CAPÍTULO 03

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Kara enfia as mãos no fundo dos bolsos do antigo casaco na vã tentativa de aquecer os dedos frios. Encolhida no cachecol, ela atravessa a garoa gelada de inverno em direção ao prédio residencial no Chelsea Embankment. É quarta-feira, seu segundo dia lá sem Ania, e ela está voltando ao apartamento grande com o piano.

Apesar do clima,sente-se vitoriosa, porque sobreviveu ao trajeto no trem lotado e apertado sem a ansiedade de sempre. Está começando a entender que Londres é assim mesmo. Gente demais, barulho demais e engarrafamento demais. Porém, o pior de tudo é o fato de ninguém se falar a não ser para dizer " com licença " quando esbarra em você ou " vá para o fundo do vagão, por favor ". Todos se escondem atrás dos jornais gratuitos, ouvem música nos fones de ouvido ou olham fixo para os celulares ou livros eletrônicos, evitando qualquer contato visual.

Naquela manhã, Kara tiveram a sorte de encontrar um assento no trem,mas a mulher ao seu lado passara a maior parte do trajeto gritando no celular sobre seu encontro mal-sucedido da noite anterior. Kara tentou ignorar e ler o jornal gratuito para melhorar seu inglês, mas queria mesmo era escutar música, não a reclamação barulhenta daquela mulher. Terminada a leitura, ela fechou os olhos e imaginou montanhas majestosas salpicadas de neve, pastagens onde o ar tinha aroma de tomilho e era dominado pelo zumbido das abelhas. Kara sente saudade de casa. Saudade da paz e do silêncio. Saudade da mãe e do piano.

Flexiona os dedos dentro dos bolsos enquanto relembra sua música de aquecimento, ouvindo as notas em alto e bom som,vendo-as em cores vivas. Quanto tempo faz desde a última vez que tocou ? Sua empolgação cresce ao pensar no piano à sua espera no apartamento.

Atravessa a entrada do prédio antigo em direção ao elevador, quase sem conseguir conter o entusiasmo, e segue até a cobertura. Durante algumas horas, todas as segundas, quartas e sextas, aquele lugar maravilhoso com cômodos grandes e arejado, chão de madeira escura e piano de cauda é todo dela. Kara abre a porta, preparada para desativar o alarme, mas para sua surpresa, o sistema não emite um bipe. Talvez esteja quebrado ou desativado. Ou... Não. Ela se dá conta,horrorizada, de que a dona deve estar em casa. Ouvindo com atenção, tentando detectar qualquer sinal de vida,ela para no corredor amplo com paredes decoradas com fotos de paisagens em preto e branco. Não ouve nada.
Mirë.
Não. "Que bom." Inglês. Pense em inglês.

Quem quer que more ali deve ter ido trabalhar e se esquecido de ativar o alarme. Ela nunca viu a sujeita,mas sabe que tem um trabalho bom, porque o apartamento é imenso. De que outra forma poderia bancar aquilo? Ela suspira. Ela pode até ser rica,mas é uma porca. Kara já esteve ali três vezes, duas delas com Ania,e o apartamento está sempre uma bagunça, demandando horas de arrumação e faxina.

O dia cinzento se infiltra pela claraboia ao final do corredor, então Kara liga o interruptor, e o lustre de cristal acima dela ganha vida, iluminando a passagem. Ela tira o cachecol de lã e o pendura com o casaco no armário ao lado da entrada.

Pega na sacola plásticas os tênis velhos que Nia Nal lhe deu e substitui as botas e meias molhadas por eles,satisfeita por estarem seco e aquecerem seus pés. Sua camiseta é o casaquinho finos não são páreo para o frio. Ela esfrega os braços com força para reanimá-los um pouco enquanto atravessa a cozinha e entra na lavanderia. Ali, larga a sacola de compras na bancada. Tira de dentro o uniforme de Barry grande demais que Ania lhe deu e o veste por cima da roupa,então amarra um lenço azul-claro na cabeça, tentando manter o cabelo trançado sob controle. No armário debaixo da pia,pega o kit de limpeza e, do alto da máquina de lavar, tira um cesto de roupa, seguindo para o quarto dela. Se ela se apressar, pode terminar a faxina antes da hora e ter o piano para si por um tempinho.

Ela abre a porta, mas fica paralisada na estrada no quarto.
Ela está aqui.
A mulher!

Dormindo sem roupa, de barriga para baixo e esparramada na cama enorme.
Ela fica ali, ao mesmo tempo em choque e fascinada, com os pés enraizados no piso de madeira enquanto observa a linda mulher. Seu rosto está virado para ela, mas coberto por cabelos negros desgrenhados. Um dos braços está sob o travesseiro, e o outro, estendido na direção de kara. Ela tem uma tatuagem no ombro esquerdo. O bronzeado das costas some à medida que os quadris se estreitam e dão lugar a covinhas e uma bunda pálida mas que dá inveja.

LADY-LUTHOR -KARLENA Onde histórias criam vida. Descubra agora