Capítulo 65

204 22 5
                                        



Anatoli volta a encher a taça de Kara.
— Você mal tocou na comida.
— Não estou com fome.
— Nesse caso, acho que está na hora de irmos para a cama.

O tom de voz dele a fez erguer o olhar na hora. Anatoli está acomodado na cadeira, atento. À espera. Como um predador. Com o indicador, ele dá batidinhas no lábio superior como se estivesse imerso nos próprios pensamentos, os olhos brilhando. Já tomou pelo menos três taças de vinho.
Além do uísque. Ele vira o restante da taça e se levanta devagar. Os olhos fixos nela, intensos, mais escuros. Ela fica paralisada diante daquele olhar. Não.

— Não sei por que eu devia esperar até nossa noite de núpcias.
Ele se aproxima.
— Não. Anatoli — murmura ela. — Por favor. Não.
Ela se agarra à mesa.
Ele desliza um dedo pela bochecha de Kara.
— Linda. Levante-se. Não dificulte as coisas para nós dois.
— Nós devíamos esperar — sussurra Kara, o cérebro fervilhando, avaliando suas opções.
— Eu não quero esperar. E, se tiver que lutar com você, que assim seja.
Ele faz um gesto repentino, agarrando-a pelos ombros e colocando-a de pé com tanta força que a cadeira tomba no chão. Tanto o medo quanto a raiva percorrem seu corpo. Ela gira e chuta, o pé atingindo a canela de Anatoli e depois a mesa, chacoalhando a louça, derrubando a taça de vinho e derramando o restante da bebida.
— Ai. Merda — resmunga ele.
— Não! — grita Kara, dando coices com os pés, batendo os punhos, na esperança de acertar Anatoli. Ele a agarra pela cintura, puxando-a com força para os seus braços. Depois a levanta no ar enquanto ela chuta
qualquer coisa que esteja à sua frente, no esforço de atingi-lo. — Não! —
berra. — Por favor, Anatoli!
Ignorando os gritos, ele aperta ainda mais os braços ao redor dela e a leva para o quarto, meio a arrastando, meio a carregando.
— Não. Não. Pare!
— Quieta! — grita ele, enquanto a sacode e a joga na cama com o rosto para baixo.
Ele se senta ao seu lado, imobilizando-a, pressionando as costas dela com uma das mãos, enquanto com a outra começa a puxar as botas.

— Não! — berra ela de novo, e gira, chutando-o uma vez, depois outra,
tentando se desvencilhar enquanto o esmurra.
— Puta que pariu, Kara!
Ela está possessa, a raiva lhe dando uma força que não sabia que tinha.
Ela luta, consumida pelo ódio, que concentra naquele homem detestável.
— Inferno.
Anatoli se joga em cima dela, esmagando-a contra o colchão e
impedindo-a de respirar. Kara tenta expulsá-lo de cima de si, mas ele é
pesado demais.
— Calminha — sussurra no ouvido dela. — Calminha.
Ela fica imóvel, reunindo forças e se empenhando em bombear ar para
os pulmões. Anatoli troca o peso de lugar e a vira bruscamente, de forma que roçam no nariz um do outro. Mantendo a perna nas coxas de Kara, ele agarra as mãos dela e as puxa para cima da cabeça, prendendo-as com uma das mãos.

— Eu quero você. Você é minha esposa.
— Por favor. Não — sussurra ela, encarando os olhos selvagens e arregalados do homem. Dentro deles, ela capta a excitação de Anatoli, cujo corpo magro vibra de desejo. Ela sente nos próprios quadris. Ele a encara, a respiração pesada, e uma das mãos dele percorre o corpo dela, o seio, a
barriga, o zíper da calça. — Não. Anatoli, por favor. Estou sangrando. Por
favor. Estou sangrando.
Está mentindo, mas é uma última e desesperada tentativa de contê-lo.
Ele franze a testa, como se não entendesse, e depois sua expressão muda da
luxúria para o nojo.

— Ah — diz. Soltando as mãos de Kara, ele rola para longe e olha fixo para o teto. — Talvez a gente devesse esperar — resmunga.

Kara vira para o lado, puxando os joelhos e se curvando em posição fetal, ficando tão pequena quanto possível. Desespero, repulsa, medo: esses agora são seus companheiros constantes. Suas lágrimas começam a sufocá-la, e ela sente a cama balançar quando Anatoli levanta e volta para a sala.
Por quanto tempo será que ela é capaz de chorar até as lágrimas secarem?
Instantes. Segundos. Horas.

LADY-LUTHOR -KARLENA Histórias para pegar e não largar. Descubra agora