Capítulo 9 (Revisto)

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Ainda não estava totalmente desperta. A temperatura ideal das noites que caminhavam em direção aos ríspidos Outonos de Bradford era um mistério: ora estava a arder nos meus cobertores, ora estava coberta de frio e a precisar de um reforço. Após muitas voltas e reviravoltas e uma perna de fora para equilibrar a sensação térmica do meu corpo, acabei por adormecer, mas não fora claramente uma boa noite de sono. Todos os meus movimentos eram realizados automaticamente e nem dei por mim a pentear o meu cabelo em frente do espelho até me perder no meu reflexo.

Como tenho feito desde a maldita aula de Educação Sexual de há duas semanas.

De repente, a porta do meu quarto abriu-se e eu virei-me para trás, preparada para atirar a minha escova do cabelo ao Mark e à sua mania de entrar pelo meu quarto adentro sem autorização. Mas era a Martha, de plena saúde e bateria a cem por cento. Instintivamente, olhei para a roupa que a minha irmã envergava: um vestido preto curto e provocante decorava o seu corpo e sobrepunha-se à meia-calça bordô. Para completar o visual, a Martha cresceu uns dez centímetros com as botas de pele que calçava.

"Então... o que achas?" Perguntou ela, dando uma volta para que eu pudesse averiguar todo o outfit.

Revirei os olhos. A Martha tinha regras severas quanto à roupa que comprava e usava na escola. Sempre que achava que estava a abusar um pouco vinha ter comigo a pedir opinião. Se eu conseguisse aprovar, também o iriam fazer os meus pais. 

Não sou ninguém para criticar as regras impostas, mas tendo em conta o histórico da Martha, não percebia como é que os meus pais ainda a deixavam ir às compras sozinha. O resultado é este.

"A mãe nunca te vai deixar sair assim de casa." Adverti e voltei-me novamente para o espelho, aplicando um pouco de batom de cieiro.

"Por isso é que vou levar um casaco."

"Faz o que entenderes." Resmunguei. Hoje não seria um dia em que eu tivesse propriamente paciência para dar e vender.

Já me preocupei mais com a Martha do que me preocupo hoje. Não era segredo que ela tinha nascido para ser o centro das atenções. Quando comecei a perceber que as prioridades dela incluiam a roupa da moda e o corte certo de cabelo, fiquei preocupada: seria a minha irmã uma barata tonta inocente que iria deixar o mundo aproveitar-se dela e viver de aparências? Porém, ela rapidamente apaziguou os meus medos. A Martha era intensa, segura de si mesma e astuta - a prova viva de que uma mulher pode pintar as unhas de vermelho e, ainda assim, usá-las como garras se necessário. 

"Vou explicar. Há um rapaz de quem eu gosto mais ou menos, e estou a ver a vaca da Stephanie demasiado próxima dele."

"Não digas isso!" Guinchei, irritada. "Já te disse para não chamares nomes às pessoas, principalmente a outras mulheres."

"Sim, sim, eu sei, os homens já fazem isso em demasia." A Martha revirou os olhos, mas eu sei que ela concordava comigo."

Ouvira tantas histórias através de familiares sobre o que o meu pai chamara à minha mãe durante o divórcio que me custa ouvir um dos resultados humanos dessa separação agir de maneira semelhante. 

Em todo o caso, decidi ignorar o assunto. Além de ridículo, o meu melhor amigo tinha um fraquinho (muito grande) pela Martha, e incentivá-la a ir atrás de outros rapazes soava-me a traição. Tenho a certeza absoluta de que o Harry faria muito bem à Martha e de que eles ficariam muito bem juntos. Aliás, eu nem compreendia o porquê de ela não lhe dar uma chance - o Harry era mais velho, atraente e popular, é uma check list completa daquilo que a Martha procurava. Mas, bem, não vou ser eu a meter-me no meio disto.

Descemos as escadas em direção à cozinha. Os meus irmãos já estavam sentados à mesa a tomar o pequeno-almoço com a minha mãe, que lia um papel colorido através dos óculos que escorregaram até à ponta do nariz.

(Em revisão) Physical Education Teacher Z.M.Histórias para pegar e não largar. Descubra agora