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MK
15 de Junho, 03:16
Dia da fuga.

O tempo parecia preso nas costelas, batendo contra os meus ossos, como se quisesse sair antes da hora. No silêncio da cela, cada segundo arranhava o juízo. O bilhete ainda estava escondido sob o colchão fino, mas as palavras dele queimavam na mente: "03h17. Você sabe o que fazer".

Levanto devagar. Nenhum guarda por perto. O sensor da minha cela ainda bugado, tudo no esquema.

03h17.

Click.

Um estalo seco. A tranca eletrônica piscou em vermelho, depois verde. A porta se abriu como um rangido baixo, como se até ela estivesse com medo do que fosse acontecer depois.

Saio no corredor com o coração a milhão, os pés pisando leve como gato no telhado. As câmeras do bloco B estavam sob interferência — cortesia da loira. Meu caminho era até a ala de manutenção, onde Neguinho e BH já deviam estar a espreita.

Eles aparecem na penumbra, mascarados com capuzes improvisados.

BH: Chegou a hora irmão! – Bateu nas minhas costas, depois apenas passando de leve como se me confortasse.

Neguinho: Avisa que é hoje papai. Vou ver minha mulher caralho. – bateu palmas esfregando logo depois e seguindo em frente.

Seguimos ele pelos corredores internos, desviando das rotas comuns, até alcançar a porta dos fundos. BH encosta um dispositivo no painel. Um bip sutil, a porta se abre.

O inferno se liberta.

Em minutos, explosões pequenas começam em setores opostos da prisão — distrações que o Eric armou com os comparsas infiltrados. Sirenes disparam, guardas correm sem saber onde é o problema.

Eric e Ana Luísa do lado de fora, digitam comandos em tempo real no celular. O sistema trava por 90 segundos, tempo suficiente pra gente desaparecer.

Chegamos a saída do túnel de manutenção, sujos, ofegantes, mas inteiros. Do outro lado da grade enferrujada, um cadeado já cortado. Ela pensou em tudo. Tudo.

Ao sair, vejo a silhueta dela ao longe, na beira da estrada deserta. A van cinza estacionada com as luzes apagadas. Ela segura a bolsa contra o peito, o cabelo ruivo preso num coque apressado.

Quando nossos olhos se cruzam, o mundo para.

BH: Corre, porra! – grita atrás de mim.

Mas eu só conseguia andar. Cada passo em direção a ela é um reencontro com a liberdade. Com o que é meu. Com a mulher que virou o sistema de cabeça pra baixo por mim.

Chego perto. Ela sorri, quase chora.

Ana: Kaue... – Eu a seguro pela cintura, trago pro meu peito e sussurro:

MK: Agora tu é minha fuga.

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Ana Luísa

Assim que a porta da van fecha atrás do MK, arranco a peruca ruiva, jogo no banco de trás e deslizo a van estrada a fora, apagando os faróis por alguns metros. Não dá pra deixar rastro.

Eric, no banco do carona, mexe frenético no rádio comunicador, ouvindo canais da polícia.

Eric: Já começaram a perceber. Tão achando que é rebelião armada, por enquanto. – Suspiro deixando um pouco da tensão se esvair. Kaue no banco de trás, respira pesado, suado, com a camiseta colada ao corpo. Ele olha pra mim pelo retrovisor e murmura:

MK: Tu veio mermo.

Ana: Falei que vinha. – digo sem desviar os olhos da estrada. Mas por dentro, minha mão treme sob o volante.

Neguinho e BH, amontoados nos fundos da van, trocam olhares de tensão.

Neguinho: A gente vai direto pro QG ou troca de carro antes? – limpa o rosto com a manga do moletom.

Eric: Troca. O Corolla prata tá estacionado na estrada da Pedreira. Sem placa, abastecido.

MK se inclina para frente, a voz mais firme agora:

MK: E depois? A gente desaparece?

Ana: Ta louco? Tu tem um morro pra administrar. Vamos deixar a poeira baixar... Temos um problema. – minha respiração pesada é o único barulho por dentro do veículo. – Alguém mexeu no servidor depois de mim. Alguém viu o código a ser implantado.

Silêncio.

O motor da van ronrona, mas o ar dentro dela tá mais denso que o túnel da penitenciária.

MK: Tu tá me falando que tem alguém de olho? Que alguém sabe? – Ele encosta as mãos na lateral da van irritado. Minha pressão sob com raiva, não era possível que ele ainda estava reclamando depois de tudo o que eu fiz.

Ana: Tô dizendo que alguém desconfiou.

Ele fecha os olhos por um segundo. A tensão no maxilar dele é visível até no escuro.

MK: E tu? Vai comigo até o fim? – respiro fundo.

Ana: Até o fim. Ou até a gente virar pó.

Paro a van no meio do mato. A troca é rápida. Em dois minutos, todos estamos dentro do carro preto. Eric no motorista, eu no passageiro e os três atrás. Kaue com um boné e óculos escuros, e os outros dois vestiam roupas novas. As antigas jogaram em buraco que o Eric cavou algumas horas antes.

Enquanto a terra cobre as roupas da fuga, o rádio toca.

"Unidade Alfa, confirmada a fuga de três detentos  da ala B. Há indícios de invasão de sistema. Três mulheres com crachás falsos foram identificadas saindo horas antes da ação."

Fecho os olhos. MK passa a mão pelo rosto, em silêncio. Ninguém diz nada por segundos.

Ana: Já estão atrás de mim. – sussurro.

MK: De nós. – ele responde.

Eric arranca com o carro. O motor grita pela estrada irregular. A chuva começa fina, como um prenúncio. Olho pela janela e, em pensamento repito.

Por tu, sou tempestade.

Loucura de Amor [MORRO]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora