— É óbvio.
Preciso tocar em Kara, para que ela saiba que estou ao seu lado.
Envolvendo as mãos dela em uma das minhas, dou um aperto de leve. A
tentação de puxá-la para o meu colo e abraçá-la é arrebatadora, mas resisto.
Ela precisa falar. Ela me lança um olhar hesitante, e deixo que se abra.
— Fui em um micro-ônibus para Shkodër, e lá passamos para o
caminhão grande. Dante e Ylli estão lá com mais cinco moças. Uma delas
é... quer dizer... tem só dezessete anos.
Engulo em seco. Chocada. Tão jovem.
— O nome dela é Bleriana. Dentro do caminhão. Nós conversamos.
Bastante. Ela também mora no norte da Albânia. Em Fierza. Nós ficamos
amigas. Fizemos planos para encontrar trabalho juntas.
Ela se interrompe... perdida na monstruosidade da história, ou talvez
imaginando o que pode ter acontecido com a amiga.
— E eles tiram tudo de nós. Menos as roupas do corpo e os sapatos. Só
tem um balde nos fundos... Você imagina. — A voz dela vai diminuindo.
— Isso é horrível.
— Sim. O cheiro... — Ela estremece. — E tudo o que temos é uma
garrafa de água. Uma garrafa para cada uma.
Sua perna começa a tremer, e seu rosto empalidece, o que me faz
lembrar da sua aparência na primeira vez que a vi.
— Está tudo bem. Estou aqui. Quero saber.
Ela volta os olhos sombrios e arrasados para mim.
— Quer mesmo?
— Sim. Mas só se você quiser me contar.
Seus olhos se concentram no meu rosto, me examinando. Desvendando-
me, como naquela primeira vez no corredor.
Por que será que eu quero saber?
Porque a amo.
Porque ela é a soma de todas as suas experiências, e essa infelizmente é
uma delas.
Ela respira fundo e prossegue:
— Ficamos no caminhão por uns três, quatro dias, talvez. Não sei
quanto tempo. Paramos quando o caminhão entrou em uma... qual é a
palavra? Balsa. Para transportar carros e caminhões. Eles nos deram pão. E
sacolas de plástico preto. Tínhamos que colocar na cabeça.— Como assim?
— Tem a ver com a imigração. Eles medem o, humm... dioksidin e
karbonit? — Ela se atropela com as palavras.
— Dióxido de carbono?
— É. Isso mesmo.
— Dentro da cabine?
Ela dá de ombros.
— Eu não sei, mas se tem muito, as autoridades sabem que tem gente
no caminhão. Elas medem. De algum jeito.
Ela continua sua história:
— Seguimos na balsa. O barulho era alto. Alto demais. Os motores. Os
outros caminhões... e nós estávamos no escuro. Minha cabeça dentro do
saco plástico. E então o caminhão parou. O motor desligou, e ouvimos o
chiado e o rangido do metal e dos pneus. O mar estava agitado. Agitado
demais. Nós todas estávamos deitadas. — Seus dedos vão até o pequeno
crucifixo no colar, e ela começa a mexer nele. — Era difícil respirar. Achei
que ia morrer.
Sinto um nó na garganta. Minha voz sai rouca:
— Não é de espantar que você não goste do escuro. Deve ter sido
apavorante.
— Uma das garotas estava passando mal. O cheiro. — Ela se
interrompe e engasga.
— Kara...
Mas ela continua. Parece que algo a obriga a falar.
— Antes de irmos para a balsa, quando estávamos comendo aquele pão,
ouvi Dante falar em inglês. Ele não sabia que eu entendia o idioma. Ele
disse que ia ganhar dinheiro com a gente, que nosso trabalho seria abrir as
pernas. E foi assim que descobri qual seria nosso futuro.
Minha raiva é imediata, faz meu sangue ferver. Devia ter matado aquele
merda quando tive a oportunidade e me livrado do corpo dele, seguindo a
sugestão de Jenkins. Nunca me senti tão insuficiente quanto neste
momento. Kara deixa a cabeça cair, e levanto seu queixo delicadamente
com os dedos.
— Eu lamento tanto.
Ela vira o rosto para mim, e percebo uma faísca em seus olhos. Não é
tristeza que vejo refletida, nem autopiedade — ela está com raiva. Com raiva de verdade.
