Capítulo 53

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SOU ACORDADA PELO meu celular. Já é manhã, mas cedo demais, a julgar pela luz fraca que invade o quarto pelas frestas das persianas. Kara está enroscada em mim quando me estico para pegar o telefone. É a Sra. Beckstrom, minha vizinha de Londres.
Por que diabos ela está me ligando?
— Oi, Sra. Beckstrom. Tudo bem? — Falo baixo para não acordar Kara.
— Ah, Lena. Que bom que consegui falar com você. Desculpe estar ligando tão cedo, mas acho que seu apartamento foi assaltado.

— O quê?
Um calafrio percorre meu corpo, e todos os meus pelos se arrepiam. De
repente, estou totalmente desperta. Passo as mãos pelo meus cabelos.
Furtado? Como? Quando?
Minha mente e meu coração estão a mil.

— Sim. Eu estava passeando com Hércules de manhã. Adoro caminhar
cedo à margem do rio, não importa que tempo faça. É tão tranquilo e
relaxante...
Reviro os olhos. Vamos logo com isso, Sra. B.
— Sua porta estava aberta. Talvez já estivesse assim há alguns dias. Não
sei. Mas achei estranho. Então hoje dei uma olhada lá dentro e é claro que
você não estava.
Será que esqueci de trancar o apartamento no pânico de sair e
procurar Kara?
Não lembro.
— Infelizmente, o lugar está uma bagunça horrorosa.
Cacete.
— Eu ia ligar para a polícia, mas achei melhor falar com você, querida.
— Bom. Obrigada. Agradeço. Vou cuidar disso.
— Desculpe por trazer más notícias.
— Tudo bem, Sra. B. Obrigada.
Desligo.
Merda! Cacete! Porra!
O que os desgraçados roubaram? Não tenho muita coisa... Tudo que é
importante está no cofre. Espero que não tenham encontrado.
Droga. Droga. Droga.
Que saco. Talvez eu devesse voltar a Londres, mas não quero. Estou me
divertindo muito com Kara. Sento na cama e olho para ela. Está piscando
para mim, sonolenta, e lhe dou um sorriso tranquilizante.
— Preciso dar um telefonema.
Não quero preocupá-la com esses detalhes, então me levanto, enrolo a
colcha em volta dos meus seios e vou até o quarto de hóspedes com o telefone.
Ligo para Jack  enquanto ando de um lado para outro.
Por que o alarme não disparou?
Será que ativei? Merda! Saí com tanta pressa... Não sei.

— Lena. — Ele fica surpreso com a minha ligação. — Está tudo
bem?
— Bom dia. Minha vizinha acabou de ligar. Disse que fui furtada.
— Ah, merda.
— Pois é.
— Vou lá agora mesmo. Não devo levar mais de quinze minutos a essa
hora.
— Ótimo. Ligo daqui a vinte minutos.
Desligo. Estou de mau humor e começo a pensar no que realmente me
faria falta se perdesse. Minhas câmeras. Minhas mesas de som. Meu
computador...
Porra! As câmeras do meu pai!
Que merda... Algum maldito viciado pé-rapado, ou uns adolescentes
rebeldes destruindo meu apartamento.
Puta. Merda.
Eu tinha planos de passar o dia com Kara, quem sabe ir até o Projeto
Eden. Bom, talvez a gente ainda possa ir, mas preciso avaliar os danos e não
quero fazer isso pelo celular. Se eu ligar para Jack pelo FaceTime do iMac
da casa principal, posso ter uma visão melhor e ele pode me mostrar o que
aconteceu pelo telefone dele.
Sentindo-me sacaneada e arrasada, volto ao quarto, onde encontro
Kara ainda na cama.

— O que houve? — pergunta ela, se sentando, o cabelo caindo sobre os
seios.
Sua aparência é sonolenta, sexy e muito trepável. Vê-la é um bálsamo
que no mesmo instante me faz sentir melhor. Mas, infelizmente, devo
deixá-la por um tempinho. Não quero chateá-la com a notícia. Já precisou
lidar com bastante coisa nas últimas semanas.
— Devo sair e resolver uma coisa. Talvez a gente tenha até que voltar a
Londres. Mas fique na cama. Durma. Sei que está cansada. Já volto.
Ela puxa o cobertor, a testa franzida em sinal de preocupação. Dou um
beijo rápido nela e vou tomar banho.
Quando saio do banheiro, ela não está mais na cama. Visto depressa uma calça jeans e uma camisa branca de linho, sandália de salto preto e bolsa preta. Encontro-a na cozinha, usando
apenas a blusa do meu pijama e recolhendo os pratos da noite anterior. Ela
me entrega uma xícara de café espresso.
— Para você acordar — diz, com um sorriso devoto, embora seus olhos
estejam arregalados e desconfiados.
Está ansiosa.
Bebo o café. Está quente, forte e delicioso. Um pouco como Kara.
— Não se preocupe, eu volto logo.
Beijo-a mais uma vez, pego o casaco e saio, fugindo das gotas de chuva
e subindo os degraus às pressas. Entro no carro e acelero na estrada.
Kara observa Lena subir os degraus a toda e fechar o portão. Parece
preocupada, e ela se pergunta aonde Lena vai. Aconteceu algo ruim. Um
calafrio percorre suas costas, mas ela não sabe por quê. Suspira. Tem muita
coisa que não sabe sobre ela.
E Lena disse que talvez tivessem de voltar a Londres. O que significa que
ela terá de encarar a realidade da sua situação.
Sem ter onde morar.
Zot.
Deixou tudo isso de lado nos últimos dias, mas tem muitos problemas
em sua vida. Onde vai morar? Será que Dante parou de procurá-la? O que
Lena sente por ela? Kara respira fundo enquanto tenta afastar as
preocupações e espera que Lena consiga resolver logo o problema, qualquer
que seja, e volte. A casa parece vazia sem ela. Os últimos dias foram
maravilhosos, e ela espera que não precisem retornar a Londres. Ainda não
está pronta para voltar à realidade. Nunca foi tão feliz quanto com Lena ali.
Enquanto isso, vai terminar de colocar os pratos sujos no lava-louça. Depois
vai tomar banho.

LADY-LUTHOR -KARLENA Onde histórias criam vida. Descubra agora