A ausência da Madison, por algum motivo, pesava mais do que a sua presença. Qual centopeia horripilante que apanhamos de súbito dentro de casa, deixar de a ver era infinitamente pior do que dar de caras com ela. A pouca informação que fui obtendo da Madison ao longo das últimas semanas era mais do que suficiente para me deixar apreensiva. De repente, sentia-me nua, como se os seus grandes olhos azuis tivessem revistado minuciosamente os meus pensamentos e tivesse guardado numa pasta todos os meus segredos. A mera recordação do seu sorriso dava-me arrepios. Que estaria ela a fazer aqui?
Enquanto eu me debatia com a sensação de ter visto a Madison de tão perto, ao meu lado, toda a cor natural do Malik tinha desaparecido do seu rosto. Ele estava tão imóvel que nem parecia estar a respirar. Não conseguia imaginar o que estaria ele a sentir neste momento, mas certamente todos os seus traumas estariam a afundá-lo como se o chão fosse feito de areia movediça.
Após alguns longos segundos de tremendo silêncio, comecei a sentir-me inquieta. Será que deveria dizer alguma coisa? Algum tipo de palavra tranquilizadora? Ou seria melhor continuarmos neste mutismo ensurdecedor? Afinal, quem era eu para dizer o que quer que fosse, principalmente depois de todas as vezes em que eu o importunara com este tema?
O choque teve um impacto tão forte que me esqueci completamente de que estava a chover a potes. Não que ter entrado no carro há dois minutos ou entrar agora fosse fazer alguma diferença, era impossível ficar mais molhada do que o que já estava. Porém, esse pensamento havia de ter passado pela cabeça dele, pois destrancou o carro e mandou-me entrar. Logo de seguida, começamos o nosso caminho até ao cemitério, sem uma única palavra proferida.
Queria gritar. Queria gritar tão alto que a muralha que ele acabara de erguer entre nós fosse abaixo. Queria que ele me dissesse quais as suas teorias para a Madison ter aparecido em sua casa, se era a primeira vez, se ele achava que haveria uma próxima. Ainda que compreendesse que até a sombra da pessoa que quase, quase nos arruinou a vida pudesse ser desestabilizador, não entendia o porquê de ele ter petrificado e agido como se a sua alma tivesse abandonado o seu corpo.
E depois, fez-se luz. E eu entrei em pânico.
Claro que ele estava petrificado; surpreendente foi eu não ter perdido a cabeça ao mesmo tempo. Fomos apanhados! Alguém - alguém, não, a Madison! - apanhou-nos juntos: a mim, uma aluna do secundário na casa do seu professor. Como haveria ele de agir normalmente? Como pude eu, no momento, agir normalmente? Não foi qualquer pessoa a apanhar-nos, foi ela.
Mas era impossível ela saber quem eu era. Tanto quanto ela sabia, eu podia ser uma rapariga qualquer. A Madison não tinha como simplesmente adivinhar que não era suposto eu estar ali, com ele, ainda que por motivos inocentes.
"Malik..." Chamei, quase num sussurro.
"Deixa para lá."
O volante estava a ser tão violentamente agarrado que os nós dos seus dedos estavam pálidos. A sua atenção estava vidrada na estrada à nossa frente, uma visão cortada com frequência pela correria dos limpa-vidros. Eu conseguia sentir a tensão no seu maxilar e a respiração pesada. Cada um tinha a sua maneira de entrar em pânico, e pelos vistos esta era a dele.
"Achas que ela vai fazer alguma coisa por me ter visto em tua casa?" Questionei. Eu estava a pisar a linha, estava consciente disso, mas precisava de saber.
"Não sei." Confessou ele, num suspiro. "Ela não sabe quem és e o que está implicado." Exato! Exato.
Exato.
"Deixa que eu me preocupe com isso. Não te vai acontecer nada."
"Vai acontecer a ti?"
Ele engoliu em seco, pude ver a maçã de adão a subir e a descer. Não obtive resposta à minha pergunta, o que, por si só, era uma resposta.
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(Em revisão) Physical Education Teacher Z.M.
FanfictionSe me perguntarem se alunos e professores se podem envolver, vou responder "depende". Depende de quando fazem a pergunta: em qualquer outro momento da minha vida, ou agora?
