Não estava de todo pronta para uma aula de apoio hoje, pelas várias razões que passarei a enumerar: já tivera uma aula de Educação Físca esta manhã, que fora extremamente cansativa, e o meu cabelo estava longe de aguentar uma segunda lavagem num tão curto espaço de tempo - e eu estava longe de aguentar outro movimento que aumentasse os meus batimentos cardíacos por minuto.
Além disso, precisava mesmo desta tarde livre para pôr algumas matérias em dia e preparar a próxima semana de aulas. Os sumários das aulas de Matemática deram lugar a intermináveis discursos sobre os exames finais e do quão preponderantes seriam no nosso futuro académico. Para aqueles que ainda não haviam compreendido na totalidade a sua importância, acredito que estes discursos fossem colocar as rodas nos carris; para mim, que nasci fisgada no número 20 repetido numa pauta, ouvir repetidamente a mesma conversa era angustiante. Servia apenas para acentuar o meu medo de falhar.
Por último (e não posso crer que estou a ser patética a este ponto): ainda não tinha digerido o comentário feito pelo professor Malik na aula de ontem. Era um nó no meu peito que não conseguia desenvencilhar e uma opinião que não conseguia compreender. Esta recordação obstruía a minha mente como um anúncio pop up num website duvidoso. Desnecessária e intrusiva. E irritava-me não saber a motivação daquela observação - estaria a gozar comigo?, a dizer algo controverso para se diferenciar?, a ser honesto? Apesar de não conhecer a resposta, admito que ainda não voltara a olhar para o espelho com neutralidade. O meu reflexo, de súbito, ficara interessante. Seria a combinação básica do cabelo loiro e dos olhos azuis? As sardas sarapintadas pelo meu nariz? As maçãs do rosto salientes?
Estás a ser ridícula, Bella. Nada disto era importante. E vale relembrar que ele tem apenas mais três anos do que eu; isso quer dizer, muito provavelmente, que ele continua a ser um rapaz idiota.
Mas e se não fosse um rapaz idiota? E se essa fosse mesmo a sua opinião?
Atei os cordões das sapatilhas e arrumei os meus pertences na minha mochila, sozinha num balneário que parecia gigante com a minha unicidade. Quando acabei de me arranjar, dirigi-me aos lavatórios para amarrar o cabelo em frente do espelho. A luta perdida para com o meu cabelo ainda húmido do banho da manhã desvaneceu perante o foco absoluto na minha imagem. As minhas pestanas eram curtas, ainda que com uma curvatura natural, e as minhas pálpebras foram engolidas pela área das sobrancelhas. As olheiras que afundavam o meu olhar já viram melhores dias... mas os meus lábios em forma de coração talvez ajudassem a ignorar essa característica. Seria eu bonita, afinal?
Não importa, Bella! A minha aparência não me ganhou medalhas e não me irá ganhar uma bolsa de estudos. E por que haveria a opinião de um professor quanto à minha aparência ter peso? Aliás, por que é que eu sei sequer a opinião de um professor quanto à minha aparência?
"Já aprendeste a servir hoje de manhã, certo?" Perguntou ele uns minutos depois, quando entrou na sala de dança do primeiro andar. Boa tarde...
Os horários já tinham sido estabelecidos definitivamente, pelo que as três divisões do gimnodesportivo estavam ocupadas com as aulas de três turmas. Portanto, eu e o professor Malik ocupamos o único espaço livre para uma aula de apoio: a sala de ginástica, frequentemente chamada de sala de dança. Era uma sala com três paredes cobertas de espaldares e uma com espelhos; num canto estavam seis colchões empilhados, junto a uma mesa e uma cadeira de sala de aula normais. O chão era do mesmo azul do campo principal, mas ausente de linhas divisórias.
"Sim." Mais ou menos seria a resposta certa. Fiz parceria com a Carly e nenhuma de nós conseguiu servir em condições.
"Esse sim quer dizer que é melhor rever, certo?" Talvez. "Não temos fita nenhuma para dividir os nosso campos... Começa os cinco minutos a correr, vou pensar numa solução."
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(Em revisão) Physical Education Teacher Z.M.
FanfictionSe me perguntarem se alunos e professores se podem envolver, vou responder "depende". Depende de quando fazem a pergunta: em qualquer outro momento da minha vida, ou agora?
