A cozinha estava com um cheiro estranho que eu não conseguia identificar com exatidão. Parecia uma mistura de terra molhada com algo doce; o mais provável era ser o cheiro da erva cozinhada dentro dos brownies, e se o Mark tinha intenções de manter a cabeça nos ombros, era bom que este aroma se fosse dissipando ao longo da noite.
Apesar das temperaturas agrestes no exterior, a quantidade de pessoas dentro daquela sala fazia-me sentir como se estivéssemos num dia de verão. O ar não parecia querer circular, nem com as portas de vidro que davam acesso ao jardim a serem constantemente abertas e fechadas para que pessoas aleatórias pudessem ir fumar um cigarro - outro aspeto nojento que esperava ver limpo amanhã de manhã. Já avisara o Mark de que eu não iria apanhar uma única beata do chão.
Retirei uma garrafa de água do frigorífico e um copo de vidro do armário por cima da banca. O calor abafado deixara-me com sede, e já estava há tanto tempo sentada que o meu cóccix estava dormente. Quando girei sobre os meus pés para abandonar a cozinha, encontrei o Malik especado na entrada, os músculos tensos e o olhar vazio, como se tivesse acabado de ver um fantasma. Provavelmente o fantasma era eu.
"Olá." Disse ele num tom de voz monocórdico e arrastado.
Ainda não tinha arranjado uma maneira de lidar com o facto de que ele estava na casa dos meus avós. A melhor solução que arranjei foi evitá-lo o máximo possível, mas o universo não me estava a deixar ser bem sucedida durante muito tempo. Para não falar que ele nem parecia ser a mesma pessoa do costume, com aquelas calças de ganga azuis claras e o bom senso refém do álcool.
E refém da erva. Não sabia o que sentia em relação ao Malik consumir drogas, ainda que fossem drogas leves. Era um sentimento negativo e, portanto, haveria de ser bom para mim. Quanto mais características negativas surgissem para destruir a imagem perfeita que eu criara dele, melhor.
"Olá." Respondi eu, constrangida.
Ele continuava hirto, a olhar para o meu copo de água como se fosse a coisa que ele mais desejava no mundo.
"Isto é estranho."
Suspirei: "Boa, não sou a única a sentir-me assim."
Em retrospetiva, talvez fosse óbvio. A Anna tinha acabado o secundário em Ciências e Tecnologias há quatro anos; o Malik cancelou a aula de sábado, porque estava a planear autodestruir-se durante a noite anterior. Já tinha ouvido falar sobre os seus amigos do secundário e em como se reuniam de vez em quando, que era algo que eu já tinha também ouvido da boca da Anna. A informação estivera sempre à minha frente.
"Não sabia que conhecias a Anna, mas acho que faz sentido, tendo em conta que ela tem mais dois anos do que tu." Comentei, sentindo-me cada vez mais constrangida à medida que os segundos iam passando sem ele os preencher.
Não sabia até que ponto é que o tempo estava a passar de igual forma para nós os dois.
"Ya. É ela que me traz flores. Alguns amigos meus costumam ir lá a casa durante o fim-de-semana."
Bem, isso explicava as caixas de pizza e as latas esmagadas de cerveja que eu vira na sua cozinha há uns dias. Quanto às flores, custava-me admitir o quão aliviada me sentia com esta revelação. Estava tudo bem, era só a Anna, era mesmo só uma amiga. Eu e a Anna não éramos muito próximas, mas era fácil imaginá-la a dar flores a um amigo por achar que a casa precisava de um toque feminino.
"Há mais água no frigorífico?"
Abafei uma gargalhada. Tal como previra, ele devia estar a morrer de sede. Tirei uma garrafa de água gelada do frigorífico e entreguei-a. Num abrir e fechar de olhos, toda a água tinha desaparecido. Não era chocante para mim, no entanto. Se houvesse um recorde de garrafa de água mais rapidamente ingerida, com certeza teria sido o Malik a batê-lo.
VOCÊ ESTÁ LENDO
(Em revisão) Physical Education Teacher Z.M.
FanfictionSe me perguntarem se alunos e professores se podem envolver, vou responder "depende". Depende de quando fazem a pergunta: em qualquer outro momento da minha vida, ou agora?