— Eu já tinha ouvido boatos. Garotas que sumiam de nossa cidade e de
cidades vizinhas. E de Kosovo. Isso passou pela minha cabeça por um
minuto quando subi no ônibus... mas sempre se tem esperança.
Ela engole em seco, e, por trás da raiva, vejo angústia em seus olhos.
Ela se sente uma tola.
— Kara, você não deve se culpar, nem à sua mãe. Ela agiu de boa-fé.
— É verdade. E eu tinha que sair de lá.
— Eu entendo.
— Contei para as outras moças o que Dante falou. E três delas
acreditaram. Bleriana, ela acreditou em mim. E quando tivemos a chance de
escapar, nós fugimos. Corremos. Não sei se as outras conseguiram. Não sei
se Bleriana escapou. — Noto um vestígio de culpa em sua voz. — Eu tinha
o endereço da Nia escrito em um pedaço de papel. As pessoas estavam
comemorando o Natal. Andei por dias... acho que foram seis ou sete dias.
Não sei. Até chegar na casa dela. E ela cuidou de mim.
— Graças a Deus Nia-Nal existe.
— É mesmo.
— Onde você dormia enquanto andava até a casa dela?
— Eu não dormia. Não dava. Estava frio demais. Achei uma loja e
roubei um mapa. — Ela desvia o olhar.
— Não consigo imaginar o horror que você enfrentou, e sinto muito por
isso.
— Você não tem por que sentir muito. — Ela me oferece um sorrisinho.
— Isso aconteceu antes de nos conhecermos. Agora você sabe. Tudo.
— Obrigada por contar. — Eu me aproximo e beijo sua testa. — Você é
uma mulher incrivelmente corajosa.
— Obrigada por ouvir.
— Vou sempre ouvir, Kara. Sempre. Agora, vamos para casa?
Aparentemente aliviada, ela assente, então ligo o motor do carro e dou
marcha a ré. Faço o retorno para voltar à estrada.
— Tem uma coisa que eu queria saber — acrescento, refletindo sobre a
história terrível que ela acaba de contar.
— O quê?
— Ele tem um nome?
— Quem?— O... homem a quem você foi prometida — cuspo as palavras.
Eu o odeio.
Ela balança a cabeça.
— Eu nunca digo o nome dele.
— Como Voldemort — murmuro baixinho.
— Harry Potter?
— Você conhece Harry Potter?
— Ah, conheço. Minha avó...
— Não me diga, ela contrabandeou os livros para a Albânia?
Kara ri.
— Não. Ela encomendou de lá. Foi Nia quem mandou. Minha mãe
leu para mim quando eu era criança. Em inglês.
— Ah, mais um motivo para você falar inglês tão bem. Ela também é
fluente?
— Mama? É, sim. Meu pai... ele não gosta quando falamos uma com a
outra em inglês.
— Imagino. — Quanto mais escuto sobre o pai dela, menos gosto dele
também. Mas não compartilho isso com ela. — Por que você não escolhe
outra música?
Ela passa os dedos pela tela, e seus olhos se iluminam quando encontra
RY X.
— Dançamos esta música.
— Nossa primeira dança. — Sorrio com a lembrança. Parece que foi há
muito tempo.
Ficamos em um silêncio confortável, nós duas desfrutando a música. Kara parece absorta no ritmo, balançando um pouco para a frente e para
trás. E fico feliz de ver que ela voltou ao normal, após ter me contado
aquela história angustiante.
Enquanto ela escolhe outra canção, fico refletindo. Esse homem, esse
merda que a machucou, a quem foi prometida, quero saber tudo a respeito
dele para protegê-la. Preciso resolver o status legal de Kara com urgência
— mas não sei como. Ajudaria se eu me casasse com ela, mas acho que ela
precisa estar no país de modo legal para então fazermos isso. Decido ligar
para James Olsen assim que possível.
Dou um sorriso malicioso quando passamos pela saída para
Maidenhead, cujo nome significa "virgindade", e balanço a cabeça, achando graça da minha própria imbecilidade. Pareço uma garota de doze anos. Dou
uma espiada em Kara, mas ela parece não notar. Está absorta em seus
pensamentos, batendo o dedo de leve contra os lábios.
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LADY-LUTHOR -KARLENA
Fiksi PenggemarKara não é o que Lena esperava, mas agora é tudo que ela mais deseja. Prepare-se para uma nova história de amor! Uma trama repleta de romance, ação e suspense.
