— Boa noite,Lady — diz Blake, ao abrir a porta da frente da
Residência Luthor.
— Olá, Blake. — Não o corrijo. Afinal, por mais que eu não goste, sou
mesmo a Lady. — A senhora Luthor está em casa?
— Acredito que ela esteja na sala íntima.
— Ótimo. Não precisa me levar lá. Ah, e agradeça à Sra. Blake pela
limpeza depois do assalto. Ela fez um excelente trabalho.
— Pois não, Lady. Foi uma lástima o ocorrido. Posso ficar com seu
sobretudo?
— Obrigada. — Tiro o casaco, e ele o dobra sobre um dos braços.
— Algo para beber?
— Não, estou bem. Obrigada, Blake.
Subo as escadas e o som dos meus sapatos fazendo barulho nos degraus, viro à esquerda, e abro a porta da sala íntima.
*********
Kara examina o caos que é o closet do quarto de Lena. As gavetas,
os cabideiros — tudo está abarrotado com as roupas dela, sem nenhum espaço para as suas. Ela leva sua mala até o quarto de hóspedes e começa a guardar as coisas no pequeno guarda-roupa.
Depois de colocar o nécessaire em cima da cama, ela começa a andar pelo apartamento. Tudo é extremamente familiar, mas agora ela enxerga as
coisas de outra perspectiva. Ela sempre pensou na casa de Lena como um
lugar de trabalho. Nunca ousou imaginar que um dia poderia morar aqui
com ela. Nunca havia almejado viver em um lugar tão magnífico quanto
este. Ela rodopia na porta da cozinha, sentindo-se boba e grata — e feliz. É
um sentimento precioso e raro. Ela ainda tem tanto a resolver na vida, mas
pela primeira vez em um bom tempo tem esperança. Com Lena ao seu
lado, parece que nenhum obstáculo é intransponível. Ela se pergunta se Lena
vai ficar fora só uma hora... Está com saudades.
Passa os dedos pela parede do corredor. As fotografias que ficavam
penduradas ali desapareceram. Talvez tenham sido levadas no furto.
O piano!
Ela corre até a sala. Ainda está lá, são e salvo. Com um suspiro de
alívio, Kara acende as luzes. O cômodo está arrumado e limpo, a coleção
de discos de Lena no lugar de sempre. Mas a mesa está vazia — sem o
computador nem o equipamento de som. As fotografias que ficavam
penduradas nas paredes daqui também desapareceram. Ela caminha com
receio até o piano, analisando cada canto com cuidado. Sob a luz do lustre,
ele está limpo e reluzente — recém-polido, ela acha. Ela apoia a mão no
ébano e dá a volta em torno dele, acariciando suas curvas amplas. Quando
chega ao suporte para partitura, percebe que todas as composições sumiram.
Talvez tenham sido guardadas em algum lugar. Ela ergue a tampa e aperta o
dó médio: é um som dourado que ressoa pela sala deserta, seduzindo-a,
acalmando-a... deixando-a centrada outra vez. Ela senta no banco, tenta
esquecer a solidão e começa a tocar o "Prelúdio No 23 em Si Maior", de
Bach.
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Samantha está sentada perto da lareira vendo as chamas, enrolada em
uma colcha xadrez. Ela não se vira quando entro.
— Oi. — Meu cumprimento baixo compete com o crepitar do fogo.
Samantha volta a cabeça na minha direção, o olhar desolado, a boca
curvada numa expressão de tristeza.
— Ah, é você — diz ela.
— Quem você esperava?
Ela não se levantou para me cumprimentar, e estou começando a me
sentir uma presença indesejada.
Ela suspira.
— Desculpe, eu só estava pensando no que Lex estaria fazendo agora se
estivesse aqui.
A dor da perda surge de maneira inesperada, sufocando-me como um
cobertor de lã puído. Tento afastá-la, engolindo o nó que se formou na
minha garganta. Quando me aproximo, percebo que Samantha estava
chorando.
— Ah, Caro... — murmuro e me agacho ao lado da sua cadeira.
— Lena, eu sou uma viúva. Tenho 28 anos e sou viúva. Isso não
estava nos planos.
Seguro sua mão.
— Eu sei. Não estava nos planos de nenhum de nós. Nem nos de Lex.
Seus olhos azuis cheios de dor encontram os meus.
— Não sei — diz ela.
— Como assim?
Ela se aproxima para ficarmos cara a cara e sussurra em tom conspiratório:
— Acho que ele queria se matar.
Aperto seus dedos.
— Sam. Isso não é verdade. Não pense assim. Foi só um acidente
horrível.
Fixo meus olhos nos seus, tentando transmitir o máximo de sinceridade,
mas a verdade é que... pensei a mesma coisa. Mas não posso deixá-la saber
disso, e tampouco quero acreditar. Suicídio é algo doloroso demais para os
que ficam para trás.
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LADY-LUTHOR -KARLENA
FanfictionKara não é o que Lena esperava, mas agora é tudo que ela mais deseja. Prepare-se para uma nova história de amor! Uma trama repleta de romance, ação e suspense.
