Introdução (Revisto)

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"Mamã, mamã!" Exclama a Sophie, com a força máxima que os seus cinco anos lhe permitem, enquanto entra pela sala de estar a correr e se senta na carpete, de frente para mim. "Hoje tu e o papá fazem cinco anos de casados, é, não é? Porquê?"

Sorrio, maravilhada com a minha sorte. Nunca perdera a esperança de formar uma família, mesmo não podendo ter filhos. A Sophie era a prova viva de que não precisava de receber os meus genes para poder receber o meu amor.

"Porque quando duas pessoas se amam muito e querem dar o próximo passo na sua relação, elas casam-se. E foi há exatamente cinco anos que eu casei com o teu papá."

"Cinco anos? Isso é a minha idade! E conheces o papá há cinco anos?" 

Suspiro e bato levemente no meu colo para a chamar para lá. A Sophie ergue-se e em menos de um segundo está a saltar para cima do sofá e a gatinhar para o meu colo. Depois de encostar a cabeça no meu ombro, envolvo-a no meu abraço e pondero por momentos como poderia responder à sua pergunta.

"Tinha dezassete anos quando conheci o teu pai e comecei a namorar com ele. Foi muito divertido." Confessei e ela deixou o queixo cair, fascinada.

"E como é que se conheceram?"

Hesito um pouco. A minha história com o Zayn não é das mais exemplares, não para uma criança de cinco anos. Apesar de inocente e de poucas consequências terem moldado o futuro que hoje vivemos, talvez contornar a história verdadeira não fosse uma má ideia.

"Talvez aches os rapazes nojentos agora, mas daqui a uns anos poderás andar pelos cantos desta casa a suspirar e a sonhar com um ou dois..." Rio e ela faz a típica cara de nojo que também eu fizera na minha infância. "Eu pensava assim até conhecer o teu pai, e o teu pai era o típico rapaz que roubava corações com olhares."

"Roubou o teu?" Questiona ela, curiosa.

"Sim, mas não com olhares... está bem, se calhar com olhares também. E, para já, é tudo o que precisas de saber."  Aperto-a num abraço para não lhe dar tempo de fazer mais nenhuma pergunta. "Quem te disse que fazíamos cinco anos de casamento...?"

"A tia Martha." Pois, claro. "Por que vou ficar com ela esta noite? Por que não posso passar os cinco anos de casados convosco?"

"Porque a tia Martha vai permitir que te deites mais tarde e comas mais chocolates do que deves. Queres perder uma oportunidade dessas?"

"Não!!!" E, de repente, alguém toca à campainha. "É a tia Martha!!!"

Sophie levanta-se e atira-se para o chão, começando a correr. Do corredor vem a voz do Zayn a pedir à Sophie para ter calma e, de seguida, a Martha a falar. Em rápidos minutos a porta é fechada e o Zayn aparece na sala posteriormente, a sorrir.

"Sozinhos em casa..." Aponta e eu reviro os olhos, não conseguindo evitar sorrir de volta. "Creio que tens um plano bastante detalhado desta noite?" 

"O meu nome é Bella?"

Ainda que todos os planos que havia delineado para a minha vida adulta tivessem passado por todas as reviravoltas e mais alguma, o meu traço vincado de personalidade de não sabe existir sem os dias preparados com antecedência não escapou por nenhuma fenda. Portanto, sim - tenho efetivamente um plano bastante detalhado para esta noite.

Depois de um jantar encomendado (aprender a cozinhar nunca fez parte dos meus planos) e de um filme daqueles horríveis que só o Zayn gosta, a noite virou para longas conversas com elos de ligação sem nexo nenhum entre si, até que chegamos às memórias dos últimos cinco anos de casados, e, ao total, quinze anos juntos. Relembramos o caminho que nos trouxe até aqui e rimos do quão inocentes fomos e de como crescemos e nos tornámos mais fortes, sempre lado a lado. Obstáculos ultrapassados, amizades perdidas, discussões escaladas, boas surpresas e, quinze anos depois, cá estamos.

Onde estaria eu se tivesse seguido a minha razão? Teria percebido a tempo que os passos que dava não eram meus? Que o sofrimento que eu calava ansiava por gritar e fazer-se ouvir? 

Deito a minha cabeça no seu peito e respiro fundo; por esta altura já a atenção dele tinha sido capturada novamente pela televisão, sem sequer se aperceber de que fazia círculos no meu braço com a ponta dos dedos.

"Mudarias alguma coisa, se pudesses?"

O Zayn volta a atenção novamente para mim, confuso com a pergunta: "Por que haveria? Se mudasse alguma coisa, não estaria aqui contigo."

"Claro, mas a Sophie hoje relembrou-me do quão pouco exemplares seremos para ela quando se descobrir que começamos a namorar em circunstâncias bastante peculiares..." E agora faz-me pensar no quão severamente julguei a minha mãe pela reação que eu teria se a Sophie adolescente chegasse a casa e nos contasse que namorava com um professor.

"Bella, atravessamos essa ponte quando lá chegarmos. Hoje, o dia é só nosso e não dos problemas." 

Respiro fundo novamente. Ele tinha razão, de nada adianta deixar que o stress me controle, principalmente hoje. Não posso planear tudo, posso apenas planear educar a Sophie para que se torne numa pessoa sensata, inteligente, e amável, capaz de compreender que o que fizemos foi errado, ainda que tivesse tido bons resultados - uma exceção à regra, portanto.

Um dia contar-lhe-ei como foi na realidade. Contar-lhe-ei como foi gradual e espontâneo, que fomos cuidadosos. Sentar-me-ei na ponta da cama dela e falaremos de como foi bom e emocionante, depois de fechar a porta do seu quarto para que o seu pai não nos ouvisse a cochichar e a rir. Eventualmente, a Sophie descobrirá que tudo começou com uma péssima notícia para a Bella de 17 anos quando confrontada com a ideia de que, talvez, ela não era perfeita - nem tinha de ser.

(Em revisão) Physical Education Teacher Z.M.Histórias para pegar e não largar. Descubra agora