Sabia perfeitamente onde se encontrava o gabinete do Diretor Horan, mas tive companhia durante o caminho todo, o que me fez perceber que, se calhar, a conversa não seria só comigo. Se tivesse de adivinhar, apostaria as cinco libras que tinha na carteira em como iremos falar do meu miserável dez a Educação Física que não se deixava esconder atrás dos vintes. Por qual outro motivo seria chamada à direção no primeiro dia de aulas?
Custou-me mais do que seria suposto empurrar a porta de vidro da direção. Ainda que soubesse - ou desconfiasse - o que me esperava, não sabia o que fazer da situação. Não tinha previsto a mudança de professor, e esta alteração não cabia no espaço deixado pelo Afonzo Bozo. Respirar fundo calmamente não estava a ajudar e percorrer o meu plano B, C e D não me traria nenhum sucesso, porque tais planos não existiam. O plano A estava vinculado. E como se ansiedade que me ameaçava engolir não bastasse, a presença do Professor Malik ainda pesava mais nos meus receios. Que raios estava ele aqui a fazer comigo?
Já me trouxeste ao gabinete, é escusado entrares comigo.
Lá ganhei coragem e empurrei a porta de vidro (em parte porque tinha medo que a minha demora o levasse a abrir a porta por mim) e entrei no corredor que dava acesso às várias salas da direção. A assistente do Diretor Horan martelava o teclado sem sequer reconhecer a nossa presença. Porém, tal não foi necessário, pois o Professor Malik passou por mim e dirigiu-se à sala do Diretor Horan. É melhor segui-lo.
"Bella, bom dia!" Exclamou o Diretor Horan, apontando com uma mão para os dois lugares livres à frente da sua secretária. Se um deles era para mim, obviamente o segundo lugar era para o Professor Malik. "Sentem-se, sentem-se."
Sentei-me na primeira cadeira.
"Bella, pela primeira vez, o motivo que te traz aqui é uma má notícia. Não má notícia, mas uma notícia... chata, vá. Mas confio que verás o lado positivo da situação. Como certamente saberás, Educação Física passará a contar para a média final do secundário."
Acho que posso comprar uma raspadinha depois das aulas.
"Claro que faremos de tudo para te ajudar. É uma honra imensa ter connosco uma das melhores alunas do país, com um futuro brilhate pela frente! Por isso mesmo é que chamei o professor Malik para esta pequena reunião. Portanto, o Bozo reformou-se, mas passou informações deveras cruciais ao teu atual professor. Essas informações não jogam muito a teu favor."
Um dossier foi aberto à minha frente; nem havia reparado na sua existência até o Diretor Horan lhe pôr as mãos.
"Não posso pedir ao Malik que inflacione as tuas notas." Não acredito que ele o fizesse... "Mas... posso pedir-lhe que te ajude. Portanto, quero saber o que achas do que temos planeado para ti. O que te parece umas aulas extras semanais na escola, no horário que vos for mais oportuno, obviamente, para colmatar a tua falta de... jeito para esta disciplina?"
As palavras ficaram presas na minha garganta. Como assim? Como assim esta era a solução? Esperavam que eu fosse perder o meu tempo precioso de estudo? Eu tinha exames no final deste ano! Passei meses a construir o programa de estudo perfeito, já havia memorizado os horários, os dias, as disciplinas, e era suposto agora, do nada, reorganizar este ano para espremer uma aula extra de Educação Física? Três já não eram suficientes?
"Considera uma aula de apoio, onde tu e outros que queiram subir a média se inscrevem."
"Uh... Certo." Foi tudo o que consegui proferir, mas bastou, pois a cara do Diretor rasgou-se num sorriso aliviado, de quem não vai ousar continuar este assunto com receio de que eu mude de ideias.
"Tenho uma questão." O professor Malik falou pela primeira vez. "O que faço se mesmo assim ela não melhorar?"
