naquele avião, ele me esqueceria. E foi o que ele fez.

— Sinto muito — murmurou Priscilla, tocada.

— Já superei. Mas a dor foi imensa. Quando voltei, ele estava casado e com filhos. Mergulhei em uma espiral de trabalho, depressão, remédios... até que meus pais me internaram. Alegaram que eu estava louca, só pra controlar meu dinheiro.

— Meu Deus...

— Sua mãe foi quem me tirou daquela clínica. Ela me salvou. Me ajudou a buscar tratamento real. Foi minha luz. Fui madrinha do casamento dela com seu pai, e mais tarde... de você.

Beatrice fez uma pausa, emocionada.

— Eu dei o primeiro banho em você. Você não ia no colo de ninguém sem chorar, exceto no meu. Mas, aos três anos, precisei voltar ao trabalho. Quando voltei, você já não ligava pra mim. Só se apegava à Nala.

— Quando sua mãe engravidou do seu irmão, descobriu que estava com câncer. Lutou até o fim. E no leito de morte me fez prometer que cuidaria de vocês como se fossem meus. Eu prometi. E tentei.

— Eu falhei com você, Priscilla. Me perdoa.

— Está perdoada — disse Priscilla, com a voz trêmula. — Mas agora... preciso ir. Já deve estar na hora de ir pro aeroporto.

Beatrice assentiu. Depois hesitou e perguntou:

— Você ama a Natalie?

Priscilla desviou o olhar.

— Como nunca amei ninguém...

— Então não vá.

— Eu tenho que ir. Ele vai me afastar do meu irmão. E ele... ele é tudo pra mim.

— Não vai. Eu dei um jeito de seu pai não te levar. Lembra do sítio em São Paulo? Onde fomos depois que sua mãe morreu?

— Lembro, sim...

Beatrice tirou uma chave do bolso e a colocou sobre a cama.

— Aqui está a chave do meu carro. Está lá fora, com o GPS configurado para o sítio. Vá buscar sua namorada. Seu pai não conhece aquele lugar. E quanto ao seu irmão... eu juro que nunca vou permitir que ele te afaste dele. Vai, Pri. Vai ser feliz.

Beatrice saiu do quarto, deixando para trás a chave — e a esperança.





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