O Diretor Horan empurrou a pergunta dele para trás das costas com um gesto da sua mão: "Falaremos disso quando, e se, lá chegarmos. A Bella é determinada, acredito que isto é um não-problema. Quanto a ti, Bella, comprometes-te a tentar melhorar, certo? Por pouco não tiravas uma negativa no ano passado com o professor Bozo."
Uma negativa não ilustrava com exatidão a nódoa que eu era em tudo o que estivesse relacionado com desporto.O esforço era tão pouco que eu nem chegava a suar. O meu coração nem aumentava o número de batidas por minuto. Talvez nunca me esforçara porque nunca precisara da nota desta disciplina.
Assenti, desconfortável com a decisão que me vi forçada a tomar, e mexi-me na cadeira. O ar ficou muito díficil de respirar... Não podiam ter esperado mais um ano? Ou aplicar este novo decreto naqueles que começavam agora o secundário? Porque haveria eu de sair prejudicada por uma disciplina que não tinha peso nenhum nas minhas escolhas para o futuro?
"Tenho a certeza de que o Professor Malik fará de tudo para te ajudar." E sorriu, como se tudo isto fosse benéfico para mim.
O segundo bloco de cinquenta minutos, que encerrava as aulas de cem minutos, terminou com o toque da campainha, que também serviu para pôr um fim a esta reunião. Saí disparada do gabinete para não dar tempo a mais ninguém de começar uma nova conversa comigo e pus-me a caminho da minha próxima aula. O meu cérebro estava a abarrotar de tentativas falhadas de contornar este obstáculo. Precisava de me acalmar. Neste momento, a caminho de uma aula, no meio dos corredores, com a novidade à flor da pele, não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer. Respira. Está tudo bem.
***
"É completamente ridículo. Nem todos nascem atletas!" Resmunguei eu, à hora de jantar.
"Nem todos nascem crânios como tu e as disciplinas que contam para a média são as disciplinas onde lunáticos como tu se safam."
"Cala-te, Mark." Rasguei o bife à minha frente, a comida a servir de saco de pancada.
Agora que estava em casa, deixei que a fúria se apoderasse de mim, porque era isso mesmo que eu sentia: fúria. Eu estava furiosa, em chamas, com a minha situação, porque tudo o que eu podia fazer era aceitar! Bem, aceitar ou arranjar alguma maneira de ficar incapacitada durante este ano e substituir as aulas práticas de desporto por trabalhos sobre desporto.
"E se eu não conseguir melhorar o meu desempenho?"
Não era de todo costume ocupar o palco durante o jantar, e era notória a dificuldade dos meus pais em saber lidar com o meu stress. A hora de jantar servia para cada um de nós falar sobre o seu dia, e o meu dia consistia (ou costumava consistir) em chegar a horas às aulas, fazer os trabalhos de casa no próprio dia, estudar com antecedência. Ninguém vinha preparado para encarar o meu mais recente problema, até porque nunca encararam nenhum problema meu.
"Querida, ainda não tiveste as aulas de apoio. Tenho a certeza de que vão correr bem, vais melhorar e vais entrar na universidade que queres, com um vinte gordinho." Encorajou o meu pai, como se isso me fosse ajudar.
Todavia, não iria. Por muito que ouvisse há anos o quão inteligente era, eu sabia que as minhas notas se deviam à minha espetacular capacidade de retenção de informação, e não à minha brilhante capacidade cognitiva. Era ótima a ler a mesma frase cinco vezes e a escrevê-la num teste. Mas a distância entre memorizar a tabela períodica e aprender a jogar basquetebol era colossal. Mais depressa chegava à lua.
"Bella, querida, já sabes o que tens a fazer. Esforça-te. Nada vem sem esforço. Tu vais conseguir."
Parte de mim acreditava nas palavras do meu pai. A outra parte sabia o que aí se avizinhava.
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(Em revisão) Physical Education Teacher Z.M.
FanfictionSe me perguntarem se alunos e professores se podem envolver, vou responder "depende". Depende de quando fazem a pergunta: em qualquer outro momento da minha vida, ou agora?
